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Elas disseram que o mundo tinha muitos horizontes:
-O mais evidente é aquele onde o sol se esconde do outro lado do rio. Mas existem muitos. Ali, a última enchente desbastou a margem e o solo revelou-se na fenda. Ali, você vê horizontes separando camadas diferentes, horizontes. Sob o rio, até um certo ponto, claro, translúcido. Mais abaixo, tudo escurece e nele ficam os yacarés e as piraras. Sob a água, horizontes. Até mesmo acima no céu, olhe para o alto. Viu como o ventre das nuvens se achata? Também ali há algo, uma camada. Nós somos o solo onde o céu repousa. Por cima do horizonte, há muitos horizontes. Para baixo, muitos outros.
-Mas da mesma forma que nossas flechas alcançam o céu, nossas lanças penetram os cardumes, nossas mãos escavam as raízes da manyoca, os horizontes conversam. Eu, sua mãe, elas, suas mães, não nascemos neste lugar. Viemos de longe, numa canoa rasgando o céu e as estrelas, o sol e as duas luas, o dia e a noite. Nossa canoa caiu da noite feito relâmpago – tupã! – e aqui chegamos.
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A história começava assim, um menino e várias mulheres a seu redor, elas contando sobre seu entendimento do mundo, sua cosmologia, e o menino atento escutando. São índios, índios brasileiros, bundas e tetas de fora, cabelo tijela Playmobil. Estavam numa praia e a câmera do ilustrador filmava a paisagem do alto, mostrando um rio muito grande, um Araguaia, um Amazonas.
Não gosto do artista. Digo, é competente, só não é do meu agrado. Entre Manara e Corben, tende ao segundo: as mulheres parecem atarracadas, são roliças, densas, volumosas. Mas falta a expressividade e a qualidade tridimensional do norte-americano. O menino é estranho, um tanto grotesco: parece mais forte que o normal, os braços são longos demais.
A tal canoa é representada literalmente, uma canoa caindo do céu. E as pessoas saindo de dentro delas, um número muito maior que possível de carregar. Apenas mulheres arrastando feridos, mortos. Nuas também, como as índias. Procuro alguma indicação de faixa etária na capa da revista, não há nada.
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-Ficamos próximas ao Grande Rio pois pensávamos ser mais fácil pegar peixes do que bichos numa floresta diferente das que conhecíamos. Pensamos em usar a lança como hoje você faz. Pensamos em usar o tacape como hoje você faz. Mas nós não sabíamos, aquele Rio não era o nosso. Mas uma de nós teve a ideia de tramar um puçá, uma armadilha durante a noite para capturar peixes e camarões. Assim fizemos, deixamos na corrente e toda manhã tínhamos o que comer.
-Mas um dia apareceu uma criança na arapuca. Foi o primeiro de vocês, ypupiaras. Ele foi o primeiro filho. Ele ainda não sabia falar a língua das mães e nós o ensinamos. Ele ainda era uma fera, não sabia ser gente. Nós o ensinamos. E ele cresceu e cresceu e cresceu.
Uma reparou que de dentro dele se projetava um peixe, às vezes vivo, às vezes morto. A mãe mais velha confirmou:
-Dentro de cada homem, há um peixe e este cuspirá muitos peixinhos; e por isso o encontramos na água. E para ela, deve retornar.
A mãe velha fez o peixe do primeiro filho falar e todas repartiram sua semente. Em seguida, o Ypupiara se levantou e disse assim para suas mães:
-Irei para o meu horizonte, antes que a fome venha e me faça devorar vocês. E regressou ao Rio Grande para ser peixe, deixando todas as mães na areia.
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O desenhista fez apenas a silhueta negra do primeiro ypupiaras, numa tentativa meio canhestra de criar expectativa. Depois que essa criatura amadurece e fica adulta, se torna um gigante, muito maior que todas as outras mulheres. Tem um contorno humanoide, mas tem outros detalhes que indicam sua não-humanidade – escamas, crista, etc.
Comparei o artista com Corben, mas – desculpem a honestidade – ele não é tão bom assim. Tem uma certa poluição de traços e pinceladas, uma escuridão que me lembra mais Edgar Vasquez. Acho que eu queria dizer é as figuras adultas parecem baixinhos, atarracados. O gigante sugerido aqui, o tal Ypupiara fica maior ainda.
