Fraldas geriátricas para que mesmo?

– Sentir muita raiva não faz bem.

– É porque não é com você.

Quem merece uma irmã como essa? Nunca vi pessoa mais sonsa. ‘Você anda muito agressiva’, queria o quê? Que eu te desse um beijinho de boa noite?

Com a maior paciência do mundo comprei dez pacotes de fralda geriátrica tamanho XG e mandei entregar na casa de Maria Eduarda. Assim ela pelo menos ia ter que passar na casa da mamãe.

Já estava cansada de ficar dando bronca nas cuidadoras que viviam faltando, de checar se mamãe estava sendo bem tratada, fora as contas, o supermercado e a farmácia. Maria Eduarda não fazia nada, às vezes telefonava para mamãe no meio da semana e sempre ouvia uma voz derretida do outro lado da linha. Eu tinha muito ódio disso.

Como mamãe tinha uma saúde irritante, resolvi piorar um pouquinho as coisas para ver se minha irmã se mexia. Dispensei a cuidadora da noite e assim que cheguei na casa de mamãe fui direto para o quarto dela. Depois de conversar um pouco, perguntei se ela não queria tomar banho.

– Já tomei banho hoje.

– Não parece – disse franzindo o nariz.

Enchi a banheira e fui buscar mamãe. O cheiro que saiu da fralda foi bem desagradável. Carregar mamãe até o banheiro também não ficou para trás, nos últimos tempos ela havia engordado, comia tudo que via pela frente, inclusive as bitucas de cigarro se o cinzeiro estivesse por perto. Com muito esforço consegui colocar mamãe dentro da água. Dei um frasco de espuma de banho para ela se divertir.

– Não tem leite, vou rapidinho até a padaria.

– Maria Eduarda sempre traz chocolate, ela sabe que eu gosto.

– Se ela não estivesse trancada num spa, podia comprar uma caixa de bombom enorme para você.

– É para onde você devia ir, está sempre estressada, ficou feia depois que envelheceu.

Bati a porta e fui para rua. Não sabia muito bem para onde ir. Talvez um clube de tiro não fosse uma má ideia. Acabei parando no shopping para comprar um sapato para mamãe, seus pés haviam inchado e nenhum servia mais.

– Pode ser o preto.

Umas duas horas depois, voltei para casa de mamãe. O silêncio não poderia ser maior. Fui direto para o banheiro e ao abrir a porta, vi mamãe encolhida e com os lábios roxos de tanto frio.

– Onde você se meteu? Não consigo sair daqui. Se pelo menos desse para abrir a torneira de água quente…

Não ia conseguir abrir mesmo, eu tinha apertado bastante. Dois minutos depois, ela desmaiou. Confesso que foi outra epopeia levar mamãe de volta para cama, colocar uma camisola bem leve, quase invisível, e em seguida enfiar ela dentro dos lençóis. Cobertor, para que cobertor?

Eu dormi bem quentinha. Antes de pegar no sono fiquei pensando que uma saída seria queimar os cabelos de Maria Eduarda ou arrancar seus dentes, peguei no sono ainda indecisa.

O alarme do celular tocou antes de amanhecer. Irritada por detestar acordar cedo, fui até o quarto da mamãe e além de cobri-la com dois cobertores, vesti uma blusa de manga comprida nela. A próxima cuidadora não podia perceber a hipotermia da noite anterior.

Era domingo, o único dia que Maria Eduarda visitava mamãe. Eu estava em casa comendo asas de frango quando a cuidadora ligou dizendo que mamãe estava queimando de febre. Imediatamente telefonei para minha irmã e pedi que fosse para lá. Maria Eduarda falava como se não pudesse separar as arcadas dentárias.

– Que queijo, Maria Eduarda? Ah, você vai passar as férias na beira do Tejo? E quando é que você volta? Só para saber, e mamãe?

Podia se afogar e desaparecer. E claro, levar mamãe junto com ela. Mais tarde, liguei para saber como as coisas estavam. Naquela altura Maria Eduarda devia estar arrancando os cabelos, mamãe doente era mais insuportável ainda. Não conseguia entender o que minha irmã dizia no telefone, só escutava um miado histérico de gato. Até que ouvi ‘pneumonia’ e um ‘chiado no peito ‘.

– E por que você não levou a mamãe no pronto-socorro? Está esperando o quê?

