O jogo da prestidigitação

Meu dedo, após horas de scroll, para no story de um desconhecido virtual que panfleta a estreia literária de uma tal Júlia Aldakian. Não que eu me interesse por livros, ou autores, me chama atenção o bar, que é perto, e a vinícola, que patrocina o evento. Como sempre, não planejava sair, e não, não reclamo da mesmice, nem do fato de não socializar, também não faço questão, não sou a rainha do assunto. Fujo da minha ignorância acerca desta palavra, assunto, que não me remete a repertório, e sim ao que não encontra assento, ou sentido. Nos dias em que cedo, ou melhor, insisto, caio na noite com a única companhia que suporto, eu mesma.

Visto uma camisa xadrez, mantenho a calça de moletom, confiro se meus dentes não carregam resquícios do brownie que me serviu de jantar e dou nota cinco, sem louvor, para o look. Esculachada sim, burra jamais, ou não ao ponto de desperdiçar copos de graça quando não se pode gastar com bebida. Enfrento os demônios e vou pelo vinho.

O Jogo da Prestidigitação é o nome do livro, interessante, bem interessante, mas o evento segue meia boca, nem fila para autógrafo há. Duas meninas me irritam em dobro, uma por ter cara de sonsa, e a outra, não porque lê a dedicatória em voz alta, mas por fazê-lo com ares de chefe de estado:

Para Valério Giz, poeta, diabético e mentiroso compulsivo, devoto de Santa Terezinha, que não troca as pilhas do controle remoto, que não usa roupa de baixo, menos ainda de cama, que não desgruda de um manual capenga de ilusionismo, que jura ter herdado do avô, mas foi comprado em sebo, que não tem filhos, nem pets, nem plantas, nem hobbies, nem a discografia completa da Madonna, embora quisesse, e possui um sismógrafo, que o salva quando perde a hora no chuveiro, ou abusa dos advérbios de modo, e que é pós graduado na arte de se contradizer.

Me cocei, inquietada. Quem será esse sujeito com tantos predicados? Como nenhum rosto ali combinava com o que imaginei ser ele, apelei para o Google:

Valério Giz é um looser cuja biografia é tão fraca quanto pretensiosa. Nasceu em 1970, de causa não divulgada. Mágico amador, mais amador do que mágico, desapareceu de circulação dentro do banheiro de uma casa de show burlesco. As 15h23 de 28 de maio de 2021, foi visto tentando acalmar uma mulher que chorava em círculos, presa na porta giratória de uma agência bancária. Valério a conhecia, era uma excolega de trabalho. Há cerca de um ano os dois partilharam a bancada de um salão de beleza furreca que beirava a falência. Superior a ela em uma hierarquia de meia dúzia de funcionários, trocaram na época algumas mensagens de WhatsApp, todas idênticas: não dormi bem e chegarei mal-humorada. Manicure, a moça. Ansiosa também, egocêntrica, um pouco tóxica. Ele agradecia, ok, obrigado por avisar. Uma manhã, respondeu-lhe com uma imagem erotizada. À tarde, ela pediu demissão. Salva, Valério não viu mal em convidá-la para um passeio a pé. Ao ouvir o sim, apaixonou-se, tombou e bateu a cabeça em um degrau. Morreu de forma ordinária, digno de uma ilusão de sua autoria. Dizem que usa peruca, e vive em Lisboa.

Caio de amor.

Cada vez que meu botão da paixão platônica é ativado, eu abraço o mico completo. Desta vez, compro o livro, peço dedicatória e autógrafo. Júlia nega a assinatura, e ainda tem a pachorra de rir da minha cara.

Agora, não. Depois, talvez.

A caneta pena no ar, constrangida, sem retorno.

— Essa puta um dia me paga. 

Esse dia chegou. Estava a ler o livro de Júlia em um café no bairro de Alcântara quando encontro com ela. Descobri que, além de escritora, ela bate ponto em uma loja de lingerie para pagar as contas, mas na crise, financeira ou conjugal (ou serão as duas sempre uma só?) a lingerie é a primeira a sair de moda. Ela havia acabado de ser demitida. Seus dedos ainda chacoalhavam, desnorteados, coitadinhos. Menor dos males, ela está de unha feita. 

