O zíper traseiro do vestido emperrou numa altura que eu não conseguia alcançar sozinha. Foi a chance de trocar de roupa, colocar uma blusa frente única branca e uma saia da mesma cor. Sandália prateada, uma bolsa pequena e rua. Enquanto passava na boca o batom novo da Mac, notei, no espelho do elevador, a atitude autoconfiante da minha franja na maneira assentada de preencher a testa, atenuando as sardinhas do nariz e as pálpebras inchadas da última sessão de laser.
Reunidos no Viana, minha turma de dança de salão já se animava com o samba e a cerveja. Mandavam selfies sorridentes no grupo de WhatsApp, que em instantes seriam compartilhadas nos stories do Instagram.
Deu preguiça de gastar o batom novinho em fotos para as redes sociais.
O céu cintilava um rosa avermelhado nas nuvens do pôr-do-sol e eu poderia ter caminhado pelas quase nove quadras de casa até a Alameda dos Aicás, não fossem a sandália de salto e o suor escorrendo pela nuca. Impressionante o calor e a secura do ar nesses dias de maio. Decidi pegar um táxi.
Moema, sábado à tarde, música alta, chopp esquentando rápido. O telefone vibrou no meu corpo. Por um instante imaginei ter levado na bolsa o sugador de clitóris e me imaginei trancada no banheiro do bar gozando com meu vibrador, mas era a mensagem do Thiago, me lembrando da festa de aniversário da namorada.
Thiago, amigo que habita minha parte mais primitiva, o núcleo estriado ventral do meu cérebro, responsável pelas experiências de prazer e pela crença na invulnerabilidade pueril. Com ele já criei bloco de carnaval, mergulhei em Alcatrazes, fui peguete nas viagens de intercâmbio, pichei muro, fui dupla de forró e garota que aborta escondida.
Só ele mesmo para antever o fiasco que seria minha noite. Chegaria em casa bêbada e solitária, carregando na barriga litros de chopp quente.
A festa é no apartamento dela, em Higienópolis. A mensagem era clara: “Apenas vem! Balada com pista”. Deu uma inveja danada do meu amigo, namora feito adolescente às vésperas de completar cinquenta anos, filho pequeno, sem trabalho fixo, nem um tostão para pagar a pensão e a escola do menino. Vive como se tivesse tirado o bilhete premiado, como se o sexo fosse o equino vencedor da corrida de cavalos. Ele se orgulha de ficar de pau duro só de lembrar do sovaco da Maria. E a namorada ainda tem nome de música que me emociona.
É uma pernada daqui até lá. Sábado à noite, trânsito na região dos Jardins, música alta no táxi, calor… a maquiagem começando a escorrer. O telefone vibrou novamente, não era o sugador, eu já sabia, mas deu vontade de bater uma siririca ali no banco de trás, lendo a mensagem do Cássio me chamando para um pagode no Escarcéu, no centro. Ele é meu amigo colorido, meu fuckboy, tipo de homem que não se envolve, sempre acompanhado por mulheres inteligentes. Fico orgulhosa de suas boas companhias, das quais faço parte.
O botequim é encostadinho na festa, passo lá, dou uns beijos nele e sigo para Higienópolis, pelo menos gasto meu batom com algo tangível, sem desperdiçá-lo na virtualidade comprimida dos stories.
Escarcéu estava agitado, um boteco na calçada da rua Santa Isabel, mesma rua da Santa Casa de Misericórdia, do outro lado do Minhocão. Cássio me espera de pé, encostado numa mesa alta, com uma garrafa grande de Heineken. Ele me recebe com o clichê, “feche os olhos e abra a boca, você vai gostar”, uma mordiscada de cogumelo, um gole de cerveja, me beija aproximando nossos quadris, apertando minha bunda, subindo pela barriga, tateando de levinho os bicos dos meus seios.
Dançamos agarrados na calçada até o primeiro intervalo da banda. Ele foi ao banheiro e eu fiquei apoiada na mesa, sentindo o efeito da psilocibina.
Chopp quente, mais cervejas no Escarcéu e a sensação de arrepio do cogumelo mágico me impediram de perceber uma dúzia de baratas saindo do bueiro. Quando Cassio voltou, eu brisava sorrindo, apoiada na mesa, com uma sensação estranha no corpo, misto de arrepio e cócegas. Ele olhou para baixo, eu acompanhei seu olhar, elas eram muitas e enormes correndo pelos pés e subindo nas minhas pernas. Num susto-grito-pulo, voei para o colo dele, chorando, gargalhando, aflita, com nojo, sorrindo, puta da vida e arrependida daquele muquifo. Devia ter ido direto para a festa.
