“Eu sou puta, minha filha. Não sou burra. Ele vai pagar de todo jeito o que me deve ou eu não me chamo Margareth!” – isto ela dizia a uma outra senhora, também por volta dos sessenta e custosos anos, enquanto empunhava um copo americano numa mão e, na outra, um Malboro ainda aceso cujo maço restava, ao lado de cinco garrafas de cerveja, sobre a mesa amarela de plástico gravada com a logomarca da Skol. Margareth praguejava e suava numa tarde cansada de final de fevereiro de 2024, duas semanas e meia após o carnaval. Eu saíra de casa uma hora antes em direção à Praça do Sebo, no centro do Recife, para buscar um livro de memórias de Ondjaki que eu havia descoberto no perfil on-line da loja “Passa Livros”. Enquanto o livreiro se metia como um rato em meio aos milhares de volumes em busca da minha encomenda, sentei-me a uma mesa distante três ou quatro metros das duas mulheres, de onde eu ouvia sua conversa inteira, mas sem qualquer escapatória.
A voz esganiçada e já pastosa de Margareth dominava a atmosfera da praça. Impunha-se contra o brega funk que as caixas de som do bar disparavam a, no mínimo, cem decibéis. Aparentava tamanha confiança que desafiava vitoriosa cada uma das lições de autoajuda que o “Você é insubstituível” de Augusto Cury prometia, duvidando de si, na vitrine do “Recanto dos Alfarrabistas”. De tão irrecusável, a voz de Margareth alcançava até mesmo a fissura do rapazote muito magro que, envergado sobre uma lata de Coca Cola atrás do BRT na Av. Dantas Barreto, queimava a pedra que lhe estourava o juízo de alívio e ansiedade. “Ô, mulher, mas ele não disse que, se fosse cobrado, botava os malandro dos Coelho em cima de tu?”. “Sim, minha filha, se ele vier com essa, eu merma vou lá conversar com os menino dos Coelho, com os menino do Coque, com quem precisar. Tás pensando, é? Nasci ontem não, Cristiane. Quero mermo é ver se aquele fela-da-puta vai ter coragem de explicar o motivo da minha reclamação”.
Na cadeira à espera do livreiro, a camisa azul de linho empapada de suor, agarrado ao meu próprio copo de cerveja, eu podia pressentir: a irritação de Margareth era tanta que fazia vibrar os objetos sobre as mesas do bar, as estantes apinhadas de livros usados, as copas das três velhas castanholas que lutavam para oferecer à praça alguma sombra sob o sol causticante desta época do ano. Vinte dias depois do carnaval, o Recife enfim começava a se livrar da ressaca que o assimila e faz confundir real e ficção, expondo os corpos à mais inocente fragilidade, aquela que é tanto saudade quanto exaustão. A cidade se assentava. Diante de nós, um pai e dois filhos adolescentes procuravam livros didáticos de matemática, química e física para o ano escolar, tal qual meu pai, meu irmão e eu fizéramos quando o cambaleante orçamento familiar de classe média dos anos 90 nos compeliu para a Praça do Sebo, longe das papelarias de Boa Viagem e dos seus ares-condicionados.
Eu então pensava que a queixa de Margareth, anunciada daquele modo, puxava o Recife para baixo, puxava inclusive a mim à urgência da vida – eu que, com duas semanas e meia de cinzas, ainda tentava curar-me das mazelas do carnaval com caixas de antibióticos e anti-inflamatórios. “Olhe, Cristiane, o menino é meu neto, filho da minha filha. Eu faço de um tudo por ele. Se precisar, dou pra todos os véi dessa cidade pra sustentar o meu neto. Mas não é justo que, eu fazendo o que faço, tenha que segurar a onda de macho preguiçoso que não quer pagar pensão de filho. Vou amanhã mermo na Defensoria pra falar com os advogado de lá. Eles me explicaram que não pagar pensão é prisão, Cristiane. Duvide-o-dó que, com medo de ser preso, ele não dê jeito de pagar”. Eu esvaziava o último copo no instante em que o livreiro se aproximou com “O livro do deslembramento”. Desculpou-se pela demora, o livro estava numa caixa que havia chegado à loja poucos dias antes do carnaval e acabou esquecida atrás do computador, não fosse a minha procura, ele jamais conseguiria lembrar.
