Quem é que pode? – Yan

Nós somos um casal e queremos ter um filho. Começamos o casamento, eu tenho vinte e sete anos e Carmen, trinta. Meu pai me teve aos trinta e meu avô teve meu pai aos trinta. Eu sei que vou ter um filho aos trinta. Carmen não sabe se quer ter um filho aos trinta e três, mas concorda em deixar o assunto em aberto. Somos um casal e não temos um filho, mas um gato, uma gigantesca comigo-ninguém-pode, alguns frascos de kombucha, diversas minhocas distribuídas em duas composteiras e um robô de limpar o chão cheio de cinzas. Completo trinta anos e, no mês seguinte, não somos um casal. Carmen fica com o gato, com a gigantesca comigo-ninguém-pode, com os frascos de kombucha agora sem kombucha, com as minhocas e com o robô de limpar o chão. Eu fico com as malas, com a foto da minha mãe, com as cinzas, com a poeira dos meus livros e com meus livros. Ficamos os dois com o argumento de um roteiro de longa-metragem por escrever.

Vejo a baía de Todos os Santos pela janela do avião e estou de olhos fechados quando sobrevoo a baía de Guanabara. Durmo. Uma voz de criança fala comigo pela boca sem boca das folhas de uma minúscula comigo-ninguém-pode:

“Papai, e eu, papai?”.

“Você”, eu respondo, “você não existe, minha filha”.

“Mas você tá me vendo, não tá?”.

Fico em silêncio. Olho em volta e não existe nada senão a minúscula comigo-ninguém-pode no centro de um gigantesco vácuo preto. Suas raízes são compridas e balançam no ar, mas ela parece firme como as pedras de Amaralina ou o Maciço da Tijuca.

“É bom você me ver, papai”, diz a minúscula-comigo-ninguém pode, “ou você vai ver só”.

Acordo com o tranco da aterrissagem no Santos Dumont. Peço um Uber para a Tijuca. Ainda tenho a chave da casa paterna, mas encontro a porta aberta. Meu pai me encontra sem filho, sem esposa, sem casa própria, sem carreira – e me recebe com tudo o que tem. Três dias depois recebo uma ligação de Carmen. Ela conta que dorme mal, menos pelo meu cheiro no travesseiro e mais pelos sonhos com as minhocas. Nos sonhos, elas saem das composteiras e rastejam até o quarto, sobem na cama e entram pelos ouvidos de Carmen. As minhocas entram pelos ouvidos de Carmen e falam em uníssono numa única voz de criança:

“Somos a filha de Mateus. Vamos nutrir a terra onde vamos nascer”.

Não peço descrições sobre o timbre da voz, se parece uma criança arteira ou chorona, menino ou menina, se as minhocas rastejam como um bebê engatinha. Depois de ouvir minhas tranquilizações e ainda tremendo a voz, Carmen repete:
“Eu tô em choque, Mateus”.

Desligo o celular, esvazio as malas e organizo meus livros nas prateleiras que meu pai disponibilizou para mim. Muitos permanecem nas malas. Todos permanecem com poeira. O chão também permanece com poeira e ganha as cinzas dos cigarros que acendo. Meu pai tem três vassouras em casa e promete jamais comprar um robô de limpar o chão, coisa que acha ridícula. Eu também acho. Passam-se três dias e escrevo para Carmen pelo WhatsApp para saber como estão as coisas. Ela não me diz se para de ter crises de cólica e arroto, se diminui a lactose e o glúten, se o gato está com saudade de mim ou se ela está com saudade de mim. Nem pergunta se estou comendo direito. Conta apenas que os sonhos com as minhocas aumentaram e que dorme feito um presidiário. Eu não conto para Carmen que durmo feito um bebê sem o gato miando na porta do quarto às quatro da manhã atrás de ração. À noite como um prato de carne pela primeira vez em três anos, durmo e suo feito um porco indo pro abate e não sei se me debato pois não há ninguém ao meu lado na cama. Mas sei que sonho.

“Papai”, diz a minúscula comigo-ninguém-pode, “e eu, papai?”.

“Você foi muito malvada com sua mãe”, eu digo. Tiro uma tesoura do bolso e tento cortar as compridas raízes que balançam no ar no centro de um gigantesco vácuo preto.

“Ai, papai”, ri a minúscula comigo-ninguém-pode, “você é tão bobo”.