Com as mãos mais calmas, Júlia e eu caminhamos até uma praça onde idosos se distraem com jogos de tabuleiro. Pedimos peças emprestadas, animadas para damas, mas só conseguimos as de xadrez. Nossa partida empata por afogamento, e à deriva Júlia e eu descobrimos uma particularidade em comum, amamos o mesmo homem de Luanda. Detalhe, nenhuma é correspondida. Uma selfie juntas é a ideia perfeita para instigá-lo, e a fotografia não segue por uma falha na rede. Um expresso duplo vem como prêmio de consolação e a raiz armênia de Julia lê a borra do meu café: dinheiro, prosperidade, renovação. Em Alcântara não há sinal de wifi, nem de amor à vista.

Júlia procura na bolsa um cartão.

Encontre este salão, fica bem perto. Entre e diga ao cabeleireiro que precisa da senha para internet. Se ele negar, seja enfática: eu sei que você é Valério Giz.

Eu me sinto “A” diva de filme de espionagem de baixo orçamento.

Não se apaixone. Valério Giz é escorpiano, ascendente em gêmeos, lua em gêmeos e filho de Xangô. Tome espaço.

Engulo meu raciocínio depois dele se debater como uma mosca presa na boca. Coloco um boné para camuflar o cabelo sujo e vou atrás de Valério Giz. E se a primeira impressão acerca dele me soou intrigante, a segunda é rocambolesca: ele existe, sob outro nome, Rodolfo. Não encontro outro adjetivo para defini-lo que não seja… bizarro. 

Disfarço o coração a galope mencionando a promoção do dia. Ele explica algo sobre corte ou hidratação, mas silencia no meio da frase e meu batimento cardíaco reverbera no ar. Imóvel à minha frente, ele levanta os braços no melhor estilo Aleluia, Irmãos! Age como um profeta que tenta abrir um hiato no tempo, e gargalha, deixando claro que o objetivo dessa palhaçada é bem mais nobre do que apenas ler o pensamento alheio. Sustenta a postura ridícula, e só para quando sacudo meu corpo, incomodada com o arrepio que me percorre.

Valério-Rodolfo pega dois folhetos e anota nas costas da promoção o próprio endereço, com a mão direita e a mão esquerda simultaneamente, e em uma coreografia de batedor de carteira submerge os papéis dobrados em diferentes bolsos do meu casaco sem que eu perceba qualquer movimento. 

Para que a menina não se perca.

(mais perdida, impossível)

Dá as costas e me deixa incrédula.

A madrugada fria tem a cor do outono e suaviza o predinho mixuruca. Chego com a agilidade de uma adolescente que pula a janela paterna. A camisa usada por ele agora dá bandeira no varal, junto a outras cinco. Chove fininho sem previsão do tempo abrir. Alguém vai exalar cachorro molhado a semana inteira. 

Ele me espera na porta. A casa cheira mofo, perfume barato e sopa morna. Nossas conversas são vulgares, sem limites, putaria mesmo. Não nos falta assunto, mesmo calados. O beijo na boca é do tamanho de um bonde chamado desejo.

Ele sussurra com voz mole: 

Essa noite teu nome será Blanche Dubois. 

Tenho na ponta da língua, além do Stanley Kowalski, o braço forte do Marlon Brando. 

I don’t want realism, I want magic.

Valério-Rodolfo-Kowalski toma por minha a frase que é de Blanche, e esclarece em tom professoral, quase desenho, que é especializado em penteados magia, não em amor. Que tudo que virá dele será empréstimo, alerta que escuto com onomatopéia de moeda de troca. Entre ácaros e molas soltas do sofá-cama eu me desmancho, e menstruo. Ele lambe a hemorragia e o resultado é inversamente proporcional ao que deveria ser estranhamento.

(me recuso a escrever o que então se passou)

Amanhece tarde – só para mim. Bato a porta com a força que não tenho para sair da vida besta. Os óculos escuros camuflam o sangue que listra meu rosto. Tenciono encerrar essa súbita relação de forma analógica, talvez uma carta escrita de próprio punho entregue via carteiro seja uma boa, mas a ansiedade é a melhor amiga do direct do Instagram. Procuro na bolsa o livro de Júlia e roubo na cara dura a primeira frase que leio: o inferno é o céu da sua boca #bomdiaparavocetambem.

A falsificação da escrita me rasura, converte decepção em literatura marginal. Ele contra-ataca na hora: és tão doce. E não escreve mais nada, não envia um infeliz emoji de coração. Permanece mudo, porém online. Eu continuo só. Só, palavra pobre. Só, palavra mísera. Só, seca. Só, real. A obsessão por pessoas que não mentem me faz amar menos, cada vez mais. Enfio a mão no meio das pernas, espalmo o sangue nas páginas do livro e declaro guerra aos dois. Olho o calendário e percebo que estou atrasada. Passei da hora de dar um bom mergulho no mar.

(Glaucia Faria)

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