Era nosso aniversário de casamento, trinta e cinco anos juntos, e a única coisa que eu queria era que meu marido desaparecesse. Não porque ele tivesse uma outra mulher. Nas horas que dizia que ia jogar squash, ele jogava mesmo, o cheiro que saía do tênis quando ele voltava era insuportável. Toda hora eu fazia um jantar e tentava empurrar uma amiga para ele. Queria muito que o meu marido se distraísse com alguma coisa que não fosse eu.
– Vou pegar a sobremesa na cozinha. Não estranhem se eu demorar, ainda tenho que fazer a calda da mousse. Antes, deixa eu encher a taça de vocês.
Depois de dormir alguns minutos sentada, eu voltava para sala e a minha visão não poderia ser mais desoladora, os dois afastados e o silêncio de quem espera as cinzas do seu companheiro que foi cremado a poucos dias. José levanta da cadeira, segurava minha mão e enquanto eu servia o doce, encostava a barriga nas minhas costas. A única coisa que eu queria era escorregar para debaixo da mesa.
Na noite que ele ficou me alisando enquanto víamos um filme e depois me fez deitar de conchinha e me apertou toda até eu ficar marcada, pedi para ele comprar duas passagens de um cruzeiro de luxo, não precisava ser para muito longe.
Eu estava contente quando embarquei. O navio tinha mais de trezentas cabines e não era possível que não existisse uma mulher que atraísse meu marido. Logo no primeiro jantar fiquei indisposta. Meia hora depois, disse ao José que não poderia sair da cama nos próximos dias, estava de péssima para pior.
No segundo e no terceiro dia, ele passou o tempo todo grudado em mim e só saía da cabine para buscar um prato de sopa. Insistia em me dar comida na boca e batia sempre a colher nos meus dentes quase abrindo um túnel entre as minhas gengivas. Isso me deixava extremamente irritada, além é claro, de não parar de me tocar o tempo todo.
Mas no quarto dia tudo mudou, ele deixou uma canja na mesinha e sumiu a tarde toda, só apareceu para se trocar para o jantar. Eu dormi antes do José voltar para a cabine. No outro dia quase vomitei ao sentir o cheiro da sopa de ervilha, estava muito verde, tinha fermentado no prato.
– Hoje você pode me trazer um bife mal passado?
– Você já está bem?
– Quase boa.
– Não parece.
Percebi que estava exagerando muito no pó de arroz e na sombra roxa para marcar as olheiras. Mesmo enjoada, precisava pegar mais leve ou ia morrer de inanição, até porque agora José mal ficava no quarto e demorava um tempão para trazer alguma comida. Como eu estava com uma gastrite insuportável de tanto que meu estômago vivia vazio, resolvi me arrumar e ir para o salão onde serviam o almoço. E claro, queria satisfazer minha curiosidade, será que ele tinha arrumado alguém?
Ao chegar lá, achei tudo muito estranho. José estava sentado ao lado de uma mulher muito gorda, gorda mesmo. À medida que ela falava, um sorriso sinistro ia crescendo no rosto do José. Desisti de comer e voltei para a cabine. Uma hora depois ele apareceu com dois croquetes minúsculos e uma torrada, até ri. Enfiei tudo na boca e me deitei. Ele também se deitou e começou a beijar a minha nuca. Num certo momento, ele se sentou, pegou um travesseiro, vacilou um pouco e depois veio na minha direção. Num gesto abrupto socou o travesseiro embaixo do meu pescoço deixando ele todo torto e saiu correndo da cabine.
Me vesti e fui atrás do José. Depois de muito procurar, achei ele no convés, com o rosto enfiado entre os peitos da gorda. Num certo momento ela apertou uma mama contra a outra prendendo a cabeça dele lá dentro. José mexia as pernas querendo escapar. Ela, notando a minha presença, se virou para mim e piscou. Em poucos segundos as pernas do meu marido amoleceram e seus pés ficaram arrastando no chão. Como ele era franzino, foi fácil para ela ir até a grade de proteção e jogar o José no mar. Eu não consegui sair do lugar, meus olhos estavam tão arregalados que achei que eles poderiam cair e ir atrás do meu marido para ver se tudo isso tinha acontecido mesmo.
– Ele queria que você morresse. Estava colocando um pouco de Racumin na sua comida para que você ficasse bem magrinha e facilitasse o meu serviço. Ele não tinha coragem de fazer o serviço.
Não consegui dizer uma palavra.
– Você está com seu celular?
– Estou.
– Então transfere o dinheiro que ele ia me dar para minha conta.
– Vocês dois são abomináveis.
– Prefere um banho de mar?
Minhas pernas bambearam quando ela falou isso. Achei melhor obedecer.
– Antes me responde uma coisa, por que ele e não eu?
– A resposta é fácil. Foi amor à primeira vista. Eu me apaixonei por você.