Apareceram outras amigas coloridas e eu parti triunfante por passar o bastão do boy-boteco-baratas-pagode-cerveja-cogumelos. Chamei um táxi, uma perninha curta agora, do centro até a rua Maranhão.
O apartamento era enorme, primeiro andar, a festa se insinuava para os transeuntes com a iluminação colorida da sala-pista e a música ressoada das caixas de som. Festa animada, todos chapados de birita e sabe-se lá do que mais.
Thiago me recebeu com um abraço caloroso e o olhar de cumplicidade de toda uma vida. Maria estava deslumbrante. Desde que a conheço, há poucos meses, sempre impecável, corpo esculpido – ela nega – eu imagino que pelo crossfit, aulas de funcional, hot yoga, pilates e spinning. Nada como ser herdeira.
Fui logo para a cozinha, preparei um uísque com bastante gelo, me enturmei com todos ali. Já dançava na pista colorida, alucinada pelo cogumelo-cerveja-uísque-tesão de lembrar do pau duro do Cassio enquanto me encoxava no pagode.
Minhas costas exibidas pela frente única chamaram atenção do casal grande enquanto eu dançava ao som de “Palco”. Disseram que eram penetras, na linhagem dos amigos de amigos, batizados de “casal alto”. A mulher dançava bem juntinho das pessoas, sensual, quase corpo a corpo, enquanto o namorado, um rapaz magro, de bigode noturno, disparava olhares 43 pelo salão. A moça, àquela altura, já descalça, bem chapada, me pediu um cigarro. Fomos para a janela fumar, acendi o cigarro dela, os peitos vulcânicos no decote, na altura do meu queixo, ela devia ter quase um metro e oitenta.
De uma maneira que não sei explicar, a música se conectava à caixa de som pelo telefone dela. Enquanto fumávamos na janela, pediam-lhe a senha do celular, desbloqueavam a tela e mexiam na lista das músicas, conforme a demanda dos convidados, “toca eclipse oculto” do Caetano e por aí vai.
A uma certa altura, eu pedi a ela a senha do telefone para colocar minha música preferida do momento, “O baile de Betinha”, da banda Eddie. “Coloca aí, zero dois, doze, vinte e dois. Temos a mesma senha nos nossos telefones”. Fiquei muito curiosa por aquilo, já corria solta a fama do casal heteroflexível, determinado a sair da festa com mais alguém para a suruba. Não fui chamada para o rolê. Será que seria?
“Como assim vocês têm a mesma senha?”.
À medida que a moça contava a história deles, fui ficando siderada pelo cabelo ondulado sem tintura e pelo batom vermelho intacto na boca carnuda, muito instigante isso de não botar tinta no cabelo, mas colocar boca nos lábios. “Ficamos pela primeira vez numa casa de forró e depois saímos para uma balada gay onde ele beijou outro homem na minha frente. Aí amiga, eu me apaixonei, ele é meu número, depois de três casamentos e um filho, sei que ele é o meu tudo nessa vida”.
Devo ter feito cara de orgasmo, pois logo em seguida ela me convidou para transar com eles. Fiquei com vontade. Já sentia a textura daquela pele nua e o cheiro dos fios prateados de cabelo, embora não conseguisse imaginar o bigodudo peladão.
Aflita pelos riscos dessa experiência, medo de gostar, de não saber como operacionalizar a história, inventei uma desculpa qualquer e declinei o convite. Me pareceu estranho sairmos os três juntos da casa de Maria.
Sem muita lembrança, beijei uma mulher na cozinha, um homem no corredor. Estava na hora de ir. Devo ter gastado em aplicativo mais do que o batom novinho da Mac. Thiago-belezura me colocou no carro.
No trajeto, fantasiava nós três, eu que não sou alta, pensava em que posição, por cima de quem, como desapareceria de baixo de tantos metros de pernas e braços, quantos beijos, no corpo de quem eu me engancharia.
Três da manhã e era fervo.
Bati uma siririca no banco de trás do uber, lembrando da minha cena preferida do cinema, aquela da “lei do desejo” de Almodóvar, quando Carmen Maura, na pele de Tina, uma mulher transsexual, numa noite de imenso calor em Madri, encontra um jardineiro regando as plantas e pede para ser molhada com a mangueira: “Vamos, rega-me”, recebendo em êxtase o jato de água fria no corpo, seios e quadril. Regar o corpo é também um modo de andar a vida.
Lígia Bruni Queiroz