Suas compridas raízes são finas como meus braços, mas ela parece firme como as pedras de Amaralina ou o Maciço da Tijuca. Faço força para fechar a tesoura, mas sou mole como a barriga de Carmen.

“Você vai encontrar a minha terra três vezes, papai, por três anos”, diz a minúscula comigo-ninguém-pode com a voz fina de uma criança que fala grosso. “Aí eu vou embora”.

“Cala boca, porra, cala a boca”, eu digo e tento picotá-la com a tesoura.

“Combinado, papai?”, pergunta a minúscula comigo-ninguém-pode.

A tesoura escapa das minhas mãos. Olho para baixo e a vejo despencar no gigantesco vácuo preto.

Desperto, quebro meu protocolo de não fumar antes de comer, acendo um cigarro e abro o WhatsApp. Carmen me avisa que nosso argumento de longa-metragem foi selecionado para um laboratório de desenvolvimento de roteiro da Secretaria de Cultura do Ceará. Pergunto sobre os sonhos com as minhocas, Carmen responde que eles não aparecem mais. Começamos a gerar um filme.

*

Sou solteiro e tenho trinta e um anos. Largo meu trabalho de professor, aposto na escrita como forma de ganhar a vida para além de ganhar algum tipo de senso de realização. Procuro uma editora para meu livro e, graças a Carmen, começo a trabalhar também com roteiros de audiovisual. O laboratório de criação acontece de forma remota e eu vejo a cara de Carmen pela tela do computador toda a semana. As pessoas dizem que somos muitos maduros por trabalharmos juntos depois da separação. Baixo o Bumble, saio com uma mulher, conheço outras nos bares onde minha irmã me leva para sair de casa e parecer menos deprimido. Transo com algumas mulheres e sempre, antes de penetrá-las, durante ou depois, a cara de Carmen me vem à cabeça. Quase sempre broxo.

Carmen, que desponta como jovem promessa do cinema baiano, divulga em diversos festivais um roteiro escrito sem mim. Vem ao Rio para uma reunião com uma produtora e diz que quer me ver. Eu a levo na Floresta da Tijuca. Subimos o Pico da Tijuca, Ela sua em bicas e eu fumo pra recuperar o fôlego. Olhamos a paisagem e falamos sobre a separação, assumo todas as culpas de ir embora e de não ligar o robô para limpar as minhas cinzas espalhadas no chão. Carmen chora e menciona minha dependência emocional de minha irmã viva e minha mãe morta. Não assume minha dependência emocional dela, a adaptação total da minha vida à sua cidade e à sua vida. Conto que broxo com ela na minha cabeça quando tento transar com outras mulheres. Carmen sorri.

Descemos o Pico da Tijuca e falamos um pouco do filme que estamos gestando. Paramos numa cachoeira, Carmen tira o short e entra na água de maio azul com algumas dobras. Eu entro de sunga e sulcos nas costelas. A água está um gelo, Carmen vê que eu tremo e alisa os pelos eriçados do meu braço. Fico de pau duro e volto, de costas para ela, à queda d’água gelada. Fico lá até encolher e murchar. À noite vamos a um bar com pessoas do cinema que ela conheceu no festival de roteiro. Carmen diz que sou seu ex e que trabalhamos juntos, as pessoas se assustam, ela ri. Volto para casa um pouco bêbado, vejo uma mensagem de Carmen:

“Devo dizer que o tesão permanece”.

Respondo com o emoticon de dois olhinhos. Ela responde com o emoticon de uma mulher fazendo um gesto de quem diz: “é isso, fazer o quê”. Respondo com a figurinha do Vampeta rodando uma camisa sobre a cabeça.

“Se você quiser eu quero”, Carmen escreve.

Eu lhe confesso o pau duro na cachoeira e marco um motel pro dia seguinte (minha irmã me mata se encontra Carmen em casa). Acordo no dia seguinte e digo que é melhor não fazermos isso. Carmen me manda diversos textões, volta para Salvador sem se despedir e fica vários dias sem falar comigo. Depois me manda mensagens sobre o roteiro como se nada e comenta que a gigantesca comigo-ninguém-pode da sala está com as folhas secas e amarelas.

