Eu queria ser escritora. Ter declarado nos formulários Profissão – escritora. Queria também que fosse como nos filmes. Eu datilografando páginas e páginas na minha máquina de escrever verde. Tinha que ser verde. A câmera filma a cesta de lixo se enchendo de folhas de papel amassado, minha expressão exasperada, ao mesmo tempo inspirada e determinada em um close: eu datilografando furiosa e no fundo a bela janela de um quarto de hotel. Numa praia. Um cigarro queima no cinzeiro com uma garrafa de Bourbon ao lado. Até que eu termino o bestseller que vai ter uma trajetória complicada e uma estratégia de divulgação atrapalhada, apesar de meu agente ser o melhor do mundo. Minha personalidade irascível e meu gênio incompreendido afinal triunfam e minhas histórias vão seduzir leitores de A a Z. Não sem primeiro causar muito e levantar muita polêmica e discussão em todos os círculos e todas as mídias.
Em vez disso, estou na minha quarta versão de um texto insuportável, que eu nem posso amassar e jogar na cesta de lixo porque está na tela do meu computador e não impresso numa folha de papel. Vim pra essa pousada com a finalidade explícita de escrever e sair daqui com meu texto belo e iluminado, pronto pra ser lido por todos, todas, ser querido e amado, relido, comentado. E, sobretudo, muito autografado.
Antes de viajar, eu deveria ter lido o artigo do New Yorker, The Case Against Travel. Uma aluna minha já tinha lido e eu quis usar o texto na aula de segunda feira, mas ela já tinha feito meu ‘para casa’ do fim de semana, sobre um filme com o Sean Penn. Ela ama o Sean Penn, então, so be it. Conversamos sobre o filme na aula. Trabalhamos uns trocinhos de pronúncia aqui e ali e outro tanto de preposições e falsos cognatos. Aula boa. Essa aluna me diverte. Ela nunca acerta os she e os he, os her e os his. Seus personagens masculinos insistem em ser referidos como ‘she’ e os femininos como ‘he’. Ela é uma antropóloga muito divertida e de conversa solta, ainda que às vezes meio confusa ou rebuscada. Nós duas estávamos interessadas no artigo, que ficou para uma próxima aula.
Além de não ter lido o artigo, também perdi a consulta com minha astróloga no final de semana. Assim, saí de viagem na terça feira, em completa ignorância do que estava pra me acontecer. Não que minha astróloga ou o artigo do New Yorker pudessem ter me alertado de imediato a respeito por exemplo da salada de atum selado, sem graça e melancólica, que comi decepcionada em nosso restaurante favorito, na beira do Rio Arkansas. Duas horas e pouco de estrada após o início da viagem, era nossa primeira parada, para dormir em Salida. Sa-lai-da pronunciado assim porque americano é convictamente monolíngue.
Nada poderia ter me preparado para uma moça que, em pleno horário de pico de uma terça feira, pintava o pequeno banheiro do restaurante. Ela decide de repente sair pela porta com uma perigosíssima lata de tinta na mão justo na hora que eu entrava. Eu tive que caminhar por trinta minutos vestida com minha calça preta, agora salpicada de branco em uma perna e ensopada de branco na outra, até nosso motel de beira de estrada na Rainbow Road, do outro lado da cidade. Joguei fora minha calça de yoga quentinha e confortável, que já não era nova, mas era muito querida. O artigo não me alertaria sobre isto; nem mesmo minha astróloga. Muito em cima da hora.
Seguimos viagem no dia seguinte, as enormes montanhas ainda com o topo coberto de neve brilhando sob o sol e o céu azul sem nuvens, seduzindo os dois viajantes com promessa de beleza e alegrias. Mark, meu companheiro, havia feito as reservas na pousada do Parque Nacional Mesa Verde. Ficar hospedado dentro do parque era um luxo merecido, já que comemorávamos nosso quarto aniversário de coabitação. Nenhuma ameaça de divórcio. Até porque, não somos casados, apesar da insistência de família e amigos.
O artigo do New Yorker, The Case Against Travel, teria me falado que viajamos porque não gostamos de pensar sobre o fato de que um dia seremos esquecidos e talvez não teremos mais histórias pra contar. Não que as pessoas se interessem na verdade por histórias de viagem. Segundo o artigo, a questão é que elas apenas se interessam por suas próprias histórias. Nunca pelas histórias contadas por outras pessoas. Realmente, um caso sério dos autores do artigo contra viajar.
