A vista do Edifício Colina Azul

por Américo Paim

Lado sul

Renildo, no topo do Edifício Colina Azul, viu uma estrela cadente e achou chato. Preferia que ela honrasse o que era e se apresentasse como uma bola de fogo. Contemplou a cidade. Gustava, sua mulher, estava com ele. Mirrada, bonita até isso ser chato, cabelos e olhos combinados. Ele olhou longe e lembrou de como era quando chegou à cidade. Sem dinheiro ou perspectiva. Dez anos de casamento depois, negócios, poder, propriedades. Sem filhos. Ele os desejou no início. Ela queria muito ser mãe. Ele se descobriu estéril. Capricho do destino que na época doeu, mas agora lhe traz um sorriso de malícia, como se fosse tudo planejado. Ela lhe falando dos lugares que identificava dali de cima, alguns onde estiveram juntos. Ele escutava e sorria mentiroso. Queria estar com Alberta, aquele sexo todo. Completaram um ano há pouco tempo. Ela ainda bem longe dos cinquenta anos dele. Ele orgulhoso de funcionar sem pílulas. Barriga discreta, cabelo de implante, bigode fino e descarado, tudo isso em 1,70m. A esposa o puxou para olharem na outra direção. Caminharam. Ela com as duas mãos em seu braço esquerdo, repousando ali a cabeça. Ela sorria. Ele só pensava. O lado sul, onde estavam agora, dava para um beco sem saída. Ele sabia. Foi ali que pensou em se jogar, naqueles tempos difíceis. Uma queda em rua quase deserta, morte sem chamar atenção. Viu a mureta com um trecho aberto, em manutenção. Seis da tarde, o sol com pequenas sobras, se despedindo. Ninguém mais no terraço. Acidentes acontecem.

Pugilista

A construtora ia muito bem. Renildo, um diretor respeitado e, para seu deleite, temido. Sua mão pesava. Ninguém se atrevia. Muitos testemunharam mais um de seus acessos de raiva quando humilhou Dona Ester, secretária antiga, que ele herdou após a morte de Dr. Rachid, muito querido. O erro foi em um e-mail, nada que implodisse a companhia. Puta e vagabunda seriam elogios diante das palavras que cuspiu nela. Os gritos ouvidos longe. Ela desabou na cadeira. Ninguém se aproximou, só Lisandra do RH, que chegou com os papeis, como se fosse tudo planejado. Foi rápido, no tempo de uma dose de uísque dele, com a porta aberta, combinando, em voz alta, um churrasco para o fim de semana. Seu riso encheu o ar, enquanto a senhora saía em silêncio dissimulado, a voz interna bradando. As mãos, fechadas como pugilista, esmagavam o ar. Seu choro vertia para dentro e ela caminhou ereta até o elevador. Em poucos dias, chegou Alberta, selecionada por ele mesmo. Os corredores e salas falavam da saudade de Dona Ester. A moça, de gestos interessantes, riso de dentes escondidos e covinha, começou contida e respeitosa. Conduta profissional, bom currículo. Despachava muito mais vezes na sala do diretor que sua antecessora. Passava imagem de boa moça. Mudanças acontecem.

Pelo espelho

Não demorou para Renildo deixar táxis, ubers e discrição de lado. Passou a usar seu próprio carro para encontrar Alberta. Washington, o motorista, era um tipo quieto. O rosto fino e incisivo, com barba discreta, destoava dos ombros e braços fortes. Se ninguém falava nada sobre o casal, muito menos ele. Chegou à empresa por indicação, pouco depois que Dona Ester foi demitida. Fazia seu trabalho, pouco interagia. Logo atendia a Gustava também. Uma benção, como se fosse tudo planejado. Ela era diferente. Gentil, simpática, conversava com respeito. Ele não falava da vida pessoal. Ela compreendeu isso logo. Não tentou mais. O patrão era sempre ríspido e fazia do jovem rapaz o que queria. Não tinha hora ou local. O moço apenas obedecia, sem esboçar reação que o descortinasse perante o diretor. Levava e trazia. Trazia e levava. Presenciou tanto pelo espelho. Conversas impróprias, negociatas, acordos estranhos. Carícias ousadas, grosserias, discussões, violência, choros. Nunca interferia. Só com Gustava, que aos poucos migrou de esposa feliz para mulher cheia de interrogações. Ela sabe, pensava ele olhando para o banco de trás. Ela passou a falar da sua vida. Ele era ótimo ouvinte, atento. Sabedor de ser útil permanecer oculto. Revelações acontecem.

