Havia um mise en scène no meio do caminho

Vai parar no térreo?

Chegou uma encomenda. Um livro, e avança, apressada. Ele estranha, dar satisfação não é do feitio dela. 

Pegou tudo, amor? Vamos?

Foram. Sempre iam. Mascaravam a rotina atravessando estradas, tão bom fugir da cidade só os dois, também podiam, não tinham filhos, logo sobrava tempo, e dinheiro, que bom para vocês, diziam os amigos, ou ex-amigos, melhor, colegas, estranhos que depois de procriar passaram a andar em bandos, uns tartarugas que não davam um passo sem levarem a casa nas costas, frutas orgânicas, brinquedos educativos, fraldas de pano, tudo muito badauê, onde já se viu comemorar aniversário de criança em praça, e se chover? Da única vez que foram convidados, nem banheiro havia. Não, eles não tinham que passar por isso, não faziam mais parte daquela família agora invadida por pirralhos remelentos com nomes monossilábicos, Tom, Dom, Sol, Lua, Um, Dois, Três. Quem? Credo. A época em que andavam juntos é que era boa, sem essa frescura de abraçar árvores, correr com os lobos, se chamar de amor. 

Espera. Há gafe. Volta a fita. 

E o Pegou tudo, amor?

Não pega nada, assim como você também não pegou a pegadinha do texto: amor, para o nosso casal, não é vocativo, é tralha, é bronca: Pegou tudo, óculos, chaves, remédio, amor? Bote reparo na frase: o TUDO está de um lado da vírgula, o AMOR, do outro. Aqui, a pensão é completa, mas o amor é à parte.  

A bagagem é pouca, eles se bastam. Viajam em uma tentativa de reaver o ar do começo, quando tudo era fresco, despretensioso, fofos até. Dois pombinhos resistentes ao tempo mas depenados pelo cotidiano, que massacra, não há final feliz que passe impune à compra do mês, material de limpeza, privada que entope, luz que aumenta… e surgem uns conflitozinhos aqui, alguns ranços alá, vez em quando uma vontade danada de um dar na cara do outro, de leve ou de frigideira. Mas o nosso casal é tenso, uma vírgula fora do lugar desordena a calmaria e altera a cara da paisagem, logo os escapes de dois ou três dias não fogem do mesmo destino: qualquer lugar onde a vida ainda seja mato. Sem filas, sem balbúrdia, sem pessoas para conhecer, sem conhecidos para encontrar, e pior, interagir, partilhar mesa e o enfrentar cruel porquê de não terem tido filhos. 

Um final de semana bucólico cai bem para qualquer família, mas no caso do nosso casal, que insiste em protagonizar um road movie (eu conto, ou vocês contam?), é como tratar uma fratura exposta com um band-aid da Hello Kitty. 

………

Alugaram uma casa em uma cidadezinha no interior do interior do interior. Saíram cedo, seguiam pela estrada afora nunca dantes navegada. A freada brusca deu-se com horas de viagem. Não perceberam se foi um buraco, uma carga caída, um bicho morto, um demônio vivo, um engasgo, uma pedra no meio do caminho. 

É verão, e eles estão sozinhos.
Um estrondo, dois airbags acionados, dois pneus rompidos e o silêncio destroçado causam a perda momentânea do conforto de ambos. O local está deserto, o céu, incinerado, e a visão panorâmica da relação aponta a rachadura que passou da hora de consertar. E agora, José?

Susana é uma mulher atraente. E nem o olho vermelho, chapado, deixa José feio. Um casal bonito na foto. Fora dela, continuam bonitos na foto. Ostentam sorrisos e dentes branqueados que já não falam uma língua comum, a cada dia mais coabitam e menos conversam. Ele mal pergunta dela, ela não se interessa por nada do que ele faz. Partilhas, desabafos, questionamentos, DRs, tudo é varrido para debaixo do tapete, no limbo que existe entre o já não te amo, e o ainda não te odeio. Sexo? Vá lá, é espaçaaaaaado, nota vermelha, sem graça. Mas eles não falam sobre isso, nem fodendo.
É verão, e eles estão sozinhos. Ali, o mais inteiro é o carro. 