Além disso, o artigo não me alertaria quanto ao cheiro meio estranho que nos aguardava no quarto aconchegante, com vista ampla para o parque. Encantados com a beleza da vista e com o charme do hotel, abrimos portas e janelas. Em seguida ligamos o exaustor do banheiro, acionamos a descarga do sanitário e abrimos a água do chuveiro e da pia para renovar o ar na canalização. O hotel havia ficado fechado durante todo o inverno e achamos que o gás da tubulação era a causa do cheiro esquisito no quarto. Dia de São Jorge e noite de lua cheia nas plataformas áridas do sudoeste da América (do norte). Nenhum alerta teria me alcançado.
Primavera no deserto, here we go. Alguns quilômetros de trilha, um piquenique e uma linda lua cheia mais tarde, voltamos exaustos ao quarto da pousada e o odor estranho não havia desaparecido. Continuava lá, e até um pouco mais forte. Além da exaustão, era muito tarde pra chamar a recepção, que, de toda maneira, parecia estar já sobrecarregada de problemas. Criaturas da noite embalaram nosso sono, de janela aberta para amenizar o odor. Nosso cansaço ignorou o cheiro e o frio da noite no deserto de altitude.
O artigo do New Yorker iria me lembrar que Kant raramente deixou sua cidade natal. Sócrates também não viajava e preferiu a morte ao exílio. Mas mantinha o humor. … Para Sócrates, a filosofia era uma preparação para a morte. Para todos os outros seres comuns sem talento filosófico, resta o quê? Restam as viagens. Fernando Pessoa achava viajar o máximo do absurdo. Abominava estar em lugares estranhos, e a simples ideia de viajar lhe causava náuseas. Apenas os que não são capazes de sentir e de existir, aqueles que sofrem de extrema falta de imaginação, são os que devem viajar.
Concordo, em termos, com o poeta português. Pra mim, estrangeira, vivendo nestas terras de norte américa, ‘ser outro constantemente’ talvez tenha se tornado meu fado. Mas contradigo o poeta e sinto que minha alma, sim, preserva raízes. E não vivo somente ‘de ver’. Também vivo da experiência. A experiência de suar, sob o sol de quase 40 graus, visitando as ruínas dos Anasazis. Jeans, tênis e camisetas em tons vivos, colorem a paisagem desértica e as ruínas monocromáticas das antigas moradias nos penhascos. Apesar de estarmos ainda no início da primavera. Eu, obviamente, não sou turista. Sou escritora em busca de inspiração. Apesar do New Yorker vir me dizer que pra nós o turista é sempre o outro.
Nos poucos momentos de solidão e silêncio, em alguma ruína mais afastada, esse povo misterioso do sudoeste americano me sussurra coisas. No fundo do Canyon, onde pouquíssimos visitantes se aventuram, era quase como se eu já tivesse vivido por ali. (Se pelo menos eu conseguisse entender o que eles estão tentando me dizer, eu poderia escrever minha história…)
Eu e Mark temos uma brincadeira nossa, inspirada por meus ancestrais canibais no Brasil. Não creio ser o caso de descrever a brincadeira agora, mas acredito não ser difícil imaginar um viking e uma pataxó em brincadeiras canibais no meio da noite. Revivo com ele minha ancestralidade a cada contato de primeiro grau com meus antepassados das américas. Ele, um nórdico cujos ancestrais não viajaram até aqui a pé pelo estreito de Bhering congelado.
Na tarde do segundo dia, fomos transferidos para outro quarto, não tão bonito quanto o primeiro. Desta vez, sem um rato morto embaixo da cama ou em algum canto que nenhum funcionário conseguisse encontrar. Reserva de jantar de aniversário feita, vamos tomar banho e trocar de roupa para comemorar nosso aniversário de concubinato? Mark vai primeiro. O box do chuveiro é mínimo. A água, gelada! Estou muito ocupada, escrevendo meu livro fabuloso, então ele se veste e vai até à recepção. Confusa por que sua gerente está a caminho (desde a hora do almoço) a recepcionista nos dá a chave do quarto ao lado. Lá vai o Mark. Volta vestido e perplexo. O dreno do chuveiro está completamente entupido. Em mais uma viagem até à recepção, a chave do quarto do outro lado. Finalmente, banho. Atrasados. Me visto e, com o cabelo molhado, me dirijo ao secador. Mark está tomando uma bebida pra ver se consegue relaxar.
Wait! Ele me grita do outro lado do quarto. Here! Have a sip of bourbon, before you get electrocuted!
Assim, sem ler o artigo e sem ouvir minha astróloga, continuei com Mark em nosso passeio pelos famosos desertos do SouthWest. Sem história, sem poema e sem nem mesmo um artigo para contradizer o New Yorker.
