O Teto, os gatos e o zinco quente

Antonio, interrompe o que está fazendo e sai na rua agora, olha o céu alaranjado, é Marte, o apocalipse, ou os dois, ou nada disso, é um incêndio, no caso estou nele, dentro deste furacão de fogo, justo eu, que você diz sempre que estou no lugar certo, na hora certa.
Eu tinha acabado de sair da sua casa, acabado, dez minutos, o Luan avisou que a mata do Zambujeiro estava a arder, eu vim na hora, você sabe, é na zona do Centro Veterinário, começou foguinho bobo, graças a deus cheguei a tempo, imagina, eu vendo pela tv a agonia dos bichanos sem fazer nada, os gatos estressados, dizem que eles pressentem a morte, no fundo os invejo porque não pressinto nada, só tenho medo de tudo, mas não medo de morrer, meu medo maior é a sua rejeição.
O fogo já atingiu o prédio da triagem e nunca disse para você que eu sinto, o vento espalha essa desgraça em uma velocidade digna de engano, e é importante que saiba, eu te amo, já são catorze caminhões de bombeiro, e sim, eu quero ficar com você, o tronco do zambujeiro é volátil, vira combustível, e sou covarde por não ter dito antes que te amava, graças a deus os boxes dos animais são do outro lado, fica tranquilo, eu estou bem, o Mau Mau está comigo, só falta ele para salvar, depois missão cumprida e te vejo mais tarde, já levaram a Bolinha, a Bonita, o Biafra, os filhotes, eu já não sei se aqui é dia ou noite, é um céu sem fim de fim de mundo, agora as chamas estão altas, eu sei, parece ridículo, parece que tomei essa decisão de repente, mas o ridículo sempre nos acompanhou, fecharam a estrada, lembrei de como nos conhecemos, a primeira vez que te vi quase morri, brequei o carro e você atropelou minha vida dando tchauzinho, depois postou o poema do Cesariny no Insta, agora o fogo cercou de vez, ninguém entra, ninguém sai, soltaram os animais, eles sabem para onde fugir, e eu, até esse momento, fugi do que sentia por você, devorei o livro do Cesariny e o resto é culpa sua.
Fica tranquilo, eu estou bem, uma mulher está histérica, não para de gritar que vai morrer, e eu vou morrer se você desistir da gente ao ler isso, ela berra como se escândalo garantisse sobrevivência, você escuta as sirenes, vê os aviões?
Esqueci de te contar, o gato preto, o atropelado, morreu, não hoje no incêndio, morreu ontem, alguém cala a boca dessa mulher pelo amor de deus que o meu caos não é bombástico, é discreto, eu chorei a morte do gato preto, eu choro diante da morte, agora não, meus olhos lacrimejam por conta da fumaça, mas fique tranquilo, eu estou bem, sabe, decidi botar fogo em tudo, se encontrar meu marido diga a ele que o único crime que cometi foi me proteger com as armas que tinha, me encolhi, me salvei no teu abraço, ou melhor, não diga nada, deixe que as cinzas do meu casamento falem por mim, não vai ser fácil, eu sei, e se parece estranho receber essa mensagem assim, do nada, é porque viver em segredo tem suas dores e agora que me despi delas, deixo-as aqui, do lado de fora do fogo.

Já sinto a diferença, queimo os dedos na urgência da escrita, talvez o meu mais tarde demore mais um pouco, ou a minha a salvação seja desistir da fuga, mas não se preocupe, eu estou bem, inatingível é a proteção das nuvens, acima delas tudo é sonho, já quase não respiro mas sinto tua presença nos intervalos do meu peito, não vejo um palmo a frente, só reconheço o impossível, flutuo em rios de fumo e me agarro em novas margens, tateio as paredes queimadas como se fizesse parte delas.
Fica tranquilo, eu estou bem, apenas derreti, e líquida, se for para o céu, não quero lenta minha queda, quero tempestade, o contrário não me ameaça, o inferno não me merece, esqueci o que ia dizer, alguma coisa já fulmina minha memória, tuas últimas palavras adormecem minhas pálpebras e desfazem a desordem do que é ser, hoje acordamos juntos como se tivesse sido em outra vida, você me disse até amanhã, eu respondi, não, me espera, volto logo.
Amanhã é quando, mesmo?

(mensagem não enviada)

Glaucia Faria

Deixe um comentário