Empurrão

O tempo deixou Alberta confiante. Logo dava ordens na empresa e em Washington. Ele se mantinha reservado em sua dieta de sapos. Ela incorporou de vez o estilo bruto do patrão, ainda assim ele resistiu. Chiliques diversos: o vestido dela na lavanderia, as compras do mercado, o calor dentro do carro. Ele focava no banco de trás. Divórcio, partilha de bens, empecilhos, mais tempo, sem pressão. A frequência do tema aumentava junto com sexo e violência, sem cerimônia. Coisas esquecidas no veículo viraram seu acervo pessoal, como se fosse tudo planejado. Desconhecia o paradeiro, se alguém perguntasse. Trabalhava sem folgas ou férias. Acumulava. O patrão de horários improváveis, apesar de Alberta e Gustava, escapulia aqui e ali. Estando com amigos executivos, falastrões após muitos uísques, era quase rotina. Outros perfumes e excessos ao alcance de um olhar breve no espelho. O motorista usufruía do privilégio. Um dia, bem alterado, Renildo extrapolou. O empurrão em Washington foi na frente da amante. Ela riu, ele encarou o jovem, que apenas ficou em silêncio dissimulado, as mãos, fechadas como pugilista, esmagavam o ar. O diretor não deu importância àquilo, mas ela reparou o olhar diferente, algo de quem está no controle. Ela sentiu medo. Ninguém ligou os pontos dias depois, quando Argos, o dobermann do patrão, apareceu decapitado. Renildo só pensou nos seus inimigos. Da mesma forma, no dia em que o estúdio externo, na casa do diretor, amanheceu todo manchado de tinta vermelha e a enorme coleção de uísques caros toda destruída. A polícia foi acionada, mas pouco descobriu. Limites acontecem.

Noite quente

Washington passou a retribuir as gentilezas de Gustava, conversar, acolher. A sofrida esposa se amparou fácil naquilo, um amigo, a princípio. As carências afloraram, porém. O primeiro beijo veio logo. Em poucas semanas, ele controlava. Juras e promessas, como se fosse tudo planejado. Ela ignorava as diferenças entre eles. Ele não. Acontecimentos na empresa e seu entorno pressionaram Washington. Não havia mais tempo. O patrão muito próximo de fechar o maior negócio da carreira e superar o conservadorismo dos acionistas reservados e rígidos. A primeira vez na longa história da construtora que admitiriam um novo sócio. Tudo ia bem. Excitação e promessas no banco de trás. Washington se moveu no tabuleiro. Um encontro pra lá de quente na casa de um amigo, a noite com Gustava filmada e fotografada. Fez com ela coisas que nunca antes, em vários ângulos. Em dois dias, tudo nas mãos de Renildo. Imagens e cenas em que não se via o rosto do homem, apenas a mulher feliz e falante. Anexada uma lista de exigências. A negativa levaria o dossiê à mão de cada sócio da construtora e a depender do que o patrão fizesse, a coisa iria mais além, tudo espalhado pela empresa. Negociações acontecem.

Bola de fogo

Sem saber como abordar Gustava sem estragar os planos, Renildo avaliou o caminho de menores perdas, entrou no esquema e pagou tudo que foi exigido. No dia do encontro marcado para receber pelo que pagou, ele dispensou o motorista. A mensagem era clara: ele e Alberta apenas, sem polícia. Com medo do escândalo, ele topou. Seguiu muitos quilômetros fora da cidade, já entrando pela serra. Parou o carro onde orientado, perto de um dos vários mirantes. Um trecho isolado, sem movimento, fora da estrada. Esperou quinze minutos aflitos. Um homem chegou com uma escopeta, máscara no rosto e luvas pretas. Falava com voz disfarçada, irreconhecível. Tomou as chaves do veículo. Renildo e a amante retirados, amarrados, amordaçados, revistados. Uma garrafa com gasolina foi aberta e o líquido espalhado dentro do carro. A arma para a cabeça premiada do diretor. Sob sua ordem, o casal entrou no carro. O homem tirou um papel do grosso casaco. Foto de mulher que arregalou os olhos de Renildo. Lenços nas bocas e lá se foram os sentidos. Desamarrados, sentados nos bancos da frente, cintos afivelados, pé direito de Renildo no acelerador. Motor ligado. Aceleração máxima. Cabo de vassoura no pedal do freio. Câmbio automático engrenado. Fósforo. Pedal livre. O trecho sem guarda-corpo. O carro desceu livre o penhasco. Alguém que estivesse no Edifício Colina Azul naquele momento veria aquilo como uma bola de fogo, iluminando a noite sem lua. Washington guardou no casaco a foto de Dona Ester, sua mãe. Pegou seu carro e dirigiu para a cidade. Foi visitá-la como se fosse tudo planejado. Dormiria lá e leriam os jornais no dia seguinte. Acidentes acontecem.

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