Ninguém sai!

por Américo Paim

Entramos no terço final dessa festa. A casa ainda está cheia. Ninguém com cara de sair. Agora, então, me parece o momento mais inadequado. Entendo a surpresa de alguns com a cena. Eu a previ, entretanto. Assim que ouvi a campainha. Essa hora, poucos minutos após a meia-noite, é a que ele mais gosta. Mesmo acostumado, admito que é sua entrada mais original, em muito tempo. A garrafa do Chivas 8 carregada como um bebê de colo está se tornando uma marca registrada, associada ao gosto de ser o último a chegar. Sim, o homem é um artista. Quando lhe dizemos isso, ele sempre diminui o exagero da frase, mas é certo que não a ignora. É um reconhecimento, uma constatação.

– Ninguém sai! – ele grita, a boca cheia de dentes, para estrondosa gargalhada geral.

Sabe que conquista até quem ele nunca ouviu falar e lhe será apresentado em instantes, em ritual conhecido de simpatia e sedução. Porém, sua cartola guarda mais de um coelho. Certo de que ainda tem a atenção de todos, saca a tampa de cortiça da bojuda garrafa e a lança por cima do muro em um gesto quase de balé, embora seja faixa preta de caratê. Qualquer resto de estrutura sisuda em volta dele, se vai. Nesse instante, estimo que a maior parte das mulheres que assistiram à performance já sucumbe. É um drible de Garrincha, sempre o mesmo, mas inevitável. Ele me vê numa escaneada e sorri. Compreendo o código – vem mais performance.

Se desloca como se fosse no tatame, não com as mãos vazias do caratê que domina, mas como o caminho suave do judô. Passos firmes, porém, gentis. Desfila beleza e confiança, com o atlético corpo negro, as guias à mostra, tudo realçado por uma camisa branca de mangas compridas, dobradas com desleixo proposital, meio amassada – o que explica para mim sua animação um tanto acima do ponto. Inicia pelos mais velhos, as mãos de cada senhora beijadas com o olhar breve, seguido do sorriso de martelete. Confiante em receber atenção de volta, decide em micro instantes quanto demorar em cada mão. E sai, se movendo sem olhar para trás, vai em busca do próximo beijo. Se é pessoa de seu círculo ou gosto, se demora em mais mesuras, talentoso o bastante para que ninguém duvide serem sinceras. Findo o circuito, vem para os amigos e as bebidas, todos esperando por ele, eu incluído. Não sem antes mais um ato curto. É um dos meus momentos preferidos da rotina. Ele, se sabendo observado, claro, olha aleatório em volta, sem focar ou parar de sorrir, e reduz o passo para discreto, uma oferenda para apreciação, parecendo ser tudo natural, de uma forma que irrita.

– Eita, Serjão, a noite tá no segundo tempo, hein, velho?

– Você me conhece, irmão – devolve ele no abraço.

– Caso novo?

– Rominho, não vamos falar de trabalho.

– Você não vale nada. Não tô falando com o advogado.

– Hum, tá bom – ele fala e eu rio.

– Saí para fazer um favor a uma amiga de Tânia, assunto profissional.

– Ah, tá. Sua irmã não está inocentada pelo pedido – sabe bem o que faz, só lhe digo isso.

– Eu juro que tava tranquilo, focado na tarefa.

– Sei…

– Ela extrapolou nos elogios, aí, fui obrigado a dar mais atenção.

– Roteiro de sempre.

– Eu diria que foi divertido.

– Olhando pra você, foi comédia de sucesso.

Ele ri e pede seu drink – uísque com duas pedrinhas. Dá uma olhada geral. Só nesse movimento é fácil ver que cativou pelo menos duas. A loura de vermelho mal consegue disfarçar. Seu corpo, muito bonito, fala tudo e mais um pouco. Serjão parece não se abalar. Me diz que ela já parece estar meio alta e a contenda não seria justa. Sempre teve essa ética, reconhecemos.

– Se eu pegar essa vai ser pra levar a pobre pra casa dela, pois vai dar pt, é certo.

Ele fala com naturalidade, enquanto olha para a outra, e essa sim, tem sua atenção. Uma mulher branca, com vestido idem. Um imã. Já havíamos notado. Chegou no início da festa. Os cabelos longos e escuros sobre os ombros. Ele a analisa, a tempo de pedir a segunda dose. Não lhe alerto sobre ir devagar. Ele sempre deixa todos bêbados e sai inteiro do outro lado. Vai até as primeiras horas da manhã, fácil. Ele retribui os gestos da mulher, em uma sequência que mostra já ter lido o livro todo, à sua maneira.

