
Alice Munro nos deixou hoje, após dez anos lidando com a afasia – tema, aliás, que ela explorou de modo genial no conto “Com vista para o lago”, de Vida Querida (Companhia das Letras), talvez uma de suas melhores peças. Já o lemos nesta aula aqui, lá no começo da pandemia. Única autora que só escreveu contos a vencer o Nobel, Munro se especializou em noveletas ou contos longos, de média extensão – um formato muito apreciado por Tchecov, a quem ela era frequentemente comparada.
A comparação faz mais sentido se observamos o modo como ela conta suas histórias: “sem trama nem final“, tchecovianamente, ela apenas captura um momento fugaz na vida de seus personagens, sem se preocupar com o que veio antes nem o que vem depois, indo do nada ao lugar nenhum, adotando finais abertos e uma perspectiva compassiva, sem julgamentos, dos atos de tais figuras. Mesmo usando a terceira pessoa, ela é uma craque no indireto livre, se apoiando na perspectiva de quem observa as cenas do ombro de seus personagens, se imiscuindo em seus pensamentos porém sem querer ser a dona absoluta da narrativa. A linguagem sempre fluida e sem nenhuma tendência à afetação tornam suas histórias leves, mesmo que os conteúdos sejam pesados – nos últimos anos, antes de adoecer, Munro escreveu bastante sobre doenças, envelhecimento e morte.
Copio a seguir o obituário de Madame Munro, escrito pela poeta e crítica Laura Erber, que saiu na Folha. Em seguida, na época em que a Folha de S.Paulo costumava publicar gente como John Updike em seu caderno de cultura, a gente podia ler coisas como esta resenha do autor de Corre, Coelho para um livro de Munro que nem tinha saído no Brasil,
Morre Alice Munro, Nobel de Literatura que foi mestra do conto, aos 92 anos
Canadense manejou a tapeçaria das emoções humanas e os impasses por trás de vidas que parecem comuns
Atualizado: 14.mai.2024 às 16h21
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HAIA (HOLANDA)
O mundo literário lamenta a perda de uma verdadeira mestra do conto, a canadense Alice Munro, aos 92 anos. Sua morte, que aconteceu na segunda-feira à noite, foi confirmada nesta terça por seus agentes literários.
Seu legado como narradora perspicaz e seu posicionamento público contra a desigualdade de gênero continuará a inspirar gerações futuras.
Munro foi a primeira autora mulher do Canadá a receber o Nobel de Literatura, tendo sido agraciada também com o prêmio Booker Internacional e o National Book Critics Circle Award, este último pelo livro “O Amor de uma Boa Mulher”, de 1998, por muitos considerado o seu livro mais importante, reunindo contos em que seu estilo cinematográfico —uma visão abrangente articulada à atenção aos detalhes em zoom— já se evidenciava.
A obra percorreria o mundo atraindo leitores de diferentes contextos. No Brasil, contudo, Munro passou a ser mais traduzida e lida a partir do Nobel e do relançamento do livro de contos “Ódio, Amizade, Namoro, Amor, Casamento”. Agora, decerto deve conquistar novas e novos leitores.
Nascida em 10 de julho de 1931, em Wingham, Ontário, Alice Ann Laidlaw cresceu em uma pequena cidade da zona rural canadense que serviria de fonte de inspiração para suas narrativas e para a construção de suas personagens.
De família modesta e crescendo numa época de depressão econômica, Munro aproximou-se do universo literário graças ao forte interesse pela leitura que marcou sua infância. Frequentou por dois anos a Universidade de Western Ontario, onde conheceu o primeiro marido, James Munro.
Casaram-se em 1951, logo instalando-se na cidade de Victoria, na região de Vancouver, onde fundaram a Munro’s Books, livraria independente que se tornou espaço de referência e hoje, seis décadas depois, é uma das mais respeitadas livrarias no Canadá.
