Não é da minha conta – Yan

Eu estava numa aula particular. Wendy, 16 anos e leitora frenética de livros young adults recomendados no TikTok, estava sem vontade de estudar e teria prova de literatura em 3 dias. Realismo brasileiro. A parte menos chata do currículo, ainda que as crianças achem todos os livros da escola farinha do mesmo saco cheio. Mas ela não era uma criança, era uma adolescente. Como todas de sua espécie, devia amar uma intriga. Então, para garantir seu interesse, uma nota 7 e o meu trabalho, apelei pra uma das maiores paixões humanas (a fofoca) e pro maior clichê das letras nacionais (a fofoca de Dom Casmurro).Perguntei se Capitu teria traído Bentinho; a resposta demoliu minhas convicções:

“Isso não é da sua conta”.

Vejam bem, ela não disse da minha, da nossa; ela disse: não é da sua conta. Tentei arrancar explicações, sem sucesso. E não, não foi uma desculpa esfarrapada de quem só lê os resumos. Wendy leu o livro inteiro, ainda que sem vontade. Não sei se ela pensou que eu era machista por assumir que toda adolescente gosta de intriga e, sobretudo, de acusar outra mulher de traição. Mas sei que pensei o seguinte: Capitu tem uma cúmplice, uma defensora. Mastiguei as respostas prontas que as provas de literatura esperam dos alunos, fui embora torcendo por uma nota sete e por mais convites pra aulas de 50 reais a hora.

No ônibus, voltando pra casa, a resposta que Wendy me cuspiu na cara mastigava minha cabeça. Tratava-se, talvez, de sororidade? Isso me fez pensar em outra traição contida em Dom Casmurro e que, nos mais de 120 anos de publicação da obra, foi muito menos questionada. Escobar, melhor amigo de Bentinho, teria o traído com Capitu? Teria ele cometido a talaricagem? E mais: seria a talaricagem, de acordo com o que aprendi com 16 anos e com o que muitos meninos de 16 anos ainda aprendem hoje, a pior traição que um homem pode cometer?

Talarico é o nome dado ao homem que fica com a mulher do amigo, também conhecido como fura-olho. Na etimologia, tem origem germânica e é um sobrenome comum no norte da Itália. Já o significado brasileiro, de acordo com o jornalista do Diário do Rio, Álvaro Tallarico, se deve a um tio seu. O tio frequentava os sambas de Benfica e era mui amigo de Zeca Pagodinho, que, em 1992, lançou a música “Talarico, ladrão de mulher”. Eu, que nasci no ano seguinte, conheci a expressão através da música “Vida Loka parte 1”, na qual Mano Brown diz:

Talarico nunca fui e é o seguinte
Ando certo pelo certo, como 10 e 10 é 20

Eu nunca traí e, se fui traído, nem me lembro mais (um beijo carinhoso pra você, Elena). Mas não me esqueço que na época da escola muitos amigos traíam as namoradas até perder a conta e ainda contavam nas rodas de cerveja, rindo das desculpas descaradas que davam. Muito menos me esqueço da cara de choro do Cofrinho, que ficou com a namorada do Pedrão e apagou na roda de porrada, quando a galera deu nele até rachar pra ver se saía moedinha. Homem não vale nada, as meninas diziam, e eu discordava em parte. Tudo bem, ser conivente com trair a namorada é ruim, mas ser firme em reprovar traição de amigo é algo valioso, não?

Cresci, parei de falar com os amigos da escola e percebi que a tal nobreza da fraternidade masculina era conversa mole. Não que isso valha muito coisa também, mas cada um se valoriza como pode. Eu, que já me achei muito importante por acreditar na educação, desisti da escola pública por salário e condições de trabalho, e dou aulas pra crianças ricas por 50 reais por hora, não posso falar sobre traição. Só posso é valorizar as atitudes de cumplicidade, como a de Wendy, e me torcer pra que ela siga fiel a seus valores e, se for pra trair, que sejam os livros de young adults com outros dos Machado ou o que o valha. Mas isso, no começo e nos final das contas, não é da minha conta.

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