O bloqueio é para nunca mais se verem. E de fato, nas redes sociais nunca mais se encontram, a menos que a menina Bia, que a visualiza nos Stories, seja um perfil falso com a foto da filha dele. Nem tão falso porque, se for ele se passando por ela, existe ali algum DNA. Selene nem impede. “Deixa o Fred ver e criar histórias com o que não divulgo. Nem posto assim tanta coisa”. Para Selene, mesmo que a menina seja ele, Fred segue bloqueado também nas lembranças. Mundo virtual resolvido, inquietações interiores também, Selene não espera que às três da tarde, na estação Chácara Klabin, o homem de ombros e queixo largos, suéter cinza sob camisa polo azul marinho é o Fred real e sem bloqueio. Usa a calça de sarja cáqui que ela um dia comprou e os sapatos pretos de amarrar. Até para vestir parece que segue a metodologia acadêmica.
Junto com ele entram outras seis ou sete pessoas, mais o moço do violino e caixa de som com playback de orquestra. Fred se senta no banco azul claro preferencial, bem em frente ao dela, e deixa ver meias estampadas que nunca usou. O homem do violino é largo e alto e se posiciona entre os dois. Fred não vê Selene, mas Selene vê Fred, mais especificamente só as meias pretas estampadas de flamingos por entre os coturnos do músico. “Ele nunca usou meias assim”. Não nos tempos de engenheiro e pesquisador. Será que se aposentou?” Só então se dá conta que o violinista abre o repertório com “The Scientist” do Coldplay. Isso é demais para ela. “O músico, bem que podia descer na Santos-Imigrantes. Vou colocar 10 reais no chapeuzinho. Mas se eu colocar dez reais no chapeuzinho, Fred vai me perceber. Não. Não. Fique aí, Seu Moço. Eu aguento a trilha sonora. Mas tinha que ser “The Scientist”? “O Fred, engenheiro e pesquisador, deve estar em lágrimas ou gozando com a lembrança dos seus experimentos com imãs. Ninguém disse que ia ser fácil, mas depois que descobriu o tanto de mulheres que os pedacinhos de ferro magnetizados atraiam, pra ela, até que foi. Buscava um motivo pra terminar aquela coisa enrolada e achou.
Se Selene tombasse um pouco a cabeça, seria capaz de vencer o corpo grande do músico e ver a cara de Fred colada ao celular. Nem tenta. Ele também a veria. O engenheiro pesquisador nem se liga no violino e Selene tenta ver se o reflexo no vidro atrás do seu assento mostra alguma coisa. Nada. Só o casaco de lã puído, longo e preto do violinista. Fred continua bem escondido graças ao tamanho do homem.
Na Santos-Imigrantes, o músico manda mais uma do Coldplay: Viva La Vida. Selene desgosta e procura os fones de ouvido ao mesmo tempo que olha de novo por entre os coturnos do músico. Dessa vez, os pés de Fred acompanham o ritmo. Ela esquece a ideia dos fones, põe os óculos, presos no decote da camisa e liga a câmera. Selene sente que precisa filmar. Abaixa o telefone na altura dos seus joelhos e grava. O elástico frouxo das meias não resiste às pancadinhas no chão e os flamingos rosados vão se amontoando nas folgas da malha preta. Fred se dobra para puxar os canos das meias. Selene para o vídeo quando os flamingos voltam a ter forma e os pelos das canelas ficam escondidos. Então ela se pergunta para onde ele vai. Está sem nada. Não leva nem uma sacolinha de mercado, um saco de papelão, um livro, uma ecobag encardida. Só a carteira e o celular nos bolsos. Do mesmo jeito quando se encontravam todas as sextas-feiras na hora do almoço. Uma vez por semana, nunca aos sábados, nem domingos. Não é hora de almoço e depois dela deve ter sossegado no casamento, criado a menina Bia e desistido do magnetismo do seu queixo largo.
O músico para o Coldplay e temos agora dois minutos de Fascinação até a próxima parada. Selene, de novo, reprova a música, procura os fones e encaixa as pecinhas brancas nos ouvidos. Melhor seria o violinista ter escolhido outro vagão e Fred também. Selene observa o chão e o chapeuzinho do violinista cheio de moedas e notas de dois. Ele interrompe a música, se abaixa, recolhe o dinheiro e agradece antes de descer. Pelo jeito, Fred vai seguir com ela até a última estação. A Vila Prudente é sempre movimentada. Antes que o violinista desça, Selene leva o livro que está no colo à altura do rosto. Devia ter feito isto desde que viu Fred e evitado a cena das meias. Pra que gravou se tem certeza de que não quer ver Fred de novo? Não consegue imaginar nem um esboço de um reencontro depois do reencontro. Há seis anos, ambos separados, pareceu perfeito rever o amigo do casinho mal resolvido. Não foi. Demorou para contar que estava separado, mas tinha namorada. Mesmo assim, seguiram juntos até ele se casar e Selene descobrir outras muitas , além dela. O trem para na última estação. Fred está no banco ao lado da porta e sai assim que ela se abre. Selene pensa que ele vai à cerimônia fúnebre de algum conhecido. Da estação fica bem fácil chegar ao Crematório da Vila Alpina. Vai ver é isso. Ela se mistura aos passageiros em pé e perde Fred de vista. Sente um alívio súbito. Antes de sair à rua e seguir para a escola, revê e publica no Stories o vídeo dos pés acompanhando o som original de Viva La Vida no violino. Duas horas depois, pela primeira vez o perfil da menina Bia envia uma reação com coraçõezinhos.
