O certo é do outro lado

Viver é difícil, morrer está bem longe de ser fácil

Me dá um oi que te salvo aqui. Oi, Téo da Cida. Aqui é a Alice do Bar.

Era a primeira vez que nos veríamos depois daquela conversa no Bar da Cida acabar num hotelzinho singelo da Vila Buarque. Bofe lindo, papo delícia. Nenhum amigo em comum. A cumplicidade dos que apenas trocam fluídos, o primeiro nome e os números de telefone.

Acabou que não tinha trânsito e o meu uber chegou muito mais cedo e lá estava eu quase umas duas horas antes a caminho do bar do largo. Não quis dar bandeira de desesperada, pedi uma cerveja e fui matar tempo pela rua, as pessoas e suas vozes altas já na segunda rodada.

Quando saí de casa fazia um pouco de frio, não sei se foi a ansiedade ou o suor de andar, mas a meia-calça cuja função era dar uma firmada nas carnes pinicava a minha bunda. Tentei disfarçar beliscando discretamente. Erro feio. O alívio momentâneo despertou o universo do coçar sem fim. Insuportável. Precisava arrancar aquela meia.

O banheiro mais próximo ficava quase que na entrada do boteco da esquina. Numa cabine a porta não fechava, o vaso não tinha tampa e faltava água há uma semana. Optei pela outra: a janela dava pra calçada, mas tanto a porta quanto o assento estavam em condições aceitáveis.

Comecei a me arrepender de escolher um modelito tão justo e uma meia-calça menor. Pra conseguir tirar, teria que abrir o vestido até a metade (que era só o que eu alcançava), enfiar a mão direita pelo umbigo em apnéia e descer a meia da cintura pra baixo para a partir daí puxar o rolinho de nylon pelas pernas com a esquerda.

Abrir o vestido pareceu rápido, mas como todo zíper invisível, o fecho mordeu um pedaço do pano e empacou, chucro. Testei se pra cima ele cedia e foi o cabelo no meio do caminho que emperrou tudo de vez. Subi no vaso, se eu pulasse, certo que o impacto resolveria tudo.

Apoiei a mão na janela pra pegar impulso. A tampa de plástico afundou um pouco com o peso do sapato. Uma mensagem piscando no celular, inclinei pra ver de quem era. O salto afundou na tampa. Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três. Tudo escuro.

A SUV em alta velocidade do sobrinho do deputado Rediscley Oliveira não venceu a curva e invadiu o boteco. Poste, parede, janela, azulejo, encanamento, tudo junto. Eu, inclusive. Fui esmagada entre a porta e a latrina daquele banheiro xexelento. A roda do carro prensou a minha cintura que agora caberia fácil num manequim dois números menor. Mas não ficou nada bonito. Só eu morri.

Demora pra entender os acontecidos. Não tem nuvem, não tem anjo, harpa, céu, inferno, tem é uma grande sala de espera de um SUS. Ninguém sabe coisa alguma. O além é uma grande instituição burocrática, mas não distribuem senha ou protocolo de entrada. Demoram uma eternidade pra chamar, e quando fazem é com muito menos glamour do que aquela hora do venha para a luz que aparece nos filmes.

Se você quiser pode sair pra dar uma volta no nada, fumar ou beber um café. No dia em que morri teve um monte de tragédia no mundo. Atentado em algum lugar na Europa, um outro num lugar lá da Nigéria acho, não sei direito, poucos se comoveram com isso nas redes. Tinha muita gente aguardando, sentada no chão mesmo. Eu torço muito para que o destino seja gentil quando for a sua vez. No além, o nosso aspecto fica congelado no do momento da nossa morte. Eu arrastava um sapato manco, cabeça inclinada pra trás, vestido semi aberto, cabelo preso no zíper e uma boca sem alguns dentes, fora a cinturinha de desproporção nada sutil. Você acha que viver é difícil, morrer está bem longe de ser fácil.

