Lua de fel

Precisou de um zeitgeist feminista para, 60 anos depois de sua estreia, Silvina Ocampo ser finalmente publicada no Brasil. A mulher de Adolfo Bioy-Casares, melhor amiga de Jorge Luis Borges e irmã da também escritora Victoria Ocampo foi a escritora argentina mais destacada do século 20. Mas, fora o machismo estrutural, a imensa sombra de Borges e Bioy-Casares talvez tenha eclipsado uma escritora muito original. Talvez até mais original que eles.

Herdeiras de uma família riquíssima, as irmãs Ocampo agitaram os salões literários de Buenos Aires. Quem não fosse convidado para suas festas não fazia parte da parrilla argentina, o que atraía olhares raivosos para as irmãs. Também não devem ter ajudado sua militância antiperonista e seu comportamento libertário – o casamento de Silvina com Adolfo era pro forma, ela pegava os homens e mulheres que quisesse (o que incluía pegar a sogra e a sobrinha). Sylvia Colombo fez um ótimo perfil de Silvina na Folha, que copio abaixo.

Mas não são essas fofocas que nos interessam (mentira), e sim a literatura de Silvina. Uma espécie de Lygia Fagundes Telles argentina, Silvina também era uma craque na ficção breve, uma especialista em literatura fantástica e em emoções ambivalentes. Muita crueldade, amores angustiados, terrores noturnos e crianças horríveis são padrões em suas histórias, sempre temperadas com muito humor negro.

Resgate da obra de Silvina Ocampo joga luz sobre mulher vanguardista e liberal

Feminismo renovou interesse por escritora argentina que teve homens e mulheres como amantes

BUENOS AIRES

Sylvia Colombo

Os textos de Silvina Ocampo, que morreu em 1993, são habitados por crianças cruéis, memórias retorcidas de sua própria vida e de mulheres de atitudes distintas das convencionais da época. 

“Era uma escritora rara, esquisita. Não se encaixava tão bem na época, só que agora se encaixa perfeitamente. Até seu humor pode ser melhor entendido”, diz a escritora argentina Mariana Enríquez, que há pouco visitou o Brasil durante a Festa Literária Internacional de Paraty.

Enríquez é autora de “La Hermana Menor – Un Retrato de Silvina Ocampo” (Anagrama, importado), um ensaio biográfico da escritora, que será lançado no ano que vem no Brasil, pela Relicário. 

Ela concorda com o fato de que Silvina esteja tendo sua obra resgatada. “A renovação do movimento feminista na Argentina impulsionou o interesse por alguém que viveu de forma tão vanguardista. E há uma onda entre escritores argentinos jovens que têm um gosto pelo perverso muito presente na obra de Ocampo.”

A autora era a irmã menor da editora, tradutora e escritora Victoria Ocampo, uma das mulheres mais influentes da Argentina de então. 

Sua casa, chamada de Villa Ocampo, hoje um museu dedicado à literatura, era um ponto de encontro de escritores como Jorge Luis Borges, Adolfo Bioy Casares e outros. Ali a irmã mais velha traduzia obras europeias, recebia artistas estrangeiros, promovia saraus e editava a célebre revista Sur.

Silvina era a última de seis filhas. Tinha 13 anos a menos que Victoria, com quem tinha uma relação intensa, mas muitas vezes permeada por ciúmes intelectuais ou por críticas ao estilo de vida uma da outra. 

Silvina era bissexual, tinha um casamento aberto com Bioy Casares, casos extraconjugais com homens e mulheres —e talvez até com a mãe de Bioy, uma história que Enríquez considera que deva ser séria, embora não tenha encontrado evidências concretas. Mesmo com Bioy, Silvina viveu anos sem se casar, algo impensável para as mulheres do período. Há evidências de que teria formado um trio amoroso temporário com o marido e uma sobrinha menor de idade. 

“Victoria era liberal nos costumes também. Eles eram uma família rica, não religiosa, e essa aristocracia decadente na Argentina tinha um comportamento aberto. Victoria se divorciou e teve um amante. Mas, quando soube que Silvina estava fazendo sexo com a sobrinha de sangue, menor de idade, achou que erademais. E a criticou por isso.”

Outra das irmãs do meio, Clara, morrera na infância, de diabetes infantil. “Naquela época, era uma doença que degradava muito, e Silvina descreve a mudança de cores do rosto da menina. Este rosto reaparece em suas obras, azul, como uma imagem numa multidão. Considero um fato que influenciou muito a vida de Silvina”, diz Enríquez.

Apesar de ser casada com Bioy Casares, irmã de Victoria e a melhor amiga de Borges, Silvina não se alinhava intelectualmente com eles. “Era mais moderna e vanguardista em seus gostos artísticos.”

Até o caminho que fez para chegar à literatura foi diferente. Aos 26 anos, partiu para Paris para estudar pintura. Foi aluna de De Chirico. “Só que ela tinha amigos muito talentosos, como Xul Solar, e logo percebeu que não teria talento para seguir nas artes plásticas, então se voltou para a literatura, aí sim se encontrou.”