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Passaram-se muitas luas. Curumin é menino grande agora. Forte e corajoso, obediente a todas suas mães. Ele nunca soube ou saberá qual delas é a sua mãe. Quando perguntava, elas sempre respondiam:
– não somos melhores umas que as outras, nós todas o criamos, nós todas o adotamos, assim como adotamos aos cães e aos filhotes que a caça nos cede.
Curumin concordava, mas – secretamente, no horizonte de seu pensamento – ele tinha feito sua escolha de mãe. Era a cunhã Yaraci.
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Essa página é a do o título da história: Curumin, em uma tipologia que remete a grafismos indígenas. Conforma a tradição dos gibis da época, o quadro de apresentação é o único de toda esta página. Curumin é o personagem em destaque. É aquele menino da prólogo, mas aqui ele está crescido. Crescido até demais:
Tem um corpo grotesco, musculoso demais, sustentado por pernas pequenas. Os braços quase alcançam o chão. Ele agora tem um ar simiesco, de gorila. Apenas o corpo de um Hulk: a cabeça segue com o rosto jovem e o cabelo de corte típico. O menino está rodeado pelas suas mães e por vários vira-latas. Ele ergue sem esforço – está sorrindo – um cesto enorme nas costas repleto de peixes e criaturas aquáticas difíceis de definir. Não se veem outros meninos. Em um recordatório, lemos os nomes dos autores: Capitão Simas e Nico Necromanti.
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Os autores não são muito lembrados hoje em dia. Comecemos pelo argumentista. Capitão Simas roteirizou algumas histórias de super-heróis brasileiros, como o Raio Negro, Homem-Lua e até uns episódios nunca filmados de Capitão Sete. Apesar de ser de uma família de militares, Simas nunca ingressou nas forças armadas, mas tinha um barco de passeio que levava famílias pela baía da Guanabara. Suas peças e histórias não tinham muita qualidade – conforme se pode acompanhar aqui. Entretanto, Curumin teria sido escrita após uma experiência com ácido inadvertidamente inserido em seu toddynho por uma das atrizes de Asdrúbal trouxe o Trombone em contexto não esclarecido.
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De todas as mães, Yaraci era a que mais lhe ensinava, a quem mais se preocupava. Não deixava que abusassem de Curumin e de sua força. Pois a energia bruta do filho de todas era tão grande que ele usado como ferramenta para tudo. Abria clareiras derrubando sumaúmas e yacarandás com suas mãos. Armava a pinguela da casa maior onde todas dormiam. Refazia o teto mais alto, pois ele era quem alcançava. Puxava a água do rio para o lado para criar banhos e desse modo a lama para fazer fornos.
Curumin tinha a força de muitos escravos. As mães lhe diziam como ser e como fazer tudo isso, e Curumin obedecia até as mãos racharem e as costas arderem e pinicarem de sol e suor e a boca e os olhos secarem como a cabaça esquecida na areia. Era Yaraci quem continha a fala das outras:
-Deixem Curumin ser Curumin.
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A história continua mostrando o cotidiano da aldeia, Curumin sendo usado como mão-de-obra pelas suas mães. Em um quadro, várias índias sobem sobre suas costas para alcançar o alto de uma árvore frutífera. Depois começa uma sequência meio inútil para o andamento da história na qual é mostrada uma operação de caça na floresta. Talvez tenha sido feita só para preencher páginas.
As mães perseguem uma piara de catetos, uns bichos que Nico representou disformes e europeizados, uns javalis enormes de pelos eriçados e olhos faiscantes (literais faíscas, no caso do desenho). Elas parecem mais estratégicas e confiantes – é difícil não pensar nas Amazonas, não o Rio, mas as guerreiras. Elas dão comandos aos cães, assim como ao menino gigante.
Curumin fica para trás da expedição e só atua no final. As mães espantam os porcos na direção do guri que estava de tocaia e depois ataca com sua borduna nos bichos. Separa um único filhotinho como presente para Yaraci. Ela o amamenta nos próprios seios, uma cena bastante estranha para época e hoje em dia. Uma busca no google me faz encontrar uma foto da National Geographic com imagem similar, uma mulher indígena alimentando seu xerimbabo. Fico imaginando se já existia comentário naquela época a respeito.
Nico Necromanti é o pseudônimo do campineiro Nereu Montagnero. Um atropelamento por um caminhão amputou sua perna direita quando tinha 7 anos. Anos mais tarde, teria dito em tom de brincadeira “Deveriam ter amputado meu braço direito para me deixar mais a esquerda!” Teria colaborado secretamente com movimento guerrilheiro Outubro Setembrino em alguns atentados durante o início da década de 70 mas foi confundido com um rapaz inocente morto durante o tiroteio – na época, a polícia não sabia da ausência de uma de suas pernas.