A mensagem que apitava no celular era o Téo cancelando o encontro. Uma reunião se alongou na agência. Tudo bem deixar pra amanhã? Quando amanhã veio eu já estava morta e ele nem sabia. O deputado-tio deu um jeito de abafar o caso, não saiu nada nem nome nenhum nos jornais. Minha ausência de respostas foi encarada como recusa. Quanta ironia levar ghosting de fantasma. Passou uns dez dias e deu o jogo como perdido.

Outra coisa que não comentam é que tomar muito café no além gera ansiedade. A taquicardia altera o seu estado de consciência e se desfocar um pouco os olhos você é transportado para a realidade dos seres humanos viventes. Sugado como naquelas máquinas do Dr. Spock. Jornada ou Guerra nas Estrelas? Nunca lembro. Pode durar dois segundos ou semanas. Pode ser divertido, mas atrasa o processo do venha-para-a-luz.

Eu evitava puxar papo com outros desencarnados que era pra não deprimir ainda mais. Fui em busca de mais um café e encontrei uma máquina de refrigerante. Uma coquinha até que não seria nada mal pra aliviar a sensação da tampa de privada parada no estômago. Eu tinha moedas exatas pra uma coquinha mas o contador comeu algumas e não devolvia o troco. Fiquei com raiva. Soquei o botão. Mais raiva. Comecei a chorar. Pela moeda, pela coquinha, pela vida, pela minha morte, pelo cabelo preso no zíper, pelo torcicolo, pela tarrachinha do brinco perdida, pela meia que pinicava. Choro desdentado. Um horror. Foi aí que descobri que chutar vending-machine também é um tipo de portal.

Fui levada para um banheiro desconhecido. Meia-luz. Uma cueca no chão, toalha molhada na pia, um jornal do lado do vaso, tampa levantada, papel higiênico virado pro lado errado. O certo é pro outro lado. Banheiro de homem. O barbeador carregando na tomada. O armarinho do espelho entreaberto. Assopro e a pontinha revela mais um pouco. Morto não pode tocar nas coisas, mas pode alterar o ambiente, como aquela história do bater das asas de uma simples borboleta… O ar passa pelos meus dentes quebrados fazendo um assoviozinho. Um cheiro familiar me invade… o cheiro bom do Téo… Luz acende de sopetão. Ele veio mijar, meio dormindo, a mão coçando o conteúdo da cueca boxer. Me vê. Gritamos. Me assustei. Imagine ele. Minha meia também tinha desfiado.

Berrou pra eu ir embora, voltou com um taco de beisebol, não me viu mais. Foi dar queixa. Uma stalker, seu polícia, a cara toda arrebentada, pra invadir o 5º andar deve ter caído… Delegado cruzou dados, foto do WhatsApp (a dos meus peitos não, por favor), número do telefone… Deve ser o choque, os nervos, seu Fulano, procure descansar que essa moça bateu as botas tem mais de um mês. Uma tragédia.

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O que a morte me ensinou é que chutar vending-machine não é um bom negócio. Se alguém vivo consegue te ver ou sentir, um elo se estabelece e você passa pro status de encosto, preso no lugar em que te viram. Nem reza ou água benta funcionaram. Os sustos foram espaçando, a gente se acostumando, tendo assunto, às vezes eu até ajudava com as mensagens dele no tinder. De ex-pretê a stalker. De stalker a loira do banheiro. De loira de banheiro a bff. Uma ou outra garota com quem ele dava match acabava indo com ele pra cama. Ele tinha consideração o suficiente para pedir que, se precisassem, fossem usar o banheirinho da lavanderia. A descarga desse aí tá disparando, sabe?

(AInda falta o final mas 

Eles se apaixonam. E a última cena que eu pensei é deles deitadinhos no chão do banheiro de conchinha. E ela deitada dá uma pinçada na meia calça que ficou pinicando a bunda dela por toda eternidade). 

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