Por Susy Freitas.
Soraya. Sóror. Sorria. Lua Madeira me vestiu de tantos nomes ao falar. Começou dizendo que somos mulheres feitas de fogo, por isso não precisamos contar tudo uma para a outra, muito menos verdades. Que quando as chamas dançam na escuridão que nos cerca, que são muitas, tomamos várias formas. Bruxuleante, foi essa a palavra que ela usou. No sol de final de tarde, seus pés tocavam a película da superfície da água empestada de cloro na piscina, e os olhos, gigantescos e fixos, não tinham brilho algum.
Foi quando uma boca dentro da boca de Lua Madeira decidiu se manifestar. A voz era diferente, e a diferença que vinha dela se espalhava pelo resto de seu corpo: as sobrancelhas subiram, e um escárnio deixou a pele de seu pescoço firme, dura. Os dedos adquiriram um tom professoral, os gestos de uma verdadeira megera. E essa boca dentro da boca de Lua Madeira me contou a minha própria história.
Começou pela tristeza que veio das minhas raízes, do menino melancólico que fui, coisas do sangue. Descreveu as roupinhas rosa com que vovó me vestia em segredo, as quais encontrei numa caixa de sapatos no dia de seu enterro. Relembrou também as coisas que papai fazia, da eletricidade que isso gerava em meu corpo antes que eu pudesse entender o que era a repulsa. E avaliou que fiz bem em falar o que falei a ele no dia em que dei um basta nisso. Que sou uma menina despirocada, peidadinha do juízo, e que isso orna com a minha beleza.
– Não te assusta, Sorria. Não sou eu que tô falando, é a garrafada. Essas coisas entram e tomam conta da sala de comando na minha cabeça. Eu só sento no banco do carona. Sou um cavalo Megazord.
– E como é ser um cavalo, Lua Madeira? Dói?
– Não sinto nada. Eles tomam conta de tudo.
Fatos. Ela parecia em paz flutuando entre mundos. Quando os meninos pularam na água, a água balançou dentro da água e a água quebrou cristaizinhos de luz no rosto de Lua Madeira, que nem piscava.
Ruas nos observava de tempos em tempos, brincando com os poucos pelos da barriga translúcida, numa postura que lhe garantia alguns anos a mais. O contraste entre ele e Mutirão era complementar: um branco azedo e alto ao lado de um caboclo baixinho e magrelo, relaxado, nenhum pelo a vista no dorso ou na cara, os olhos sorridentes por trás das lentes polarizadas verdes dos óculos, que combinavam com sua bermuda tactel. Eles falavam na língua dos homens: futebol, mas veja bem, aí é que tá e outras coisas desinteressantíssimas, livres que estavam dos efeitos da garrafada. Já eu, embora tivesse consumido dela até mais que os outros, permaneci num estado de bem-estar lúcido, confortável na Grande Espreguiçadeira Branca do Agora, um topzinho de oncinha e uma Louisie Pantie preta bem cavada como armadura contra todo o mal. Foi então que, do outro lado da piscina, por trás da língua dos homens, eu vi mamãe. A única que tive.
Ela brilhava. Apertando meus olhos, percebi que suas vestes eram todas feitas de lacres, centenas deles: lacres verde-escuros, de Antartica Zero, e lacres laranja de Fanta formavam seu manto, com as mangas enfeitadas por lacres metálicos prata. A minissaia saia, rodada, era feita de lacres plásticos rosa choque e a fazia parecer uma flor de jambo. Já o corpete era de lacres de segurança azuis, largos, cobrindo todo o seu torso. Seus calçados também seguiam a mesma lógica, com lacres adesivos, do tipo que vedam sacolas de papel de fast food ou temakerias, fazendo franjinhas nas botas prateadas. Em sua testa, um lacre de cera dourado com o desenho de uma flor.
– Bença, mãe – eu disse a ela, baixinho, sabendo que ela me ouviria apesar da distância.
– Inhaí? Deus te abençoe, minha filha! – ela respondeu, falando por meio de Lua Madeira.