Necromanti mudou de nome, aparência, endereço e começou uma carreira de ilustrador no Rio de Janeiro, muito ajudado por um irmão jornalista que sugeriu: “Comece cobrando barato”. Trabalhou em diversos periódicos de bairros da cidade, fazendo tiras ou ilustrando diagramas explicando as jogadas que levavam aos gols de jogos da série B. Suas ilustrações chamaram a atenção de Capitão Simas, que na época procurava por um parceiro para suas histórias.
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Na volta, viram que tinha algo errado. A casa grande derrubada. O terreiro da praça todo rachado. A plantação de manyoca arrancada do chão. As mães viram as pegadas e sabiam. Elas saíam da margem da água, iam para a aldeia e depois regressavam para o rio. Os cães corriam com o focinho na areia e latiam, nervosos.
-Ypupiara voltou e destruiu tudo. Ypupiara chegou e levou nossa alegria.
As mães cercaram Curumin e muitas o tocaram pela primeira vez com carinho e cafuné. Yaraci o abraçou forte. Ela sussurrou em seu ouvido:
-Chegou o momento de você reencontrar seu pai.
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Capitão Simas estava com o filme queimado no meio. Depois de brigar com um diretor, ficou em uma lista de interditos. No meio dos quadrinhos, ficou com fama de ter denunciado desenhistas para a OBAN, por suas conexões pessoais com militares. Ninguém queria contratá-lo ou trabalhar com ele. Por mais que as excursões turísticas oferecessem um alento financeiro, Simas queria contar histórias e procurou parceiros novos, que não estivessem contaminados por fofocas. O mais ou menos talentoso Necromanti parecia ser uma boa alternativa.
As colaborações entre Simas e Nigromanti – porém – resultaram em poucos frutos. Algumas histórias da Calafrio. Uma edição especial da Spektro sobre o Esquadrão da Morte (a revista foi recolhida das bancas). Aqueles poucos números da revista de fantasia e ficção científica Cucamonga reuniam a maior parte do trabalho da parceria. Mas a dupla se desfez definitivamente em 79, com o desaparecimento de Nigromanti.
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As mães muitas esperaram na noite cantando e chorando. Algumas se aproximaram e fizeram nele a arranhadeira; percorreram suas costas, os braços e coxas de Curumin, tudo isso para tirar dele a nhaca e o torpor. De seu couro brotaram olhos de sangue feito suor.
A música que entoavam era tanto um lamento quanto uma saudação. As mães se compungiam, se despediam diante da iminente perda do único filho. Também celebravam a partida do menino para uma nova vida, sob o Rio, como Ypupiara. Curumin nunca mergulhou no Grande Rio, apenas no ribeirão para recolher os peixes dos puçás. Ele nunca havia adentrado naquele horizonte, não sabia o que esperar.
Yaraci levou Curumin pela mão e o afastou das outras mães. Ela mostrou uma pequena cuia:
-Respire, sinta o cheiro.
O menino fez uma careta de nojo. A mãe preferida explicou que era a polpa esmagada de folhas, ervas, frutos e insetos:
– Um extrato sagrado para lhe conferir força para o que virá. Deite-se.
Curumin esticou-se sobre a esteira. Acima dele se via o céu noturno cheio de estrelas e pirilampos. Mais ao fundo, o menino via as mães muitas cantando e dançando diante da fogueira. Yaraci cuspiu na cuia para tornar a mistura mais líquida e passou a esfregar e a espremer seu corpo, como quem tempera uma carne quase podre na esperança de torna-la comestível. Começou pelas mãos, os dedos grossos como rabos de tatu, e foi descendo para os pulsos, virando e revirando e escutando pequenos estalos como uma fogueira que reacende, dali desceu para os cotovelos e braços. A pele fervia como banhada em uma pimenta mansa. Yaraci subia e descia do peito de Curumin. Também esfregou o extrato nele, mas com seus pés, fazendo símbolos ocultos de outros horizontes, sinais cujos significado nem as mães mais antigas lembravam. O menino ficou envergonhado pois sentiu seu peixe despertar entre as pernas, como se quisesse nadar mas não encontrasse rio. Yaraci encostou nele com seu pés, sorriu e esfregou seu nariz nele. Sem explicar mais nada, sentou-se nele e deixou o peixe nadar em sua fenda cheia d´água.
