Regras fundamentais de Aparício

Roberto Efrem Filho

É noite de 17 de novembro de 1983 e Aparício está inconsolável. Ouve da boca de Cid Moreira, da bancada do Jornal Nacional, a notícia da morte de Janete Clair e, sem demora, recosta-se no futon de camurça salmão, diante da TV, para verter suas primeiras lágrimas. Nos últimos cinco anos, ao menos desde que a dúvida sobre quem matou Salomão Hayala impingiu-se no cotidiano das famílias brasileiras vinda da novela “O Astro”, Aparício dedica trechos e mais trechos de sua coluna semanal no Diário de Pernambuco ao que chama de a clarividência de Clair. Alude, assim, ao que seria a singular competência da telenovelista para alcançar, translúcida, a essência de um povo e de seus dilemas mais ordinários, vicejantes e cortantes. Janete é, para ele, o ápice da dramaturgia brasileira, algo que Aparício afirma em rodas de jornalistas e artistas, com eloquência e despido de qualquer pudor. Sabe que seu gosto pelo melodrama de massas há de ser lido por seus colegas de jornal admiradores de Glauber Rocha como mera alienação, um rescaldo ideológico da indústria cultural. Aparício diz não se importar com o olhar limitado e maledicente da crítica de esquerda e até se regozija ao se ouvir maldito, temido tanto pela acidez do verbo quanto pela intimidade com os patrões, cujos segredos e tropeços conhece tão bem. Nesta noite, porém, aturdido pela notícia do telejornal, Aparício jaz tristíssimo, de modo que, após maneirar a luz do abajur de porcelana chinesa que herdou de sua tia-avó Quitéria, pressente a inescapável necessidade de telefonar para Otávio e, agradando-lhe conforme lhe convir, contar com sua companhia.

Aparício telefona para Otávio às quintas-feiras. Antes de o rapazote emergir suado, naquele sábado de fevereiro de 1982, metido numa sunga branca incandescente sobre o elevado do salão principal da boate Misty, outros jovens haviam frequentado o futon de camurça salmão da sala de estar de Aparício. Eram sobretudo mancebos que ele pescava dos anúncios de acompanhantes de boa aparência ou dos bares do Recife visitados por entendidos. Aparício os desejava, temia e recebia em seu apartamento no Edifício Módulo, na Conde da Boa Vista. Servia-lhes doses cavalares de Dry Martini ou Campari, demasiado prazer e alguma angústia. Com Otávio é diferente. Ele lê e comenta suas colunas no Diário, expressa opinião sobre o andamento da novela das oito e, evidente, mantém análoga predileção por Janete Clair. A conexão que Aparício julga existir entre os dois é tamanha que, sem confessar para Otávio, fabula em silêncio a possibilidade de um beijo ou de adormecerem juntos para o café da manhã da sexta-feira, coisas que jamais permitiu a um homem que restasse dentro de si.

Aos 48 anos, Aparício acredita não possuir amigos e já haver amado. Ministra aulas matutinas no curso de jornalismo da Universidade Católica e escreve sua coluna aos sábados, para o caderno de cultura da edição do domingo. Telefona para a mãe diariamente às 19h. Confirma “alô, mamãe” e entabula uma palestra de 50 minutos sobre algum familiar – no mais das vezes, seu irmão Afrânio, o caçula – que anda conspurcando o nome da família pela cidade – com noitadas mal acompanhadas nos prostíbulos do Chanteclair. Aos 76 anos, viúva, católica e mãe de três filhos, Dona Ofélia escuta interessada a rançosa homilia de seu filho mais velho. No mesmo silêncio em que educou suas crianças e que Aparício apreendera com especial cerimônia, ela pensa que melhor está Odete, a filha do meio. Isto porque se Afrânio gasta para fornicar com alarde, Aparício gasta para ser fornicado com discrição, Odete casou-se com Seu Anacleto, o pai viúvo de sua melhor amiga do Colégio Marista, Cidinha. Com o velho marido, Odete herdará certo patrimônio e, até onde se tem notícia, não gasta e não se sente obrigada a fornicar. Já com Cidinha prefere passar as noites de terça-feira, com a desculpa do jogo de gamão em que se enfiam religiosamente seus dois esposos.

A união entre Anacleto e Odete, Aparício comemorou solene em sua coluna no Diário, três anos atrás. Descreveu a seus leitores dominicais a prestigiada cerimônia laica que, com poucos convivas, nada mais de duzentas pessoas da sociedade pernambucana, selou os laços entre duas famílias cujas trajetórias se encontraram décadas antes, quando o pai de Anacleto e o pai de Ofélia travavam relações comerciais no mercado açucareiro. Neste novo tempo, tantos anos após o infeliz falecimento de Dona Virgínia, a primeira esposa de Anacleto e mãe de Cidinha, nada mais natural e saudável que aquele homem, senhor de si e de sua consciência, voltasse a se enredar em sentimentos por uma segunda mulher. Ainda mais se esta segunda mulher fosse exatamente Odete, íntima de toda a família e, desde muito nova, sincera apreciadora da notória hombridade do senhor Anacleto. Contra as acusações de que Odete estar-se-ia casando por simples interesse, Aparício adiantou, na coluna, vistosas informações sobre o seu patrimônio familiar. Mencionou, como curiosidade, que os nubentes planejavam passar o próximo veraneio nos engenhos da mata-sul de Dona Ofélia, fazendo-se esquecer que, a essa altura, todas as propriedades rurais herdadas de seu avô materno se achavam implicadas em ações judiciais de falência, dívidas trabalhistas e reivindicações de justa posse.

