Acabei de abrir a penúltima latinha de patê

Digamos que vocês tenham acordado numa sexta-feira, comido um cogumelo e decidido ir ao cinema no Shopping Iguatemi. Eu sei, vocês não são disso. Quem vai ao cinema no Shopping Iguatemi? Mas é que as malas estavam prontas para o torneio de tênis quando vocês lembraram que ainda não tinham assistido ao filme da Zendaya. Fica meio feio ir pra um torneio de tênis e não dar conta de participar de nenhuma conversa sobre o filme da Zendaya. Vocês levantaram bem, contentes, dormiram feito dois bebês. Prepararam café, pão torrado e um ovinho mexido. Ambos em condição de trazer título pra casa. O ovo naquele ponto de “Minha nossa senhora, como a vida é boa”. 

Tiveram a ideia do cogumelo meio juntos, “Por que que a gente não come só um pouquinho antes da viagem?”. A estrada ficaria tão linda. Concordaram. Vocês querem chegar de tardezinha pra não ter problema de acordar amanhã. Dá tempo. É tomar banho, checar as malas e sair com calma. Só que antes do banho pararam pra lavar os pratos, botaram uma musiquinha pra tocar, entrou o Caetano cantando em espanhol. Aí pronto, lembraram da Zendaya, “Será que dá?”, “Oxe, dá demais”. 

Vocês iriam no cinema perto de casa, tem até espaço pra por as malas entre as poltronas. Mas aí que se atrapalham nos pratos, no banho, nas malas, nas raquetes, na porta e no elevador. Já no táxi, se dão conta de que perderam a sessão por uma hora e meia mais ou menos que “eita, esse ano tá é voando!”. Outra sessão hoje só no Shopping Iguatemi. Mudam a rota. Pedem pro táxi entrar no estacionamento e seguir até o sétimo andar. O taxista obedece sem perguntar “Por que vocês não ficam na porta de entrada que nem todo mundo?”. E a partir daqui, acho que podemos seguir o exemplo do taxista. Pra que perguntar o porquê de tudo também, não é?

O elevador pára no sexto, no quinto, no quarto, onde vocês deveriam ter descido, no terceiro e no segundo. A cada andar entra uma mulher acompanhada de um homem com um casaquinho sobre o ombro. Tá frio, mas por alguma razão, os homens do Shopping Iguatemi não vestem seus casaquinhos. No terceiro andar, vocês já são oito dentro do elevador. Aí entram uma mulher e um homem com casaquinho e um filho no ombro com seu próprio mini casaquinho no mini ombro. Vocês acham a cena um pouco perturbadora e deixam vazar um “Não”, meio mais alto e mais rouco do que um não normal, quando a dona dos acasacadinhos faz que pede licença, “Cabe?”. Ninguém escuta porque toda a população do elevador diz que cabe por cima de vocês. Aí a mulher pergunta pro mini homem, “Qual é a frutinha do próximo andar?” Vocês não entendem nada, mas depois percebem que cada andar é representado por uma fruta. Parece que o sétimo é melancia. Vocês decoram pra não perder o carro na hora de voltar. O mini homem sabe as frutinhas de cor, embora a mulher tenha feito questão de esclarecer que “Comer, comer mesmo, ele só come banana”. O grupo dos acasacadinhos e suas mulheres ri coreografado. 

Vocês conseguem se desvencilhar do elevador e andam cheios de pressa pelos corredores e escadas entre o segundo e o quarto andar. Vocês passam pelo terceiro andar sete vezes. Ficam presos numa escada que sobe tentando descer, mas acham o cinema. O atendente é simpático de dar medo e cada dente dele equivale a uns 3 seus. Gostariam de pagar meia, embora não sejam estudantes nem aposentados, nem professores, nem tenham conta no Bradesco Prime, nem carteirinha de sócios do Paulistano. Vocês compram o ingresso inteiro tentando evitar os dentes do atendente, mas ele é muito simpático mesmo. 