Seu primeiro livro, “Dance of the Happy Shades”, foi lançado em 1968, colhendo elogios da crítica especializada. Munro tinha então 36 anos e recebeu o Governor General’s Award for Fiction, um dos mais prestigiados prêmios literários do Canadá.
O livro foi escrito ao longo de quase 15 anos, na passagem dos seus 20 aos 30 anos, quando se tornou uma mulher casada e mãe. Escreveu boa parte de seus contos enquanto seus bebês dormiam e, mais tarde, nas poucas horas em que frequentavam a escola.
Ali já se revelava uma autora capaz de manejar com destreza a intrincada tapeçaria das emoções humanas e os impasses que se escondem por trás de vidas aparentemente comuns.
Muitas histórias de Munro são mobilizadas pelo complexo funcionamento interno das personagens, que o conto permite revelar através de detalhes latentes de sentido. Sua literatura será lembrada pelas personagens femininas flagradas em situações mundanas, mas em processos de viragem, enfrentando dificuldades que a vida impõe —um câncer, o preconceito de classe ou a traição.
Munro soube percorrer um espectro múltiplo de mulheres, desenhando com uma notável economia de meios a complexidade das expectativas de meninas que crescem na zona rural, idosas em processo de demência, a jornada passional de mulheres de meia-idade ou as obsessões de escritoras reclusas e solitárias.
Professoras, secretárias, esposas, amigas, mães e filhas são flagradas em momentos de transformação ou nas tentativas de escapar de um algum modo da vida, buscando saídas para as circunstâncias que, de certo modo, as mantêm cativas.
Em certo sentido ela se irmana com autoras como Virginia Woolf e Katherine Mansfield —mas, diferentemente da primeira, Munro não investe em fluxos de consciência. Envolvidas em ações corriqueiras, as mulheres de seus contos vivenciam uma aventura interna que só se revela ao longo da leitura. Assim fuga, evasão e decisões existenciais são temas privilegiados, mesmo quando secundárias ou não explicitadas na trama.
Comparada ao russo Anton Tchékhov pelo crítico Harold Bloom, Munro fez do conto um grande gênero, sem para isso recorrer à exuberância do fantástico ou aos caprichos do simbolismo.
Seus contos são realistas e constritos, poderíamos dizer que lembram o norueguês Henrik Ibsen, pois não julgam as ações que narram, deixando para quem lê uma margem de liberdade crítica.
Sua matéria é a vida como ela é, em declínio, metamorfose ou perdição, sob o véu da aparente normalidade —a vida naturalmente ordinária e por isso mesmo sempre singular, cativante, por vezes mesmo resistente à interpretação.
No gênero conto, Woolf valorizava a simplicidade e a humanidade, vendo ali a possibilidade de acertar o leitor em cheio com uma emoção súbita que é um tipo de entendimento mais agudo sobre a vida. O conto seria, assim, um meio de cognição das experiências emotivas que nos humanizam, se sustentam na capacidade empática de quem escreve em relação aos personagens, mesmo os menos virtuosos.
Os contos de Munro fascinam precisamente nesse sentido: reconectam seus leitores com a condição humana sem escapismo, mas são construídos sobre a intensidade emocional que percorre subterraneamente o enredo, sem ostentação. Ao fim da leitura, entregam ao leitor uma emoção singular, que fica ecoando.
Munro reafirma a literatura como uma educação sentimental da qual não podemos prescindir. Se, como já foi dito, a ficção é uma história que nunca se fecha, sua obra é uma afirmação persistente dessa compreensão da literatura como espaço de abertura onde aprendemos a percorrer os caminhos sinuosos de vidas alheias, sem o imperativo da identificação total ou do julgamento moral.
Sua conterrânea Margaret Atwood tem razão ao dizer que, não importa quão conhecida Alice Munro se torne, ela deveria ser mais conhecida.
A escritora, que estava afastada havia mais de uma década da vida pública por um quadro de demência, deixa três filhas.