– Ali não tem jogo.

– Como é? A criatura tá caidaça.

– Ela tem seus atributos.

– Só? É… você é um colecionador…

– Sério, ela não é assim uma…

– “Formidável”?

– Isso. Não. Não está no topo da escala. Formidável é formidável.

– O sarrafo é alto aí, viu?

– E tem mais. Ela é racista.

– Como?

– Conheço esse gestual. Só está provocando. Se eu for lá, vou dar de cara na porta.

– Por que acha?

– Está se insinuando para outros. Faz e olha para mim. Como se conversassem.

– E daí?

– Os garçons e a mocinha da limpeza. Ela olha com desprezo. Todos pretos, como eu.

– Não reparei.

– É que você não precisa – fala e me avisa que vai dar uma circulada.

Ele passeia pelo salão e se coloca perto de um grupo de mulheres. Pega uma conversa com dois senhores conhecidos, advogados como ele. Está em seu terceiro copo, se não erro a conta. Com facilidade as tais mulheres são atraídas por ele e logo estão todos conversando. Talvez sejam do Direito também. Discreto, mas seguro, ele muda de lugar na roda até se aproximar da morena de azul, que se não está no topo da sua escala, eu desisto. Linda, elegante. Eu ficaria fácil, me sentiria ganhador da mega. Ele não. Apenas muda a atitude corporal, mais insinuante. Aquela conversa não é de trabalho. As mãos e pernas dela não estão confortáveis. O intervalo dos goles dela na taça de proseco diminuem. Está desgovernando e ele já sabe. Acho até que pode não ser bem um jogo de caça, talvez uma disputa de talentos, pois parece bem interessado. Mas ele é terrível e faz seu movimento clássico, apontando para dois lugares livres no sofá. Ela não hesita. Sentados, ele adota a postura que sabemos ser dos últimos passos no tabuleiro, antes do xeque. É um gesto peculiar. Para nós conhecedores, já comum. Para um novo interlocutor, atrai pela estranheza. É o que concluo. De forma lenta e calculada, sobre a perna esquerda cruza a outra, onde apoia seu antebraço direito. Na mão, espalmada para cima, repousa seu copo de uísque, como se o oferecesse à moça. O equilíbrio instável do líquido no copo funciona como um pêndulo, hipnotiza. Ela se aproxima dele, irreversível. Creio que nem percebe o que faz. Um beijo. E outro. E ele nem larga o copo para isso.

Sua posição no sofá é de frente para a entrada da sala. A moça de costas. Mais uns beijos e tudo muda. Entra uma mulher, preta como ele, com um vestido bege. Ela é linda e logo está cercada. Serjão nem se dá ao trabalho de dizer palavra, vai para perto dela, conversar com outros amigos. Fica no campo de visão da deusa. O sorriso impossível garante a atenção dela, assim me parece. De súbito, porém, ele vê algo no rosto dela que o incomoda. Parece paralisado. Observa por alguns instantes. Volta até onde estou.

– Que olhar. Reparou? Sentiu como ela anda?

– Serjão, você acaba de beijar a outra mulher.

– E as pernas? E como ela balança a cabeça pra ajeitar o cabelo.

– Velho, tá me escutando?

– E a forma como ela fez de conta que não me viu olhando.

– Só rindo, viu…

– Mas não vai rolar nada. Não dá.

– Qual é?

– Ela tem uma tatoo perto da orelha esquerda. Um cavalo empinando.

– Eita, que coisa. Sério?

– Não tem condição. Você sabe. Deixa quieto.

– Você não acha que…

– Não vamos falar mais sobre isso.

– Tá bom. E a outra moça? Como fez ela sair do sofá?

– Ela foi retocar a maquiagem.

– Vai fazer o quê com ela?

– Repare como ela sabe o que estou fazendo e me ignora. Diabinha – disse ele, voltando à outra.

– Venha cá, tá me ouvindo?

– Fica naquela posição de propósito, pirracenta.

– Serjão, diga alguma coisa real, pra eu saber que você está aqui entre nós.

Ele procura a garrafa de Chivas e acha uma de White Horse. Me olha, bebe um longo gole e mantendo o olhar na tal mulher, manda, pausando um sorriso entre as sílabas:

– Que coisa mais FOR-MI-DÁ-VEL.

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