por Américo Paim
É ela, véi. Viro a cara assim na tora, não por vontade. O certo era me atracar com ela ali, ela subindo e eu descendo o Pelô. Tô defronte à Casa de Jorge Amado, de boa, passeando, todo trabalhado na inocência. Olhe que eu nunca venho por aqui. Nem no carnaval das antigas. Sou mais a bagaça da pipoca nos outros circuitos. Tô aqui por causa de Goto. Aquela desgraça tá de ressaca porque uma criatura meteu o pé, largou ele. Oxe? Num é isso toda hora? O que ele quer é beber pra esquecer, beijar um monte de boca. Eu venho aqui na maciota, crente que vai ser só mais uma cachaça com os caras, aí cruzo com essa demônia. Do nada. Ela virou a cara também, num foi? Acho que me viu. E ela tava com aquele nó cego, mermão. Logo ele, véi? Ela dizia que não gostava, que ele maltratava. Lembro como se fosse hoje o dia que ela vazou. Falou que não queria mais nada comigo e que não era por causa de outro. A cara nem ardeu, véi. E agora essa? E de mão dada? Vi de relance, mas vi. E aquela blusa folgadona, branca, pintada com qualquer porra colorida na frente? Véi, ela sempre foi apertadinha, gostosa. Será que tá prenha? Daquele cara? Aí fodeu tudo… Porra, aquela pele morena toda indecisa, meio branca, meio preta, mas o nível de gostosidão elevado, a mão macia que só, o cabelão de crina, coxa dura feito a porra, tudo se sacudindo com aquele miseravão? Tá de sacanagem… E o filho da puta do Goto que não chega? Tô que nem aquele livro, tipo esperando Goto. Porra, eu nem olhei pra trás pra ver a maravilhosa rebolando, naquele gingado do quinto dos infernos. Vacilo. Se bem que com aquele camisão de grávida… Talvez fosse só o calor, eu que tô viajando. Tem o quê? Uns três anos? Oxe… Pra que essa ginge? Já fiquei com um monte de mulher nesse tempo. É que ela é foda… Porra, que merda isso. Cadê, Goto? Vou abrir os trabalhos que é melhor. Pego uma periguete no primeiro isopor. Nem é cerveja direito. Pelo menos tá gelada e vai tudo de um gole só. Melhor que engolir seco com aquela visão da deusa. Goto chega agitado. Vem pelo lado do Taboão.
– Porra, Dog, é lá no Cantina, véi.
– Eu sei, só dei uma volta aqui. Cheguei cedo, calma.
– Bora que o pessoal já tá por lá.
– É a mesma galera do ano passado?
– Vai ter as muié também.
– Como cê conseguiu isso? Falou que não vinha?
– Rá, tu é uma comédia. Olhe se eu tô rindo…
– Já sei! Disse que eu taria na área?
– Peão com olho caído, orelhudo, barba rala, seco e fraco das ideia? Que muié vai te querer?
– Ah, vão preferir um baixinho torto, suado, faltando dente, que fala cuspindo…
– Vai tomar no seu resto. Agora, só lhe digo uma coisa: Filezinho vai.
– Eita, aí lascou. Cê forçou a amizade. Num vai sobrar nenhuma muié, Goto.
A gente chega ao bar e consegue mesa boa ainda, início da tarde de sábado. Vem a primeira ampola e Goto cantarola uma de suas paródias medonhas, direto da 5ª série.
– “Me dê um cacho do cabelo do seu…”
– Parô! Véi, parô! Evolua! Porréessa…
– Oxe, isso é um clássico!
– Vai cantar essa merda quando as meninas chegarem?
– Óia ele, todo cuidadoso.
O povo começa a chegar.
– Cachorro! Perdigoto! A nata da escória baiana representada.
– Grande Dromedário, aquele que não tem espelho em casa…
– Porra, já começaram sem mim? – grita Pino, o Pinóquio, aparecendo na sequência.
Logo a mesa tá cheia. Os caras e as meninas. Dos encontros dos amigos da antiga escola, esse deve ser o mais concorrido. Marieta tá bem. Acho que fez aquele sonhado tratamento dos dentes. Lili pouco mudou, segue feinha. Cássia e Nilda, sempre juntas. Falam feito a porra. Véi, onde arranjam tanto assunto? Filezinho já tá jogando o agá pra Verônica. Alta gostosidão ali. Ele não é fraco, não. E Amaro, o Boca de Cabra? Todo saidinho pra cima de Ritinha Repescagem. Tô gostando de ver. Ela num tá fraca, não. Toda empinadinha. A lei da gravidade nem sabe que ela existe, um espetáculo, na moral. E ele? Deu foi uma recauchutada naquela careca precoce. Família rica. Pagou alguma operação, na certa. Dromedário comendo é uma cena medonha – aparecer no bar já com um sanduíche, velho? E ela, Sandrinha Toda Toda… Rapaz, continua aquela loucura. Fico doido com aquela boca, as pernas grossas, o perfume suave, a marca de biquíni arrodeando o pescoço. Será que a gente podia… que nem da outra vez? Trepada boa da mulesta, viu? Ela deve ter ficado meio braba. Sumiu. Só porque não queria ser vista com o Dogão aqui? Isso é do tempo que eu era mais pobre. Dei um “up” agora. Danes-se, azar o dela. Eu mandei bem, mas sabe lá, cabeça de mulher. E essa mesa, hein? Quem diria… As risadas continuam, só que o jogo é de caça, papá. Vou até Sandrinha. Tá casada, mas e daí?