As surpresas de Alice Munro
JOHN UPDIKE
DO “THE NYT BOOK REVIEW”
A escritora canadense Alice Munro conquistou uma reputação literária considerável com base em seus contos. Não se trata de uma proeza fácil. Raymond Carver foi o último norte-americano a consegui-la, e Donald Barthelme antes dele, enquanto Eudora Welty, Flannery O’Connor e Katherine Ann Porter ganharam fama numa época em que a ficção curta ainda era um dos principais componentes das revistas populares.
Os contos de Munro, que começaram a sair na “The New Yorker” há 20 anos, se caracterizaram, desde o início, por serem ambiciosos: bem medida complexidade e multiplicidade de trama, clareza intensa de fraseado e imagens, honestidade psicológica excepcional, desejo de penetrar fundo.
Há um quê de resistência, de alcance ousado em Munro. Somos informados, acerca de uma de suas heroínas não tão intercambiáveis assim: “Gloria havia feito um curso de redação criativa, e o que o instrutor lhe disse foi: ‘Coisas demais. Há coisas demais acontecendo ao mesmo tempo, e pessoas demais’ “.
Outra delas comenta suas qualidades de dona de casa: “Na minha própria casa eu muitas vezes me via procurando um lugar para me esconder -às vezes das crianças, mas mais frequentemente das tarefas a serem feitas, do telefone que tocava, das conversas dos vizinhos. Eu queria me esconder para poder me ocupar com meu verdadeiro trabalho, que era uma espécie de cortejar de partes distantes de mim mesma”.
Nos primeiros contos de Munro esse cortejar assume uma abordagem autobiográfica, retrospectiva. Uma heroína reconhecível emerge do embaralhar das variações ficcionais. Ela passou a infância num ambiente rural de sobrevivência difícil, na região do lago Huron.
Inteligente, ela faz faculdade e se casa; ela e o marido se mudam para a Colúmbia Britânica, geralmente para Vancouver, e têm filhos. Mas ele possui algo -esnobismo, fragilidade- de profundamente insatisfatório, eles brigam muito e ela acaba tendo um amante, geralmente um homem de tipo operário, pé no chão, e o casamento desmorona. Agora, livre do marido, nossa heroína tem casos e vive uma vida de independência boêmia, quer seja identificada como atriz de televisão (“Simon’s Luck”), dona de livraria (“Differently”) ou editora (“Dulse”).
Gostamos dela, é claro, em seu avanço atento em meio a um mundo repleto de possibilidades românticas, fúria conjugal, prole comovente (normalmente filhas) e sinais de envelhecimento impossíveis de ignorar.
Ela não é virtuosa nem vítima -é vital. Ao norte dos moralismos ruidosos e da mania de empreender cruzadas dos Estados Unidos, as coisas no Canadá são o que são, desde a “energia dura do sexo” até a natureza “que nunca nos engana -somos sempre nós que enganamos a nós mesmos”.
O “cortejar de partes diferentes” dela mesma levou Munro, em seus contos posteriores, a empreender uma reconstrução da vida de seus antepassados. Com sua liberdade de âmbito, suas surpresas minuciosamente preparadas e sua imaginação histórica, esses contos se assemelham a poucos outros.
Seria preciso retroceder a “Hadji Murad”, de Tolstói, ou a “In the Ravine”, de Tchekov, para encontrar uma amplidão semelhante. O realismo doméstico habitual, em seu veio frequente de testemunho pessoal, impõe um alto padrão de autenticidade; pedimos à ficção curta não tanto que nos transporte, mas que soe verdadeira.
Munro impõe um desafio a si mesma: transportar o leitor a uma cidade enlameada e barulhenta de Ontário na década de 1870 (“Meneseteung”), vivenciada pela sensibilidade da única poeta da cidade; a uma cidade fabril da época da Primeira Guerra Mundial (“Carried Away”); ao “mato fechado” da divisa do Ontário de 1850 (“A Wilderness Station”) e à isolada e montanhosa Albânia de 1920 (“The Albanian Virgin”).
