Mote: Felipa está de volta ao país e recebe a visita de uma prima que não vê há anos.
Aqui a nossa foto na fila do aeródromo. Só gente chique, cheirosa. Olha que lindo esse terrier que fofo. Pena que ele caiu da varanda da dona dele. Uma ridícula incompetente. Cada ideia, levar pet pro exterior. É muita dependência. Eu não quero ficar dependente de ninguém. Levei pouca coisa, qualquer problema a gente compra por lá. Aqui a nossa cabina. A nossa cama coberta de pétalas, o champanhe no balde. Para começar logo. Aqui nós dois brindando na varanda da cabine. Aqui, a cidade. Dá para ver nosso prédio aqui. Passando a avenida, o morro. Ai quando penso em tudo que iríamos deixar para trás, as favelas, os mendigos, aquele povo desqualificado de bermuda. Olha eles bem pequenininhos, do tamanho que tem que ser.
A praia. O mar. A Ilha de Nóbrega. A Ilha do Vinagre. Um cruzeiro lá embaixo. Olha quanto lixo. A última gaivota. Agora oceano e mais oceano. Esse aqui é o elevador para a piscina do Zeppelin. Tinha piscina, menina, lógico. Tem tudo que precisa. Ficava no alto, nas costas do balão. A gente tinha que pegar um elevador por dentro da estrutura. Era envidraçado, dava para ver por dentro tudo. Era um oco enorme, uma câmara cheia de alicerces, estruturas. Maravilha da engenharia alemã. Gente civilizada. Eles fazem o Zeppelin, a gente faz o Zé Pelintra. Aqui eu e o Frederico. Olha a sunga dele. Balenciaga é o de menos. Ó como ele é pauzudo. Sabia no que você estava pensando. O braço fechado de tatuagem, fez na Coreia. Morou lá uns oito meses para fazer. Foi com um tatuador pica das galáxias, um de lá, lá os coreanos acham que tatuagem é coisa de bandido, mas o sujeito é um artista. Olha esse minarete. Olha esse mono-dourado. Olha esse falcão da Mongólia. Incrível mesmo. Como ele ficou tanto tempo? Pela empresa né querida? Fred tem berço, ninguém pergunta nada, quer fazer, vai lá e faz. Aqui eu. Gostosa para caralho. Sem estria nem celulite. É um ácido, depois te passo o nome da Xu. Dermato fantástica. Continuo com ela. Só atende com indicação. Sente só o pêssego de couro. Passa mão. Depois eu deixo você pegar mais.
A gente na academia. Aqui o mar. Aqui o jantar com o Capitão. Um carcamano babaca, me secou o tempo inteiro. Sabe homem que fica apertando? Escroto. Aqui a gente na cabine. Essa sou eu, nua e de tamancos, feito a Olympia de Manet. Não, não tenho vergonha não. Um dia você sabe a gente vai ficar velha, gorda esquelética, as pelancas, as bolotas, as varizes, os pentelhos brancos. Recomendo. Antes arreganhada que arrependida. Você vai precisar lembrar, um dia eu pude ser assim. Pelada, gostosa, maravilhosa, só tesão amiga.
Aqui eu na varanda, fazendo a Gala do Dali. Aqui o cu da Gala. HAHAHA. Ah, Frederico é foda, né? Me comia de tudo que é jeito. Tem que dar né? Tudo, lógico. Tem que prender o macho. Eu não reclamo. Mas eu também obrigo. O tempo das Amélias já foi né querida? Tem que ter tanquinho, tem que se depilar, tem que tomar perfume injetável que é para suar gostoso. Não, eu não deixo fumar, nem tomar café ou coca-cola. Só melancia. Só melancia para ficar com a porra doce. Deus-pai que me perdoe, mas antes um diabético do que não chupar até secar. Me chama de dreno.