O posto de gasolina mais próximo fica há três quilômetros, sensação térmica de doze. Susana voa na frente, anseia pelo oásis em formato de loja de conveniência, ar-condicionado, deve haver alguma salada, água gelada. José fica, é de bom tom esconder os pertences caros na bagageira. Escolhe a mala dela, por ser a maior, afasta as roupas, e seu incômodo chega embalado para presente. 

A encomenda recebida por sua mulher ainda não havia sido aberta. Um pacote pesado, tamanho médio, metade de uma caixa de sapato. Carimbo estrangeiro, Alemanha. Para Susana, sem sobrenome. De Carsten, apenas. Qualquer mané deduz que Vorsicht Zerbrechlich, é o manjado Cuidado, Frágil. Mas não era suposto ser um livro? Ou é piada literária? A cisma aumenta. José submete o embrulho a um interrogatório com requintes de verdade, gira feito um cubo mágico, checa os cantos contra a luz, chacoalha perto do ouvido, que raios há ali? Cheira. Almiscarado demais para um livro novo, ainda que velho. Volumoso demais. Lacrado demais. Estranho demais, o conjunto da obra. Não aguenta, rasga o papelão, e descobre ser ele o trouxa desta história. 

Nos road movies, um momento de silêncio é geralmente mais importante do que uma sequência dramática, mas a vida não é filme, e o berro representa tudo o José percebeu. Talvez Susana tenha ouvido, talvez não.

O posto de gasolina está encerrado e o serviço de conveniência nada mais é do que um rancho da pamonha genérico de fachada contestável. Sentam-se. Ele aciona o seguro, e tardará o socorro. De um lado da mesa ela mira o desterro, encosta a garrafa de água nos lábios que usufruem do direito de permanecerem calados. Do outro, ele é o puro creme do milho, verde, arrasado, traído, como ele não pode perceber que a mulher estava de caso com este alemão? O pastel de Susana vem frio, engordurado, aparentando estar horas à temperatura ambiente. José tenta comer um pão de nada, com nenhum recheio e muita massa. Pede um expresso, mas a máquina está quebrada. O funcionário oferece um capuccino, desses solúveis, num copo que reina gordura no sulcos do vidro. Ele engole a seco, sem adoçante. Paga a conta e volta para a estrada. 

Susana o aguarda fora, fumando desconforto. Ela já sabe que José já sabe que Carsten é bem mais do que uma desculpinha furada de um livro jamais comprado, sabe que ela e Carsten se conheceram na internet, que ele veio ao Brasil algumas vezes, que eles treparam, e que trepam virtualmente, que ela anda a pesquisar passagens, que ela quer ir embora, e não consegue entender o motivo que a faz ficar.

José, precisamos conversar.

O verbo conversar arranca a casca da ferida abafada, agora purulenta. 
É verão, e eles estão sozinhos.

José atropela a voz dela, se recusa a ser o único ofendido e humilhado.

Sabe a Sheila?

O rubor no rosto de Susana vai além do calor que impera. Não abre a boca, nem para dizer que sente muito, nem para lamentar que não sente nada. O sol aperta, não há sombra à vista que providencie uma palavrinha de paz. O ruído entre eles é ensurdecedor e crema o silêncio, aquele velho conhecido. De costas para ela, José permanece imóvel, mirando o ponto de fuga, com as pernas afastadas, como um soldado em posição de descanso, enquanto ela vasculha a terra com os pés e a poeira revolvida cheira à memória queimada. Cada gota de suor pingada no chão carrega em si o mundo que deixaram de viver. Duas carcaças abandonadas ao largo da estrada tentando decifrar o que já não são, ou o que nunca foram. De todas viagens solitárias, esta foi a mais habitada, começou com dois tripulantes e terminou com quatro, mas o porta-malas é pequeno, e para que haja retorno será preciso escolher as bagagens. O pacote está lá, amassado. Sheila telefona, e José não atende. O socorro virá, eles não sabem quando. 

(Glaucia Faria)

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