A mãe e a puta. A santa e a confidente. Mamãe foi um encontro de duplos no um ano e meio que me acolheu na casa Jasytata. Ela tinha dez anos a mais que eu, que saí de Lábrea rumo a Manaus aos dezessete. O contrato da casa de três quartinhos ficava no nome dela, com todas as meninas responsáveis pelas despesas gerais. Concursada do INSS, mamãe fazia cálculos imaginários, cobrando-nos valores abaixo do recomendável e colocava pelo menos uma conta no nome de cada uma, como forma de nos incutir um mínimo de responsabilidade e incentivar a cuidar, a quem interessasse, da mudança do nome social nos documentos. Eu dividia o quarto com Arcana, e Demi e Silvina ficavam no outro, enquanto a suíte ficava com mamãe. Por sermos várias e pobres em sua maioria, vivíamos uma vida simples, mas não nos faltava o essencial: um teto, comida, abraços, uma profusão absurda de esmaltes e nossos adereços para a noite, além de tinta loura para os cabelos de mamãe, que ela mantinha impecáveis.
Mamãe tinha um olho bom para escolher meninas tranquilas para a casa, sonhadoras e focadas em seus ofícios. Havia tardes de domingo em que, no quintalzinho dos fundos, eu olhava ao redor e via Demi sentada num tijolo, costurando um disco voador de pelúcia no ombro do vestido, Arcana inventando formas harmônicas com os dedos em dança, sonhando com o próximo ball, Demi se deliciando com bolachas Escuretto, que ela sempre arrumava num pires antes de comer, e mamãe anotando coisas num caderninho, sempre assim, riscando linhas e adicionando outras. Parecíamos saídas de um romance de Jane Austen – havia livros dela pela casa toda, desses com a silhueta negra de uma mocinha de vestido e espartilho contra um fundo enfeitado de flores e o título escrito com letra de convite de casamento.
É quando vinham os balls que nosso outro lado aflorava. Ali, ela era ET El Vynah, uma espécie de Ashtar Sheran viadíssima, com a cara pintada de branco, os cabelos loiros jogados para trás e roupas surpreendentes. A casa Jasytata, no geral, era conhecida por ser esquisita. Eu, por exemplo, era obcecada pelo líder de seita Rael – não por acaso, esse era o meu codinome –, e todos os meus looks eram inspirados nele, com aquelas túnicas à la Dragon Ball adaptadas para mostrar meus dotes ao dançar. Éramos frias, distantes & peitudas, olhávamos para todas de cima para baixo como se as estudássemos, personas mantidas ao longo de todo o ball. Em suma, drags no método Stanislavski até mesmo nos treinos na praça do BK ou nas calçadas do Shopping Phelippe Daou.
Apenas ao final da festa retornávamos aos nossos corpos habituais, esticávamos para uma cervejinha no Marquinhos e trocávamos com as outras meninas, que ficavam ao redor de mamãe, dissecando suas dicas de beleza e simpatia. E não eram só as meninas, óbvio. Homens a rondavam como moscas.
– Se eles são as moscas, isso me faz o que, menina? – ela cochichava baixinho, com um resquício de sotaque cearense, enquanto eu lhe servia mais Brahma no copo americano. Ela bebia um gole, saboreava o frio da bebida descendo pela garganta e, ao tirar um Camel de cravo da bolsa, um braço masculino se estendia com um isqueiro vindo dos confins do bar para acendê-lo.
– Prefiro pensar que a senhora é o sol e somos seus planetinhas, mamãe – eu respondia do outro lado do isqueiro, invisível ainda aos demais, escondida entre as nuvens.
Foi mais ou menos nessa época que José começou a aparecer pela casa. Esse não era o nome dele, mas como desistimos de tentar acompanhar a vida amorosa de mamãe, chamávamos todos por esse mesmo nome. Nos dias em que nos visitava, José chegava quando o sol se punha e ia direto para o quarto de mamãe. Passavam horas trancados ali, e ele saía antes de o sol raiar. Depois de alguns meses, José passou a ficar conosco também nos finais de semana. “Conosco” é uma palavra forte, pois ele nunca interagia com nenhuma de nós: era como ter uma visagem de casa mal assombrada, que só víamos, se muito, com o canto do olho. Às vezes, confundíamos a presença dele com o vento que batia uma porta ou algum barulho da rua, tão poucos eram os sinais de sua presença.