-Deixe Curumin ser Curumin e Yaraci ser Yaraci.
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A tal “Arranhadeira” mencionada na legenda da história era assim: as mulheres arranhavam o corpo gigantesco de Curumin com uma espécie de escova – a imagem não ajuda muito. De novo, o Google me ajudou a encontrar uma base verídica para isso: índios raspando a pele até sangrar. Nigromanti tentou colocar no menino uma expressão de dor, mas bem podia ser de ira. A cena posterior da foda entre os dois deveria me incomodar mais; afinal Curumin é uma criança, e talvez Yaraci seja sua mãe. Mas é uma criança estranha, desproporcional, um pequeno Hulk; não sentimos empatia por monstros.
Além disso, existe toda essa referência bizarra ao universo indígena brasileiro. Fiquei imaginando se o tal Capitão Simas tinha contato com algum miltar que operou na Cabeça do Cachorro ou no Araguaia, alguém capaz de trazer uma base estranha e preconceituosa. Espero encontrar em algum lugar que isso se baseia em uma lenda, alguma coisa para me tranquilizar. Naquele tempo, porém, talvez essa fosse a representatividade possível.
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A história prossegue: o Ypupiara emerge lentamente das águas e se revela integralmente. É um outro gigante, talvez o dobro de Curumin, mas mais feral, com uma crista imensa na cabeça que corre o dorso até uma micro cauda. Parece o Monstro da Lagoa Negra, parece o Rikuo, personagem do game Darkstalkers, mas muito mais bruto e forte. Sua boca é pouco mais que um rasgo e uma fileira de dentes. Ypupiara ruge e bufa e Curumin surge para enfrenta-lo, golpeia com seu tacape de tronco de árvore, o Ypupiara investe com suas garras. Há muito texto, conforme a tradição da época, talvez para incrementar de força o que achavam insuficiente no desenho. Ainda não se conheciam os mangás japoneses, não tinham ideia do que poderia ser uma narrativa expressiva. Os cães estão à sua volta, latem, atacam e recuam, entre bravos e covardes. As mães choram e arrancam os cabelos. Yaraci é mais discreta em sua dor. Não há uma explicação porque os gigantes estão lutando, mas eu sigo em diante pela narrativa.
Finalmente, Curumin parece invocar uma força secreta interior. Usa o tacape contra o interior da boca monstruosa do pai e o espreme com seu próprio peso, até o tronco avançar crânio adentro com um som crocante e melado de ovo. Vitória. As mães se reúnem ao redor de Curumin e celebram. Mas continuam chorando e com expressões tristes. Algumas empunham tochas e flechas.
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A mãe Yaraci se aproxima e abraça o filho querido.
-Chegou a hora de Curumin crescer.
O menino não entende. Ela aponta para o Grande Rio.
-Você matou o Ypupiara. O Grande Rio não pode ficar sem Ypupiara, você precisa guardá-lo. Seu lugar não é mais conosco, em nosso horizonte. Seu destino é o Rio, é para lá que deve ir.
Ela o abraça uma última vez. Curumin a encara com olhos úmidos e feridos após o combate com o monstro. Uma das mães grita lá de trás, Você sabe o que precisa fazer, Yaraci. A mãe inspira fundo e o esbofeteia. Uma vez. Duas.
-Fora daqui! Você não é mais nosso filho. Não é mais nosso xerimbabo! Você matou seu pai. Você é Ypupiara!
As outras mães passam a jogar pedras e tocos e a avançar com o fogo e lanças. Até os cães latem, talvez achando que se trate de brincadeira. Curumin chora desolado, mas obedece como sempre, penetra na água e some.
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A câmera de Nicromanti acompanha ao menino mergulhando no Grande Rio. Vemos que ele não tem problema em respirar, umas fendas que estavam lá desde o início e não tinha percebido, são como brânquias de tubarão. Seu olhar humano é progressivamente transformado em algo mais animalesco.
Em seguida retornamos à praia onde estão as muitas mães de Curumin. Elas cercam o corpo de Ypupiara. Com uma faca, abrem o seu peito e ventre. E de dentro dele, retiram ovas enormes, transparentes. Lá dentro se veem formas embrionárias humanas. Uma das mães velhas diz, esse está pronto, já podemos abrir.