Aparício abre um Pinot Noir enquanto espera. Se, ao discar o número da residência onde o rapaz mora com os pais, Aparício sentia-se inconsolável pela morte de Janete Clair, o tom de voz de Otávio ao telefone o deixou preocupado. Aparício sabe que Otávio atende às suas ligações no único aparelho existente na casa, ao lado do sofá onde, neste instante, sua mãe e seu pai assistem ao capítulo de Champagne, ansiosos por desvendar o mistério do assassinato da copeira Zaíra. Em suas respostas na ligação, Otávio costuma aparentar simpatia, finge falar com uma namoradinha ou com um colega do curso técnico de eletromecânica que o chama para uma cerveja. Desta vez, contudo, ele economizou as palavras e, mal Aparício o cumprimentou, explicou ao colega do curso que estava muito cansado, que melhor seria adiar a cerveja para outro dia, que, por favor, não se ofendesse. Aparício estranhou o jeito, imaginou que Otávio se referia a dinheiro e insistiu no convite, assegurando que havia sacado no banco o valor de sempre. Em tréplica, Otávio disse ao colega que poderiam conversar, claro, que um amigo tem mais é que apoiar o outro, quanto mais nesses momentos difíceis da vida. Despediu-se dos pais e seguiu para a parada de ônibus. Aparício voltou a temer.

A uma hora dessas, de Casa Amarela até o centro da cidade, a viagem de ônibus leva meia-hora. Por isso e pelo estado de ansiedade em que Aparício se põe, quando o interfone do apartamento enfim toca, a garrafa do Pinot Noir já se vai na metade, de sorte que, além de inconsolável e preocupado, Aparício está um tanto alegre. Abre a porta para Otávio e, embaraçado, socorre-se num disco de Ângela Rô Rô que dispõe à radiola, sobre o aparador. “Qual é?”. “É o de 1981, Escândalo”. Aparício responde à pergunta de Otávio tentando divisar eu seu rosto a razão da estranheza de alguns minutos atrás, na ligação telefônica. “Quer uma taça?”. “É o vinho que os donos do jornal trouxeram da viagem para a França? Achei que você estava guardando para uma ocasião especial”. A morte de Janete se precipita nos lábios de Aparício. Ele quer contar a Otávio sobre sua dor desmesurada, sobre a decisão de destinar a coluna do próximo domingo àquela mulher que iluminou um país. Ele quer que Otávio compreenda, que seus leitores compreendam que sua própria capacidade de imaginar se desenvolveu a partir das estórias imaginadas por Janete Clair. Mas, encarando o homem recostado em seu futon de camurça salmão, Aparício intui que não deve seguir por aí. “Você é especial, Otávio”.  

“Eu sei que você está triste por conta da morte de Janete”. Otávio se desnuda e, manipulando o pênis, defronta-se com o medo nos olhos de Aparício. “Quando ouvi a notícia no repórter, pensei que precisava vir ao seu apartamento”. Ajoelhando-se, Aparício se dobra sobre o futon de camurça salmão. Entrevê nas frases de Otávio um protesto a uma de suas regras fundamentais. É terminantemente –  repete “terminantemente” – proibido vir aqui sem que eu lhe convide, é possível que meus irmãos me visitem, que haja amigos num almoço ou num jantar, nós não devemos nos expor, deve-se evitar constrangimentos, uma história como a nossa exige respeito e circunspecção. Aparício se recorda da norma dita logo no primeiro encontro e, a boca inteira ocupada, ressente-se de sua inverossimilhança. Afrânio e Odete nunca o visitaram, nunca o visitariam. O irmão enoja-se de suas inclinações, a irmã não gostaria que Seu Anacleto e Cidinha soubessem de maiores proximidades com Aparício e seu duvidoso estilo de vida. Amigos, por sua vez, não há. Por escolha, Aparício repele quaisquer oportunidades, toda chance de precisar deter-se. Em verdade, faz décadas que as únicas visitas que adentram aquele apartamento são os rapazes. Há um e ano e nove meses, apenas Otávio.

Ainda retesado sobre o futon de camurça salmão, Aparício estende a mão e alcança o bolso da calça onde está a sua carteira. Entrega-a a Otávio que, saindo devagar de Aparício, agradece o cuidado. “Com esse dinheiro, termino de pagar o curso de eletromecânica. Eu soube que a Celpe vai abrir concurso no início do próximo ano. Disse a meu pai que vou me inscrever”. Otávio abre a carteira e se espanta com a quantia, é bastante mais do que o comum. Na noite em que se conheceram na Misty, Aparício o trouxe para o apartamento e lhe pagou o triplo do valor usual. Na semana seguinte, quando se viram novamente, Aparício lhe propôs que largasse as apresentações na boate, não precisaria daquilo, ele se comprometia a fornecer uma ajuda maior, contanto que não visse outros homens. Otávio aceitou a proposta e, ciente das regras, passou a aguardar os telefonemas das quintas-feiras. Aquilo que agora vê na carteira, no entanto, excede a proposta original. É dinheiro suficiente para quitar a hipoteca da casa dos seus pais. Otávio sabe que Aparício ensaia uma cena à la Janete Clair, seu gesto anuncia uma promessa, a inauguração de um arco dramático, a consequente expectativa de um grand finale. E recua. “Aparício, se sua segunda regra fundamental não me impedisse, eu lhe daria um beijo”. Levanta-se do futon de camurça salmão, veste-se e sai em direção à Conde da Bosta Vista, onde toma um táxi para casa. Aparício pega sua carteira e comprova que, dentro dela, embora dinheiro não haja, restou a chave do seu apartamento.

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