– Cega.

– Mamãe ficou cega??? Como assim, Maria Eduarda?

Só depois de quinze minutos consegui entender o que estava acontecendo. Maria Eduarda não enxergava mais. Por achar que seu rosto havia despencado nos últimos meses, pediu uma dose extra de botox, fora os outros tratamentos. Suas pálpebras estavam cobrindo quase todo globo ocular de tanto que esticaram. Já mamãe respirava cada vez pior e tinha arrancado a fralda, a cama estava toda molhada.

– Liga agora para a clínica onde você fez o botox.

– Domingo.

A clínica estava fechada. Maria Eduarda começou a chorar. A última coisa que eu queria era ter que socorrer a minha irmã. Desliguei o celular e gritei de raiva. Fui obrigada a ir para casa da mamãe.

Ao chegar lá, Maria Eduarda tinha se trancado no banheiro e mamãe havia caído da cama. As duas gemiam. A cuidadora eu não sei onde foi parar. Depois de dar um travesseiro para a mamãe, bati na porta pedindo para a minha irmã sair de lá. Não aguentava mais carregar mamãe sozinha. Respirei fundo e comecei a berrar. Maria Eduarda abriu uma fresta da porta e comendo as palavras disse:

– Promete que não vai rir?

Quando ela saiu do banheiro não aguentei e cai na gargalhada, eu e o sapo enorme que eu tinha engolido todos esses anos. Cada pedaço da pele do rosto da minha irmã era uma placa tectônica e não parava de se mover.

– Foi reação alérgica?

Ela se jogou de joelho no chão e sacudiu mamãe pedindo ajuda, provavelmente o limite do cartão de crédito dela já havia estourado. O corpo de mamãe voltou para o mesmo lugar, estava rígido como um túmulo. Aí sim Maria Eduarda enlouqueceu de vez. Urrava como um urso. Nunca achei que ela gostasse tanto da mamãe assim.

– Todo mundo vai me ver.

– É o que parece.

É, não gostava. Ela se trancou no banheiro de novo e não saiu mais. Tive que providenciar o médico, a remoção da mamãe para o hospital, marcar o velório, o enterro, tirar a certidão de óbito e avisar os parentes e amigos. Tudo sozinha, como sempre. E lógico, escolher a roupa que mamãe ia vestir. Quando cheguei na sala onde estavam preparando o corpo, senti que mamãe ainda cheirava xixi. Me deu um alívio tremendo, era a última vez que esse cheiro ia entrar no meu nariz. Entreguei o vestido, os sapatos novos e também pedi para que a funcionária do hospital colocasse todas as suas joias.

– Deixa bem à mostra o anel de diamante, por favor.

– Não está entrando, vou passar um pouco de sabão no dedo da sua mãe.

Havia até que bastante gente no enterro. Maria Eduarda estava usando um chapéu com um véu preto que cobria seu rosto. Um tanto ridícula, mas ninguém percebeu o desastre dos últimos ‘procedimentos’, como ela gostava de falar. Quando viu as joias da mamãe dentro do caixão quase teve um piripaque. Se jogou sobre o corpo fingindo que estava sofrendo muito e tentou arrancar o anel da mamãe. Não saía de jeito nenhum. Tia Coquinha, acreditando no show da minha irmã deu um pulo, tirou Maria Eduarda de cima do cadáver e a abraçou tanto que achei que minha irmã ia ficar sem costelas. Só imaginei a cara de monstro por trás do véu.

Na saída do cemitério peguei todos os boletos do enterro da mamãe e dei para Maria Eduarda. Ela pegou uma caneta na bolsa e escreveu atrás da conta da tanatopraxista.

‘Estava contando com o dinheiro da mamãe para pagar as parcelas da clínica. Mais uma coisa, quem mandou você enterrar as joias?’

– Eram falsas, eu já tinha vendido tudo para pagar as cuidadoras.

Ela levantou o véu e tentou me fuzilar com aqueles olhos fechados, parecia uma míope perdida. Dei uma risada e continuei.

– O tratamento deve ter ficado caro, dá para perceber pelo tamanho do desastre. Dinheiro só depois do inventário, já vou avisando que não sobrou quase nada. Eu já tinha te visto medonha desse jeito?

Dessa vez as lágrimas de Maria Eduarda não foram de jacaré.

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