*

Nós somos uma dupla de roteiristas e estamos gestando um filme. Tenho trinta e dois anos e um livro publicado. Dizem que eu dou pro gasto e a pequena tiragem da editora independente vende bem, mas não dá pros gastos. O roteiro é minha grande aposta de conseguir viver de escrita. “A Cajazeira” se passa no começo dos anos 2000 e conta a história de Lalinha, uma menina de dez anos que planta pés de cajá para tentar evitar a separação dos pais. Tanto eu quanto Carmen crescemos no começo dos anos 2000 com pais separados e nosso roteiro ainda em gestação começou a dar frutos. Concluímos o primeiro tratamento no laboratório de criação e somos selecionados para um festival de roteiro em Fortaleza.

Apresentamos a ideia do filme num pitching para algumas produtoras locais  e uma representante da Globo Filmes. Declamamos um poema escrito por mim sobre amadurecimento e a fé da infância. Os jurados elogiam nosso entrosamento e dizem que temos tudo para ter “uma parceria muito fértil”. Frequento mesas de formação do festival e converso com algumas pessoas. Todos me conhecem como o carinha que escreve com Carmen. Tenho crises de impostor e digo que o mundo do cinema não é para mim. Carmen, com uma paciência abacateiro, me escuta e incentiva.

Na festa de encerramento, saio para fumar um cigarro e volto para salão e vejo carmen dançando Baiana System com um branco de dread que ela conhece de outros festivais. Tenho certeza de que eles vão se beijar, saio correndo para a área externa. Fumo dois cigarros e converso com uma menina do Bumble que me chama pra tomar uma cerveja no Benfica. A menina tem dez anos a menos que eu, barriga chapada, posta fotos no espelho da academia. Carmen vê que vou embora e me chama para dormir com ela. Penso no branco de dread, encosto minha barriga na sua e vamos para o hotel.

Na separação, eu tenho cinquenta e seis quilos, Carmen tem oitenta e um. Com dois anos de separados, eu faço academia e volto a comer carne, tenho setenta quilos. Carmen por sua vez faz um pirceng no mamilo. Ponho a boca e o metal não tem gosto. Ela me pede para morder o piercing e puxá-lo pra cima com os dentes. Tenho medo de arrebentar, desço beijando as dobras de sua barriga. Tenho vontade de sussurrar que sinto saudade. Do cheiro, do gosto, dos pelos que crescem firmes. Só não sinto saudade dos gritos que Carmen dá quando goza. Coloco a camisinha e papai e mamãe sempre será nossa medida exata. 

“Que buceta gostosa”, eu digo, “desculpa”.

“Eu gosto”, Carmen ri. “Mas onde foi que você aprendeu isso?”.
Durmo abraçado com Carmen. Estou sozinho no centro de um gigantesco vácuo preto. Não vejo a minúscula comigo-ninguém-pode, não ouço voz de criança nem voz nenhuma. Minto, ouço a minha.

“Filha”, eu grito, “vem papai. Vem papai, vem”.

Minha voz é engolida pelo gigantesco vácuo preto, que me devolve um choro de bebê, bem baixinho, vindo de longe. Acordo com o despertador do celular, pego a camisinha no chão e a encho de água na pia do banheiro. Gotinhas cor de catarro pingam da ponta. Desço o elevador carregando suas malas, nós nos despedimos com um selinho rápido. Já em Salvador, Carmen me manda uma foto de uma caixa com o rótulo: “Diad Levonorgestrel 1,5 mg”.

*

Estou enrolado com uma mulher e tenho trinta e três anos. É a idade de Cristo, vivo dividindo as dívidas em eternas parcelas menores. Depois de três anos me dizendo escritor, permaneço uma jovem promessa. Começo a trabalhar numa editora com leitura crítica dos originais de outras pessoas e escrevo cada vez menos. O senso de realização existe também, pois pago as dívidas e pago as passagens para São Paulo, onde mora a mulher com quem estou enrolado e pago yakibifuns na Liberdade para nós dois. Justo quando arrumo minha mochila para visitá-la, Carmen me avisa pelo WhatsApp que está no Rio.

