Calma, Flavinha. Calma!

É um post antigo. O macaquinho sentado na beirada de uma banheira tem o corpo lavado por uma moça de bermuda e camisa de listras náuticas. O bicho olha direto no olho de quem assiste ao vídeo, não para nem pra piscar. Aí a moça ajoelhada vai se aproximando da orelhinha dele, ensaboa, faz movimentos circulares nas duas orelhas ao mesmo tempo. Um dengo. Tão bom que o olho do macaco ameaça fechar. Pisca, pisca, pisca tudo que não tinha piscado, fecha serrado mesmo de delícia e abre de novo. No fundo um jazz meio ruim, desses que dá pra pegar de graça na primeira página de busca do Google. Flavinha já viu esse vídeo umas 10 vezes só hoje. E ainda não é nem meio dia. 

Embora aparentasse calma, quase tédio, embora sentada esguia, coluna denunciando a disciplina de antibiótico dos últimos anos de yoga, terça, quinta e sábado às 5h, embora com olhos fixos na tela da sala de reunião, ambos acompanhando o laser comandado por Carlos Eduardo, dentro da cabeça de Flavinha só tinha o macaco limpo. Tava difícil diferenciar até Jesus de cuscuz. A única coisa que entrou, nem que fosse um pouquinho de nada, no ouvido desemsaboado de Flavinha foi a fala do diretor de RH sobre a alternativa aos impostos responsáveis pelo decréscimo do bônus, a luzinha vermelha descendo ladeira no gráfico de performance da empresa. 

– E se alguns colaboradores entrassem no esquema do dinheiro vivo? 

– Vivo como? – O CFO fez que não entendeu. 

– Vivo, vivo. 

Flavinha, representando o diretor do jurídico que já vai na terceira dengue, respirou fundo. Pelo nariz entraram o cheiro da ideia de merda – que sim, será aprovada – e o do suor de um conjunto de homens quando com raiva e sem bônus. Eram ela, Carlos Eduardo do RH, Cesinha do financeiro, Caio e Mario Neto de projetos. 

Respirou mais fundo ainda, misturou o cheiro de suor dos colegas a um outro de que lembrava com nitidez de grávida com enjoo. O de uma nota de R$20 riscada e emendada de durex que mantém para o caso de uma emergência, no bolsinho de zíper da bolsa. Lembrou da cara do macaco na nota, um olho esbugalhado de dúvida e de medo, se pegou imaginando o macaco vivo na tentativa de escapar, pulando de carteira em carteira, desviando de fiscalização, se escondendo em bolso de calça jeans e em envelope de malote.

-Alguma outra sugestão?

Balbuciaram qualquer coisa de incompreensível, fizeram que não com a cabeça e se aprontaram pra votar. Carlos Eduardo já mandou um “quem concorda levanta a mão” de mão pra cima. Cesinha levantou a dele mais do que depressa como se ela, a mão, ao não se manifestar, corresse o risco de queimar com o corpo todo. Caio foi no espelhamento e Mario Neto passou três segundos fazendo menção de dúvida, três no máximo. Depois todo mundo em pose de rendido como se numa brincadeira de criança alguém tivesse gritado “a mesa é lava, a mesa é lava”. 

 – Flavinha?!

Tinha que ser unânime. Mas Flavinha tava feito o macaco, olhando pra frente sem piscar. Esse macaco apareceu pra ela em maio, o do banho, não o do dinheiro. Tem vídeo dele fazendo de um tudo, lanchando, passeando, com roupinha, com brinquedo, aquele pé gigante que parece uma mão. Problema é que o bicho faz umas caras, um certo desprezo por quem tá assistindo, que, no caso de Flavinha, é Flavinha, um entortadinho na boca, até meio parecido com o dela nas fotos de menina. Aquilo dá uma angústia um horror de gastar a vida no Instagram. 

– Flavinha?!

Ela só via quando aparecia mesmo, negócio é não entrar no perfil. Já tá há seis meses sem ver vídeo de cravo, tem horror de pensar na analista pesando os Ss e Rs cariocas do “cuidado pra não escorregar no sintoma”. Depois, a empresa vai mal, o chefe é um doente de conveniência e as crianças não param de gerar boleto de inglês, de análise e de mensalidade de escola. Ninguém tem tempo a perder nessa vida não. Só que segunda da semana passada, surgiu o macaco botando um coelho pra dormir. Ela deitada ainda na cama, sabendo dessa reunião que começou hoje às 10h, mas já tava na agenda do chefe há uns oito dias. E o coelho, folgado, meio distraído, um olhar pidão de bola de gude. Entrou no perfil. Seguiu de volta, que o macaco por alguma razão já seguia ela. E aí acabou-se, né? Era o dia todinho o macaco e o coelho. O macaco cata piolho da cabeça do coelho. O macaco carrega o coelho no braço. O macaco arrasta um banco com aquele pé gigante que parece uma mão. O macaco sobe no banco com o coelho no braço. O macaco bota o coelho na cama. O macaco dorme com o coelho.

– Flavinha?!

O macaco de macacão amarelo e o coelho pelado. Ele olha pro coelho. O macaco de macacão verde e o coelho pelado. Ele abraça o coelho. O macaco de macacão de listra e o coelho pelado. Ele beija o coelho. O macaco de macacão rosa  e o coelho pelado. Ele cobre o coelho. Tudo deitado na caminha de cachorro que era só do macaco desde o primeiro post, mas agora é também do coelho.

-Flavinha?!

O macaco com o coelho no braço abre a geladeira. O macaco com o coelho no braço pega um pote de melancia na geladeira. O macaco com o coelho no braço arrasta o banquinho pra perto da mesa. O macaco com o coelho no braço sobe na mesa. O macaco com o coelho no braço come a melancia e dá melancia pro coelho. Tudo usando muito, muito mesmo aquele pé gigante que parece uma mão. 

-Flavinha?!

No susto de ouvir o nome já meio gritado, ela esbugalha o olho feito o macaco – não o do coelho, o da nota de R$20. Pega o susto pelo braço, empilha a dúvida e o medo daquele dia no circo que lhe entortou a boca, (calma, monga, calma!), ela pequena ainda, o olhar dos meninos da escola na saída do trailer, mesmo olhar que têm agora Carlos Eduardo do RH, Cesinha do financeiro, Caio e Mario Neto de projetos, os filhos pulando por dentro de casa, o marido de galho em galho, as pernas abertas do macaco no vídeo do banho que denunciavam o óbvio (cuidador desse tanto não é macaco, é macaca), puxa tudo como quem puxa um banquinho. Sobe no banquinho. Alcança a mesa de volta, pisca, pisca, pisca e levanta a perna com aquele pé gigante que parece uma mão. 

-Pronto, tá aprovado. Próxima pauta.

Deixe um comentário