– Deus me livre e guarde! – dizia Arcana ao passar pela frente do quarto de mamãe e uma luz de apagar, do nada, lá dentro. Ela beijava uma imagem estilizada de uma Nossa Senhora seminua coberta por um manto nas cores do arco-íris, com o qual me presentearia alguns anos depois.
Imagina só a reação de Arcana se tivesse esbarrado com ele como aconteceu comigo uma vez, ao levantar de madrugada para fazer xixi! José estava de saída, todo paramentado com o uniforme da Rocam, arma em coldre, colete balístico e tudo. Na plaqueta de identificação, um sobrenome: Ferrari. Seu olhar era gélido. Tinha sobrancelhas arqueadas e densas de vilão de desenho animado. Ou imaginei que assim fosse, porque a mim era impossível olhar para seus olhos de verdade. Eu mantinha minha cabeça abaixada, encarando a aliança em sua mão esquerda.
– Tu não me viu aqui, seu baitola! – e a porta se fechou por trás dele, separando a noite em duas.
Mamãe ficava muito séria e silenciosa quando ele estava na casa. Faltava aos bailes, se precisasse, e apenas os gemidos no quarto eram ouvidos nessas ocasiões. A nós, eles pareciam misturar dor e prazer, perigo e entrega, tudo num único ruído. Sabíamos que o sexo sempre fora o fraco de mamãe e que ela tinha homens de todos os modelos e tamanhos, vindos nas mais variadas embalagens e do mundo todo. Eles entravam, viravam Josés e ficavam pouco tempo, como se estacionassem num rotativo de pretendentes, às vezes mais de um ao mesmo tempo, apenas com agendas separadas. José era um caso à parte, pois quatro meses se passaram e ele continuou assombrando a casa até aquela noite fatídica.
Eu chegara em casa cedo para um sexta. Era noite de ball, mas como não ia competir daquela vez, fiquei só um pouquinho. Assim que entrei, ouvi o barulho de um bicho que não existia na Terra, como se uma nave alienígena tivesse caído na casa e seu único sobrevivente agonizasse. Uma luz vermelha vinha da suíte de mamãe, vazava das brechas de sua porta com o frescor da split. Eu me aproximei, já descalça, cada passo mais frio que o outro, até que olhei pela brecha da porta e vi José desferindo um golpe – que estava longe de parecer o primeiro – contra a barriga de mamãe. Ele usava uma meia, e dentro dela alguma coisa dura e pesada, e quando não a batia mais, rodava a meia com a mão direita, que girava como um planeta em torno do sol. O mais impressionante é que mamãe não apresentava marca alguma, por mais forte que ele batesse. A dor e agonia, porém, eram cristalinas.
– Tu não vai mais dar praquele viado! Tá me ouvindo, seu traveco escroto?
Eu sabia de quem ele estava falando. Era do José dos livros. Esse nunca ia lá em casa, mas mamãe suspirava pelos cantos por ele com seu cigarro de cravo, um sorrisinho lascivo nos lábios e livros que eu nunca havia visto em todos os cômodos, por cima dos romances de Jane Austen. Os livros de José não tinham o nome do dono assinalado em canto algum, mas eu sabia que eram dele por conta do carimbo: uma letra R., vermelha, na primeira página. Se eu ameaçasse fazer qualquer menção àqueles livros, mamãe me batia de leve na mão, numa repreensão graciosa que ela enchia de rodelas de fumaça do Camel.
Agora, mamãe tinha um pedaço de papel na boca e os olhos inchados de tanto chorar. Estavam vermelhos como a luz do abajur, tudo coberto por aquela cor opressora, que comprimia o quarto. Seu corpo, encurvado como um verme. Demorou a ela perceber minha aproximação silenciosa, e quando levantou a cabeça e me olhou nos olhos, pareciam ter se passado anos. Na nossa telepatia, ela se limitou a me dizer uma única e diminuta frase:
– Fura esse fudido.