Com as próprias mãos abrem uma das ovas e de lá saem pequenas cunhãs. Elas choram ao contato com a luz do sol e são levadas para o que resta da Casa Grande da aldeia. Toda mãe ali empresta seu seio para amamentar as recém-chegadas. Exceto Yaraci que continua em sua busca. Ela está triste, mas também compenetrada em sua tarefa. Ajuda a recolher várias ovas.
-Encontrou?
-Ainda não.
Ela afunda ainda mais dentro da carne do antigo pai, fica ali, cercada de vísceras e costelas. Então ela vê uma ova diferente, mais escura. Ela grita:
-Achei!
As outras mães se alegram e cantam e se aproximam. Abrem a pele delicada da ova e se encantam:
-Um menino! O novo Curumin.
Então a câmera de Nicromanti se afasta novamente aos poucos, revelando a aldeia do alto, o Grande Rio, um continente em forma estranha, cruzando atmosferas e horizontes e finalmente vemos que não estamos em nosso planeta e que esse rio nunca foi o Amazonas. Uma legenda acompanha quadro a quadro esse travelling, e explica os humanos precisaram se adaptar para sobreviver, se tornaram mestiços de uma espécie alienígena de peixe humanoide. Era um bicho peculiar, as fêmeas transferiam seus óvulos fecundados aos machos. Os pais pariam os filhotes. Na velha Terra também havia uma espécie de peixe com esse comportamento peculiar, o cavalo-marinho. Aqui no planeta do Grande Rio, a humanidade de náufragos sobreviveu criando uma espécie híbrida. Para resistir ao novo ambiente, é preciso se adaptar ou morrer. FIM.
16
Estive em uma Bienal de Humor de Piracicaba uns bons anos atrás e encontrei um stand do Sindicato dos Ilustradores e Cartunistas. Conversei com o senhor responsável, expliquei o que tinha em mãos e queria saber se alguém poderia me falar sobre aquela dupla de desconhecidos, Simas e Nicromanti. Talvez eles tivessem algum registro ou ainda algum membro mais velho do Sindicato poderia conhece-los.
O senhor folheou a revista Cucamonga e até fez uma proposta para compra-la. Eu neguei. Ele não se afetou. Me indicou um nome e um endereço de uma cidade próxima, lá haveria um Velho Autor que poderia conhecer esses artistas. Ele havia morado no Rio naquela época e talvez houvesse essa possibilidade. Não irei nominá-lo e vocês entenderão o motivo.
O endereço mencionado era de um asilo. Fingi que era um estudante fazendo um trabalho acadêmico e pedi para conversar com o Velho Autor. Não era dia de visita, mas como eu estava de passagem e consegui convencer que era inofensivo – cara de nerd ajuda nessas horas – me deixaram conversar rapidamente com ele.
Foi ele quem me deu a maior parte das informações que levantei sobre Simas e Nicromanti. Ele acrescentou mais uma. Estavam envolvidos em um relacionamento gay, um com o outro. Mas evidentemente não moravam juntos, nem se pensava nisso, eram outros tempos. Segundo ficou sabendo, Simas encontrou o apartamento de Nicromanti destruído, a prótese da perna abandonada em meio ao caos. Usando seus contatos, tentou resgatar o amigo ou o que restava dele. Quando não conseguiu, partiu em uma missão de eliminar o grupo de militares que matou seu amigo.
Da última vez que o Velho Autor encontrou Capitão Simas, este garantiu-lhe que a explosão acidental no Riocentro não fora acidental, mas que ele estivera por trás daquilo. O tal sargento estava armando a bomba e de longe ele conseguiu dispará-la. Que fora parte de sua vingança. Depois dessa confissão, nunca mais se encontraram novamente. Ele teria partido com sua escuna de passeio turístico para alguma ilha nas Guianas.
Fiquei uns bons minutos estarrecido. Perguntei se achava se havia a mínima possibilidade daquilo ser verdade. O Velho Autor desdenhou em um muxoxo: seria melhor que fosse uma cagada dos militares. Faria mais sentido com o que somos, cruéis, atrapalhados, incompetentes. E continuou:
-Pelo que conheço do ego de artistas, deve ser mentira descarada. Eles gostam de ficar fabulando mundos onde são mais importantes do que são.
Desliguei o gravador e agradeci ao Velho Autor. Nesse meio tempo, ele ficou pensando e continuou, antes de ser levado pela enfermeira e nunca mais nos vermos novamente:
-Por outro lado, o atentado originalmente deveria atingir um show de música, um show do Chico. Talvez haja mais gente por aí convencida que Artistas são mais importantes do que são.