Outro ponto que a diferenciava do grupo a que pertencia era que gostava de jogar com a linguagem popular da região do Prata, com o chamado “voceo” —que marca a conjugação de verbos e a gramática dos países da zona. “Nem Borges chegou a isso, apesar do interesse pela vida do periférico em Buenos Aires. Todos escreviam num espanhol meio neutro. Ela é dos primeiros escritores argentinos a incorporar isso tão fortemente.”

Algo que os unia era o ardente antiperonismo. Como membros da elite, tinham horror à linguagem, aos modos, e à ascensão do líder popular Juan Domingo Perón, a quem chamavam de tirano.

A política, porém, não era de suas maiores paixões. 

Tanto que alguns de seus escritos, identificando o peronismo com o fascismo, eram bastante rasos do ponto de vista da argumentação ideológica. “Sua opinião política era, por inércia, a opinião de sua classe social”, diz Enríquez.

Mesmo que Silvina tenha a imagem de alguém mais misterioso, que talvez tenha vivido sob a sombra de seus amigos e familiares, a escritora teve uma vida muito produtiva. Escreveu e publicou de 1937 a 1988, foi traduzida para várias línguas e obteve reconhecimento, mas não uma grande popularidade. “Essa parece que vai começando a aparecer agora”, diz Enríquez.

PROPOSTA

Sempre achei curiosa a semelhança deste conto com o filme Lua de Fel, de Roman Polanski (além, claro, com Titanic). Pra quem perdeu a chance de ver esse clássico, basicamente é a história de um casal lindo e jovem que vai passar a lua de mel em um cruzeiro e se envolve com outro casal, meio bizarro. Evidentemente as coisas não dão certo para o casal, mas por isso mesmo é que dão muito certo para a narrativa.

Então você vai escrever sobre isso: sobre um casal que viaja para algum lugar e o relacionamento dos dois desanda quando se envolvem com outras pessoas.

Uma coisa que gosto nos relatos de Silvina Ocampo é a velocidade. Seus contos curtos são quase sempre estruturados na forma de contação, com algumas aberturas dentro da narrativa para a criação de cenas. No conto acima, por exemplo, destaco a cena da sedução do brasileiro, a cena em que observa o marido conversar com a colega de viagem e a cena final. Mas quase todo o resto d história é fundada na fábula, na contação, na descrição rápida dos ambientes e dos personagens e dos estados de ânimo de casal.

Pois bem, sua história desta vez vai se centrar na criação de um conto estruturado mais na contação do que na descrição de cenas. Ou seja, mais telling do que showing, para usar o jargão clássico. Lembrando de onde vem a famosa diferença entre modos de narrar uma história…

O conceito é frequentemente atribuído a Tchekhov, que supostamente disse: “Não me diga que a lua está brilhando; me mostre o brilho da luz em um vidro quebrado.” Na verdade, em uma carta para seu irmão, Tchekhov sugeriu: “Ao descrever a natureza, é preciso captar pequenos detalhes, agrupando-os de forma que, quando o leitor fecha os olhos, ele consiga formar uma imagem. Por exemplo, você descreverá uma noite de luar se escrever que na represa do moinho um pedaço de vidro de uma garrafa quebrada brilhava como uma estrelinha, e que a sombra negra de um cachorro ou lobo passou rolando como uma bola.” Não à toa Tchecov era um grande dramaturgo – um grande contador de histórias, mas fundamentalmente um grande criador de cenas. Esta carta está em Sem Trama Nem Final – 99 Conselhos de Escrita (Martins Fontes), manual de escrita obrigatório.

Mas enfim, em sua história você não precisa se preocupar tanto com isso, a não ser em instantes capitais. Na maior parte de seu texto, você vai usar o telling. Use o showing somente quando for de fato importante, como uma bolha que se destaca da linha plana. (Roberto Bolaño talvez seja o exemplo máximo da dinâmica show/tell, quase nunca se percebe quando ele sai da contação e entra na cena.)

O enredo que você vai usar é simples. Um casal em uma viagem que começa feliz, mas logo se encrespa por causa dos envolvimentos do casal com outros personagens, e aí a viagem acaba.

Como acaba seu conto? O casal se separa ao fim do relato, ou continua junto, ainda que meio arranhado? Pense nisso quando começar a escrever sua história.

E assim que começou sua história, não pare. Use a técnica do escritor argentino César Aira, a chamada fuga para a frente: não pare para corrigir ou revisar o que já escreveu – simplesmente continue contado. Aira, quando termina um parágrafo, faz com que a história avance, nunca retroceda, esta é a chamada fuga hacia adelante. Uma vez que Aira termina o trabalho, as revisões são estritamente proibidas. A história deve desenvolver-se a partir do que foi escrito no parágrafo anterior, o que o obriga a formular ideias e giros argumentativos sempre novos.

Escreva na primeira, segunda ou terceira pessoas, em até 9 mil toques.

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