Assim que me mudei para a casa Jasytata, mamãe me presenteou com um canivete. O cabo dele tinha o desenho de uma espiral de estrelas e outros elementos espaciais estilizados sobre um degradê roxo e preto. Todas nós tínhamos um desses, e usávamos como um adorno secreto, geralmente oculto na cinta liga. Mas quem conhecia a casa Jasytata um pouco mais a fundo sabia que, por debaixo das saias, levávamos um segredinho perigoso, como José rapidamente percebeu quando eu lhe furei o ouvido com força. E antes que ele pudesse protestar, mamãe cuspiu o papel da boca e atingiu sua cabeça com um de seus inúmeros troféus de balls passados: femme, vogue, face, ela já tinha feito de tudo, vencido em tudo, ela era tudo. Quanto mais ela batia na cabeça dele, xingando-o dos mais variados nomes, mais ela parecia se lembrar disso.
Achei que ficaria horrorizada, mas ver aquele José ensanguentado no chão do quarto, sob o abajur cor de carne, me deu uma tremenda paz. Ajudei mamãe a se levantar e recolhi o papel que ele a obrigava a manter na boca. Nele, um poeminha com a letra dela, no qual se lia:
R.
Seu gosto passando
Pela língua
Da memória
O dia inteiro,
Às vezes como tornado
E noutras como carrossel.
Me sinto tonta,
Transbordo fogo
como o túmulo de
Santa Etelvina
No Finados.
Quero parar
Mas o desejo
É um cão boquiaberto
Na janela do carro
No comercial de tevê,
Onde tudo tem o sabor
Do sol.
Estou branca
Deliro na cegueira dos trópicos
Rodopiando o transe
De teus sinais e cicatrizes
Sobre a transparência
Da tua carne.
O gosto dela passando
Pela língua
Da memória
O dia inteiro.
Guardei o papel na penteadeira de mamãe, certa de que ela adoraria retorná-lo aos segredos de seu caderninho. Uma burocracia ainda nos aguardava.
– E agora, mamãe? O que vamos fazer com esse gambé filho de uma puta?
– Eu vou guardar ele num potinho.
Essa foi a parte chata. Cavar a cova daquele José no quintalzinho, as unhas arruinadas! Por sorte, Demi, Arcana e Silvina chegaram do ball lúcidas como santas, graças ao rapé que compravam no Centro de Medicina Indígena. Ao verem a cena insólita, José desfigurado na terra e eu com a pá na mão, mamãe interrompeu sua pausa para o cigarro e disse:
– O José não vem mais, meninas.
Elas se olharam, tiraram as roupas de festa e, apenas de calcinha e sutiã, começaram a procurar utensílios com que pudessem nos ajudar a cavar. Naquela mesma noite, tudo estava resolvido, posto que aquele José, por estar envolvido com a apropriação indevida de bens recuperados pela polícia & otras cositas más, pouco figurava como pauta em portais de notícias de quinta categoria. Afinal, em ano de eleição, não interessava a ninguém escancarar seu networking.
Passadas algumas semanas, vivíamos normalmente, e outros Josés entravam e saiam da casa com a rotatividade costumeira. Numa dessas ocasiões, um deles aportou na sala de estar. Recostado no sofá, vestindo uma camiseta preta que deixava uma faixa de sua barriga branca aparente, ele pintava as unhas de mamãe e fumava um dos Camels de cravo. De sua mochila Samsonite, jogada no chão, livros e mais livros escorregavam para fora. Ao me ver, ele sorriu com dentes meio amarelados e perguntou:
– Quais são suas ideias sobre terrorismo arquitetônico?
E foi assim que ele passou a ter um nome: Ruas. Naquele dia, o esmalte em suas mãos era um azul-claro idêntico aos ladrilhos da piscina ao fim da tarde, anos depois. Pensando bem, mamãe olhava rumo ao horizonte com um sorrisinho microscópico entre os lacres naquela aparição, na certa pensando em outros Josés.