Aqui do alto é o arquipélago de Genótia. Coisa linda, olha esses vulcões, as montanhas, essas praias. É são meio bosta essas praias, só pedra preta, lava velha. Graças a Deus, praias lindas são as nossas. Aqui essa parte branca é o cais de Neópia, a ilha principal. Esse cais era ponto de parada de todos os veleiros dando volta ao mundo. Tinha uma bar lindo, entulhado de coisas náuticas e cordas e fotos de tudo que é tipo de gente e criatura. Nesse muro aqui, o povo dos veleiros deixavam recados uns para os outros, tudo pixado em várias línguas. É feito uma Pedra de Rosetta. E aqui é a minha Rosetta, HAHAHA. É, a gente conheceu um casal gringo lá, gente muito chique, Gulliver e Lilandra. Donos de mineradoras. Austrália, Carajás, Palau, Ophir. Eram mais velhos um pouco, mas riquíssimos, tinham título de nobreza e o escambau. Sim, ele me comeram lá no veleiro deles, Frederico pegou a coroa. A gente tem que aproveitar enquanto é novo, enquanto não descongelam os óvulos de Júnior e de Marieta.
Então os coroas eram zilionários, já tinham viajado no Zepelim, mas agora ficavam no veleiro. Queriam ver o mundo enquanto não acabavam com ele. De quem eles estavam falando? Acho que deles mesmo, né querida? Mas então eles já tinham feito o mesmo cruzeiro por dirigível no tempo deles. Disseram que tinham um código para chamar acompanhante na cabine. Disseram que valia a pena: nunca era algo trivial. No mínimo, um travesti. Ah Frederico se animou né? Eu só me submeto às suas vontades.
Ah essa aqui é legal: são os passageiros do Zeppelin descendo do alto. Páraquedas, meu amor. Pois é assim mesmo se não tem aeródromo. Páraquedas é o bote salva-vidas do dirigível. Aqui não é cruzeiro do Roberto Carlos, não é Harley Davidson, esses lazeres para velho se sentir novinho. Zeppelin é vida loca, só a juventude pauzuda e gostosa. Para subir? Subir usava um cestinho né? Ou você estava esperando uma catapulta? Só se fosse cata-puta. HAHAHA Acho que essa estava desde a Idade Média esperando ser contada. HAHAHA
Aqui uma tempestade. Uma montanha de nuvens. Ah zeppelin desvia né? Ninguém tem pressa. E se tiver desce um helicóptero no topo. É, perto da piscina. Povo pensa em tudo. Engenharia alemã. Então, daí a gente usou o tal código secreto que o Gulliver nos passou. Apareceu lá na porta o Ishar. Um indiano. Estava com o uniforme da tripulação. Cor de canela, cheiro de patchouli. Eu até broxei um pouco. Baixei a bola. Homem tudo peludo. Barba. O olhar do cara era vivo, parecia um raio-x. É, ele ficou com esse turbante na cabeça. Depois eu aprendi, chama dastar. O homem era um sikh. Ou mentiu que era, vai saber. Mas ele dizia que a prática de sikh era da honestidade perante Deus. Tinha um negócio nele, um charme, uma nobreza. Ele disse que os sikhs eram todos iguais perante Deus. Não tinha casta, essas coisas. Sei lá. Era um nobre. Mas também era um puto.
Enfim, a gente conversou um pouco. Fred não se impressionou muito, mas ficou intrigado. Tinha algo diferente nele para além desse papo religioso. Acho que a gente não acreditou muito nesse lance. Quer dizer, a gente é rico, né querida? Quem precisa de Deus quando se tem dinheiro? Fred ofereceu bebida a ele, Ishar só aceitou água. Depois começou. Daí a surpresa. Péra, péra, vou te mostrar. HAHAHA, olha sua cara. HAHAAHAHAAHAHAAH olha sua cara… HAHAAHAHAHA É, era assim mesmo. Dois paus, um para cada bola. Fred ficou maluco. E eu também. Olha o tanto de foto que tirou. Acho que ele também teve vontade de chupar. Eu fiquei doida, queria saber, mas ele mija pelos dois? Goza pelos dois? Pode ficar um duro outro mole? HAHAHA
Nunca foi assim com ninguém. Acho que o Fred ficou meio perturbado das ideias. Ele comentou comigo em português para o indiano não entender, esse troço foi costurado aí, devem ter tirado de um defunto e um cirurgião colou. Não é possível? Daí ele comentou com o Ashar como quem não quer nada, isso daí deve ser muito raro, você deve ser o único na Índia com esses dois negócios pendurados. O Asham falou que o Sikhs não mentem, lembra? Honestidade e tal. Ele disse que os irmãos gêmeos dele também eram assim. Todos tripulantes no zepelim. Todos iguaizinhos, barbudos, bigodão retorcido. HAHAAHA O que você acha que aconteceu? Lá fiquei eu tentando dar conta de três que eram seis. Tudo sem tirar os turbantes. Deve ser que nem tirar as meias para eles. HAHAHA
Então, depois disso o Fred ficou esquisito. Em geral depois das nossas festinhas, ele sempre costuma dar mais uma, a saideira, meio como quem diz, continua tudo igual. Dessa vez não. Eu dormi umas 14 horas e cada vez que eu despertava ele tava lá olhando para o teto, sentado na poltrona, na varanda olhando a tempestade longe, longe no horizonte. Os dias seguintes era só ele bebendo. Eu nem reclamei, precisava de uns bons meses para “des-assar” meu rabo. HAHAHA.