Viajo para São Paulo, me enrolo um pouco mais com a mulher e descruzo a Dutra antes de Carmen voltar a Salvador. Eu sigo uma promessa na literatura, Carmen é uma consumação no cinema baiano e nacional. Seu roteiro escrito sem mim ganha um edital da Lei Paulo Gustavo e está em processo de produção. Ela está no Rio para começar o processo de decupagem com o fotógrafo, antes das filmagens na Ribeira, que vão contar a história de uma família que trata traumas antigos enquanto prepara uma moqueca de arraia. Marcamos na praia de Copacabana à noite, ela quer tomar vento na cara. Tomo um susto quando a vejo, capaz do vento levar.

Na separação, eu tenho cinquenta e seis quilos, Carmen tem oitenta e um. Com três anos de separados, eu faço academia e como batata doce com frango, tenho setenta e sete quilos. Carmen por sua vez tem sessenta e dois. Pergunto se volta a fazer kombucha para melhorar a digestão. Ela responde que corta a lactose, diminui o glúten e faz aulas de tecido no Circo Picolino. Não tem mais crises de cólica e de arroto, nem os fracos de kombucha, nem as minhocas. A gigantesca comigo-ninguém-pode secou e morreu. O gato está velho, mas passa bem e se locomove em cima do robô de limpar o chão. O roteiro de “A Cajazeira” também existe, mas está na gaveta e não falamos dele. Abrimos outras.

Falo que agora entendo como as rusgas entre Carmen e minha irmã eram na verdade um reflexo da minha dependência das duas, da minha centralidade desorientada em alguma mulher para nortear a minha vida. Carmen fala que realmente não é tão flexível quanto poderia. Reconhecemos que deixamos nossa história em aberto mesmo depois do fim, e que isso atrapalha novas relações.

“E você”, Carmen pergunta e olha para o mar, “ainda quer ter filhos?”.

“Sabe”, eu digo e olho para o mar, “sei lá. Acho que sim, mas essa é a primeira vez que não tenho certeza”.

“Eu acho que não quero. Além do negócio do papel imposto à mulher e essas ondas, tem o filme, tem uma ruma de coisa. Acho que ninguém pode preencher esse lugar que é só meu, sabe?”.

Eu digo que sei. E nessa onda de encerramento de ciclos, tiro os olhos do mar, ponho os olhos nela e conto que estou envolvido com uma pessoa, sem pressa, sem vontade de casar, só vendo da qual é. Ela sorri, diz “que bom” e conta que está ficando com um cara que conheceu no Festival de Roteiro de Porto Alegre. Acha que não vai para frente, mas está se permitindo. Eu digo “que bom” e nós escutamos o som do mar de Copacabana, diferente do mar de nossa antiga casa em Amaralina, mas de certa forma o mesmo. Caminhando na areia em direção ao metrô, comento mais uma vez sobre seu peso. Ela levanta a camisa e mostra um sutiã dois números menor.

“Véi, ó meu peito”.

“Caralho. Posso pegar?”, eu pergunto.

Ela deixa, pego, exclamo mais, ela abaixa a camisa. Pegamos o metrô juntos, nos abraçamos, ela desce na Glória e eu sigo para a Tijuca. Mando uma mensagem de boa noite para a mulher com quem estou enrolado e durmo um sono reto e sem sonhos.

Três meses depois, sigo na casa do meu pai, faço minha musculação, tomo meu whey e não escrevo, mas a escrita finalmente paga minhas contas, a dos outros. Na noite em que recuso o convite da mulher de São Paulo para morarmos juntos, durmo e sonho. Estou no centro de um gigantesco vácuo preto. Olho para direita, o vácuo some e surgem as pedras de Amaralina. Sobre elas está a minúscula comigo-ninguém-pode, suas raízes não aparecem.

“Papai”, diz ela, “eu prometi, né?”.

Olho para a esquerda, o vácuo some e surge o Maciço da Tijuca. Sobre ele está a minúscula comigo-ninguém-pode, suas raízes não aparecem. Quero gritar e quero chorar.

“Papai”, diz ela, “se cuida, viu?”.

“Filha”, eu grito e choro, “não vai. Não vai não, filha, papai te ama”.

“Eu sei, papai”, ela ri pela boca sem boca, “eu sei”. A minúscula comigo-ninguém-pode some, somem as pedras de Amaralina e o Maciço da Tijuca. Fico sozinho no centro do gigantesco vácuo preto.

Acordei e vi uma postagem no Instagram de Carmen, que sorria e alisava a barriga ao lado de um brancão. Ela estava grávida do gaúcho. Era uma menina.

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