A parte albanesa deste último conto é excitante em sua antropologia transmudada, mas a chegada da heroína numa livraria canadense bem iluminada muito semelhante àquela vista em “Differently” soa relativamente chocha. Forjar uma relação entre o passado historicamente remoto e o presente e ajustar seus temas de magnetismo e infortúnio sexual a ambientações repletas de regras de repressão pré-freudiana são problemas que Munro resolve, mas nem sempre sem sinais de tensão.
O senso que Munro tem dos caprichos imperiosos do sexo a leva a usar de violência em seus temas, sem falar em sua técnica. Duas dessas histórias (“Carried Away” e “Fits”) contêm decapitações, e, em outra (“Vandals”), uma onda de vandalismo é desencadeada contra a casa de uma viúva por uma menina em que ela confiara.
Em “Labor Day Dinner” a violência surge de repente, no final de uma viagem de feriado empreendida por uma família tipicamente complicada e conflitante, sob a forma de uma quase-colisão num cruzamento. Os adultos, no banco da frente, ficam tão atordoados que ao chegarem em casa, o filho, no banco de trás, lhes pergunta: “Vocês estão mortos? Não chegamos em casa?”. Boa pergunta. Ser vivo e estar em casa nem sempre é uma condição definida.
Embora nem todos os contos tenham me propiciado iluminação e deleite iguais, a principal reserva que faço a “Selected Stories” (Alfred Knopf, 545 págs., US$ 30) é o próprio livro em si.
Todos já foram publicados em formatos mais agradáveis em coleções anteriores, das quais a mais recente, “Open Secrets”, saiu há apenas dois anos. Podemos apenas supor que o objetivo de “Selected Stories” é que seu lançamento renda homenagens, como esta que acabo de prestar.







PROPOSTA
A estrutura do conto de Munro, um de seus relatos mais curtos, é muito simples. Trata-se de um retrato de uma personagem, criado a partir da mescla das técnicas da contação (telling) e da descrição (showing).
Ela narra tudo no presente, sem pressa, como se fosse realmente íntima da pessoa que está descrevendo. Começa por usar a técnica do relato, ambientando a personagem em seu meio social e fazendo uma leve descrição física. Mas o conto realmente ganha consistência com duas pequenas cenas.
Na primeira cena, o jantar que Prue está tendo com seu namorado é interrompido por um pequeno escândalo. Munro é tão astuciosa que nem sequer revela exatamente o que aconteceu nem mostra o escândalo, apenas o coloca do ponto de vista da personagem.
Finaliza o texto com outra cena, esta mais misteriosa. Aqui tem lugar uma especialidade de Munro: a atenção ao detalhe – no caso, algo bem pequeno mesmo, uma única abotoadura. mas que de algum modo concretiza no leitor o modo que Prue vê o mundo: “simplesmente pega algo de vez em quando e meio que esquece”. Poderia usar essa sentença como um resumo do modo como Munro escreve ficção.
Então o que você vai fazer é meio que isso: um retrato de um personagem, mesclando telling e showing.
Para ficar mais fácil, procure se apoiar em alguma pessoa que você já conhece.
Escreva no presente, como se estivesse realmente apresentando uma pessoa que existe aqui e agora para alguém que esteja aqui e agora (o/a leitor/a).
Comece por uma breve apresentação, tentando não ser muito esquemático, fazendo um enlace da maneira como seu personagem se coloca no mundo e como as pessoas ao redor veem seu personagem.
E finalize com uma cena propriamente dita: um episódio contido em um instante particular do tempo, delimitado por um espaço específico e tendo somente sua protagonista e poucos personagens. Procure ser bastante concreto e material nas descrições das ações e no corte dos diálogos. Tenha atenção a detalhes materiais – um objeto específico, por exemplo.
Não precise se preocupar em finalizar – deixe seu personagem flutuando, tchecovianamente.
Em até uns 9 mil toques.