Mas aí comecei a estranhar. Passamos por Zanzibar, não quis descer. Depois paramos na Ilha dos Geômetras, decidi descer sozinha. Nem fiz nada, comprei umas lembranças mas acabei deixando por lá. Não parava mais de brigar comigo. Sei lá o que deu nele. Não era porque eu gozei, ele não ia ser cuck se tivesse neurose com isso. Era outra coisa. Ele dizia que eles não eram de verdade, os sikhs não podiam ser pessoas. Um de dois paus, vá lá. Mas três? Trigêmeos? Falava que eram clones feito por chineses, que eram androides, que tinham implantado outro pau. E daí? Daí que eu sou corno, não sou idiota, não gosto que me façam de idiota. Perguntei se ele era corno assumido por medo de ser feito de idiota por mim.
Menina… Para que fui provocar? Ficou louco, avançou para cima de mim. Arrancou minha tatuagem de estrelinha com o dente, o filho da puta. Me tranquei no banheiro chorando de ódio e de dor e usei o interfone para pedir por Ashar e seus irmãos. Eles vieram mas não era para me comer, era para me defender do Fred. Eles o contiveram e o amarraram na poltrona e o amordaçaram. Aqui a foto dele, o caralho duro e solitário dele. Convenci que era uma tara dele, eles aceitaram, tão bonzinhos. Outro tipo de gente, espíritos elevados. Deviam ser mesmo inventados. Dei para eles de novo, na frente dele amarrado, chorando e rindo desse filho da puta.
Bom, a partir daí, já não tenho tanta foto. A camareira peruana vinha arrumar a cabine, eu explicava que era uma tara ele continuar todo amarrado e cagado daquele jeito. Ela comentava em espanhol, Ah já vi muito pior que isso. Dei gorjetas generosas para ela. Pobre Maria, espero que não a tenham demitido. Quando o zepelim passou pela Ilha das Cânforas. Certifiquei-me que não fariámos paradas na ilha, então saltei com um paraquedas salva vidas do convés. É um lugar delicioso. Saudades. Aqui a canforeira. As árvores têm folhas grossas, parecem patinhas de gato. Você corta uma e corre uma seiva cheirosa. Depois fica uma cola. Há também uns elefantes pequenos que os pássaros vem comer de vez em quando. Aqui a foto deles. Esse é Karkadan, um pescador. Quando tinha fome, ele me dava um peixe. Às vezes, nem precisamos transar para isso. Fiquei grávida dele e tivemos um filho. Aqui ele. Menino lindo, um olho de cada cor, a pele preta tipo plástico baquelite. Parecia uma panterinha. Eu batizei meu menino de Rex, Karkadan deixou, achou que era nome de gente. Morei atrás da cabana dele, dentro de uma canoa velha. À noite, via os satélites, enfileiradinhos. Vida maravilhosa. Queriam que eu trabalhasse no resort dos franceses, não tinha vontade. Se quiserem faço de graça. Eu não trabalho, não sou escrava.
Depois cansei de ser pobre e de ser mãe. Deixei Rex com Karkadan. Doeu um pouco, mas vai ser melhor para ele. Liguei para papai. Ele mal percebeu que haviam se passado oito anos. Mandou um jatinho me buscar e voltei para meu apartamento. Meu pai, como ele agiu? Do mesmo jeito de sempre, prima. Um carcamano babaca.
Foi, cansei de ser pobre, não foi para prescrever o calote que dei em Frederico. Ele me processou para descartarem os óvulos, não conseguiu nada; estão lá Fredinho e Marieta, esperando para nascer e serem herdeiros. HAHAHA. Precisei pagar um serviço de limpeza para tirar o cheiro de mofo de meu apartamento. Menina… tudo uma fortuna, carérrimo. Onde será que esse país vai parar?