Vocês querem pipoca, Mentos e água. “Qual pipoca?”, o moço do balcão do café pergunta sem rir. Vocês escutam, mas inauguram uma outra pergunta, “Será que esse não tem dentes?”. Ele tinha, só que o Mentos tava faltando. Vocês ficam repetindo que sim com a cabeça, sem entender nada do que o cara diz e acabam levando dois adicionais de azeite trufado, por R$27 cada, para uma pipoca doce de chocolate e uma de caramelo. A falta de Mentos e o excesso de açúcar dão um medinho de nada e vocês entendem que talvez mastigar alguma coisa de sal possa ajudar. Vocês encaram com olhos gigantes os mini dentes do moço e decidem perguntar em coro, pois aprenderam no elevador que é assim que fazem os frequentadores do Shopping Iguatemi: “tem algum tremocinho?”. Ele não entende. Vocês tentam de novo “víveres, víveres, precisamos de víveres”. O cara segue sem entender, chama a gerente. Ela é a cara da Débora Bloch novinha. Vocês dizem muito alto achando que estão dizendo só na cabeça.

“Estamos aqui na cobertura de dona Josefina Máximo, onde uma enorme pedra rolou soterrando dona Josefina no banheiro com 6 empregados. O banheiro de dona Josefina é uma cópia fiel das Termas de Caracalas. Para quem não sabe Caracala foi o imperador romano que gostava muito de tomar banho”. 

Débora Bloch novinha chama o segurança só com o olho. Ele se oferece para acompanhá-los até a sala. Vocês acham o segurança um amor de menino, mas preferem ir desacompanhados. Passam antes no banheiro, sossegam um pouquinho de nada, mas  já saem, cada um por uma porta na continuação da cena.

“Estamos de volta aqui na cobertura de dona Josefina Máximo, onde uma enorme pedra rolou e prendeu dona Josefina no banheiro com 6 empregados. Parece que os bombeiros já conseguiram estabelecer contato com dona Josefina que está ainda sob os escombros”. 

– Dona Josefina, a senhora está bem? 

– Nós estamos sobrevivendo graças ao frigobar. Mas os víveres estão no fim, minha filha. Eu acabei de abrir a penúltima latinha de patê.

Vocês riem. Ninguém mais ri. Vocês se olham, ambos sentem ciúme da Débora Bloch novinha. Se estranham. Entram na sala em silêncio. O segurança a 20 cm de vocês entra junto. A menina na poltrona da frente reclama do frio. Vocês ressuscitam a voz de dona Josefina

– Por favor, faço um apelo, quem puder enviar um casaco de pele de zibelina, mas tem que ser de zibelina ou de chinchila porque as outras peles me dão uma alergia tremenda. 

O povo faz que shhhhh. Zendaya não chega aos pés de Débora Bloch novinha, mas as pipocas são ótimas, o filme também. Pena que não dá pra assistir até o fim porque a cada gemido das jogadas de tênis, vocês não conseguem não gemer junto, “uh! ah! unnnhu!”. Vocês são rebocados pelo segurança. No elevador, não desmancham o coro por nada. “Melancia, a gente tá no melancia”, “Comer, comer mesmo a gente só come banana”, “E teu casaquinho, cadê teu casaquinho?” “uh! ah! unnnhu!”. O segurança se mantém paciente no caminho infinito do quarto ao sétimo andar e na busca pelo carro. Vocês conseguem lembrar da placa, do modelo e da cor, mas não encontram. 

Vocês estão agora sentados na delegacia de Pinheiros pra fazer boletim de ocorrência do roubo. Não conseguem parar de cantar Pera, uva, maçã, salada mista na versão de Xuxa só para baixinhos. Por essa razão, vão ficar de castigo até amanhã, exatinho na hora da primeira partida que, claro, perderão por W.O.

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