– E aí, como vai a vida?
– Ótima, João.
– João? Não vai mais me chamar de Cachorrão?
– Já mudei de fase nesse game.
– Cê tá diferente mermo. Cinco anos sem lhe ver.
– Não vivo mais aqui, ué.
– Agora é estrangeira, tá chique.
– Meu marido é italiano. Casamos lá. Desculpe aí…
– Sei… Cê tá assim, felizona, ou bate uma saudade do Dogão aqui?
– Se plante. Ficar com você uma vez já foi exagero.
– Ah, mas foi bom demais, né?
– Pra você.
– Cê disse que gostou e muito.
– Mulher fala o que quer. Homem é besta que dói.
– Duvido que fingiu.
– Eu tava chapada, você bem sabe. Se aproveitou de mim.
– Ó você errada, tarrenaí? A gente podia pirar de novo e…
– Pare. Eu nem bebo mais. Só me trouxe problema, você incluído.
– Qualé, Toda Toda…
– Quem lhe deu essa osadia? Sandra pra você. Mais respeito.
– Por que sumiu assim, de rede social, de tudo?
– Minha vida é outra.
– Vamo dar uma volta na praça e matar a saudade?
– Que “ade”? Se enxergue.
– Outra noite daquelas, que tal?
– Como? Me bata um abacate, João…
– Umazinha só…
– Só se eu estiver louca pra ficar com você de novo. Me deixe em paz.
Ela fala e se levanta. Vai para o outro lado da mesa conversar com as meninas. Não me deu mole. Será que o marido é ciumento? Que nada. Ele nem tá aqui com ela. Tá falando no celular. Será que é com ele? Tá dando de durona, mas eu chego lá, na boa.
– E aí, Dog? Tá querendo pegar a mais difícil, viu, papá…
– Pegar?
– Sim, tô de olho em tu. A mulé é casada, viu?
– Só tô conversando.
– Agora, ela tá arrumadinha, viu? Melhor que no tempo da escola…
– Cê acha?
– Oxe… Eu vou ali, de boa.
– Que é isso, Goto? Olha como fala.
– Ué, é tua namorada?
– Nunca tive nada com ela.
– Tu não era assim, Dog… Joga um agá, véi.
– Oxe, a mulher é casada, tô fora.
– Então pra que o lero todo? Todo mundo tá vendo.
– Muito tempo que não via.
Fico assim na bola dividida, mas como prometi a ela que nunca contaria a ninguém sobre aquela noite, deixo Goto no ar. Aliás, meu amigo tá ali queixando Cássia. Difícil pra ele. É muito sofisticada. Boca de Cabra e Repescagem já tão de boaça. Filezinho e Verônica no trampo de língua. Normal. Ele é terrível. Eu procuro Sandrinha. Ela volta ao lugar original na mesa. Vou à luta de novo. Fica nervosa quando eu chego. Ela me quer, tenho certeza. Se fizer direitinho, eu pego essa gata de novo.
– Sandrinha, minha linda, eu queria saber umas coisas.
– Estou ouvindo.
– Cê foi embora logo, fia. Quéqueaconteceu?
– Meu pai foi transferido para a Europa. Conheci Enrico e foi tudo rápido.
– O cara não é fraco.
– É gentil, cuidadoso, educado, rico. Me deu o que eu queria, precisava. Você nem sabe o que é isso.
– Oxe, eu hein… Por que nunca me deu notícias?
– Pra você? Se ligue, mal falei com as meninas.
– E fez o quê nesses cinco anos?
– E é da sua conta, João?
– Peraê, peraê, o que cê tem contra mim, menina?
– Não tenho nada a favor, é certo.
– Eu só queria saber por que cê nunca mais falou comigo.
– Não vale uma conversa. Já tenho lembrança o suficiente daquela noite.
– Foi tão ruim assim? Duvido.
– João, mude de assunto. É melhor. Não vai rolar.
– Aposto que seu marido não tem aquela pegada que cê gosta.
– Você se acha, viu?
– Me garanto, é diferente.
– Teve alguma mulher antes ou depois daquela noite? Ai, ai…
– Oxe, tá me estranhando? E vai negar que ficou louquinha?
– Tá nas drogas?
– Diga, olho no olho, que num gostou.
– Repare, essa conversa já deu. Vou vazar.
Fala e se levanta. Vai até a frente do bar. Olha a rua e o celular, alternando. Pediu Uber? O que será? Chega um carrão. A porta do carona abre. Sai de lá uma criança, que corre em direção a Sandra. Ela se agacha para abraçar. É um menino e eu estou chocado. O olhar, as orelhas, o sorriso. Tô me vendo no espelho. Xerox reduzida, arquivo zipado! Se ele latir, não me surpreendo. E ainda temos o mesmo sinal – o dele é no nariz e o meu nas costas, logo acima do rego. Um grito de Pino me tira o foco enquanto o carro se afasta.
– Cachorrão, trouxe a família, foi? Apresenta aê! – apontando um vira-lata preguiçoso ali perto.
