A raiva, ensina o mestre, é como ingerir uma pílula de veneno com a intenção de matar o inimigo. Eu juro que não tinha intenção de matar ninguém, quando peguei a pedra na calçada e comecei a bater no vidro do carro dele. Com muita força. Acontece que um vidro de para-brisa é um troço muito duro, difícil de quebrar. Minha raiva era muito forte, mas o para-brisa era mais. Parti para os espelhos. Quebrei os dois retrovisores. Consegui destroçar por completo o do lado do motorista. Em seguida fui aos faróis. Algumas partes do farol dianteiro também são muito duras. As lanternas traseiras eu consegui estraçalhar. Eram duas ou três da madrugada, a rua vazia, o bar na esquina e o posto de gasolina, fechados. Eu sabia que ele estava dentro do apartamento, olhando pela greta da persiana da sala, as luzes todas apagadas, obviamente. Covarde.
Meu carro estava estacionado logo adiante. Caminhei até ele com a respiração ofegante em passos decisivos de uma vingança (talvez semi) executada, abri a porta e me sentei ao volante. As pernas estavam fracas, mas a visão estava clara naquela noite fria e sem névoa. Mulher mansa não presta, ele costumava dizer. Tem que ser brava. Minha raiva aumentava. Dei partida de qualquer jeito e virei a esquina em alta velocidade, cantando pneu, com o veneno circulando forte no meu sangue, sua intensidade apenas ligeiramente aplacada.
Se eu disser que me lembro com clareza o que me deu tanta fúria e resultou em tal ato de violência no meio de uma madrugada qualquer, num outone qualquer, estarei incorrendo em um segundo ato embebido do segundo veneno do budismo: a ausência de boas intenções, a ilusão, o desejo de enganar. Eu posso não me lembrar do fato em si, mas seria fácil fazer uma lista de várias páginas, de todas as merdas que o Pedro havia feito por anos afora. Signo de peixes, ascendente em touro, lua em gêmeos. Se eu não sabia porque estava batendo, ele deveria saber muito bem o porquê de estar apanhando. E ainda era pouco.
Acho que não devo ter contado essa história nem mesmo pro meu psicanalista. Talvez não tive sessão naquela semana, não me lembro. Com certeza não contei pras minhas amigas mais próximas. Eu andava cercada de gente do budismo e do vegetarianismo. Cachaça, baseado, droguinhas e farra numa noite; no dia seguinte, grupo de meditação e leitura de Mente Zen, Mente de Principiante. Um ser dividido, eu era principiante em quase tudo, e topava o que me aparecia. Trabalho, faculdade, natação, almoço vegetariano todo dia, cigarrinho, forró e cachacinhas de noite.
Eu não queria correr o risco de perder a amizade da Cléo, por exemplo. Acupunturista, francesa que morava no Brasil havia alguns anos, formada em literatura na França, a Cleo falava inglês e português perfeitos, além de já ter sido ordenada monja no budismo zen, quando ainda super novinha. Eu era a tia que levava Michel, filho dela, ao estádio de futebol. Ao ouvir o refrão repetido sem parar na primeira vez que fomos ver um jogo juntos, Michelzinho, de olhos arregalados, me disse: tia, ainda bem que não trouxemos a Cléo! ela ia ficar muito brava! Olhos arregalados, mas um sorrisinho no rosto de onze aninhos, criado com todo zelo, ele se divertia com o rugido da torcida ‘Au, au, au, cai de boca no meu pau’.
A Cléo poderia deixar de ser minha amiga, se soubesse de meu ato de violência praticado naquela madrugada. Carreguei uma certa culpa por esse segredo por um longo tempo. Minha outra amiga, Paulinha, o mesmo. Sócia de um restaurante natureba e minha ex colega de apartamento, nunca a vi a Paulinha com raiva. Teve uma vez que quebrei toda a louça da casa, por causa de uma barata que se escondeu atrás do armário na cozinha. Fui arredar o armário pra tacar um spray na cara da barata e ele tombou pra frente, pra cima da pia. Tinha louça da avó da Paulinha naquele armário, herança de família. Acordei o prédio todo. No meio da madrugada, o que a Paulinha fez foi rir junto comigo, paralisada que fiquei no meio da cozinha por vários minutos. A barata lá, olhando nós duas e balançando suas antenas. O Leo, namorado da Paulinha, quebrou o chuveiro e nós duas ficamos semanas tomando banho no restaurante ou na vizinha. Ela nunca perdeu a calma com o Leo. Casou com ele, inclusive.
Se a lembrança exata do porquê daquela noite se apagou da minha lembrança, sei que algum tempo e alguns namorados depois, eu e o Pedro voltamos. Muita falta de vergonha na cara, tesão e paixão alucinada, música, cinemas, amigos, festas. Até o dia que quebrei o dedinho do pé direito dele, ao bater a porta do quarto com força, na hora que ele quis entrar pra me pedir uma explicação qualquer. Não me lembro o motivo. Só me lembro da raiva. E de ter me vestido e saído de casa batendo todas as portas que encontrei pela frente, enquanto ele gemia e segurava o pé, sentado no sofá.
O Pedro devia ter umas trinta e cinco namoradas de cada vez, apesar de só agora eu me dar conta disso. Uma vez, depois de um show da banda dele, uma morena deslumbrante de uns dois metros de altura deu nele um beijaço de cinema na minha frente. Fiquei em estado de choque e não tive reação. Ele me pegou pela cintura, colocou um copo de uísque na minha mão e ainda trocou algumas frases e sorrisos com a mulher. Eu simplesmente me pendurei ali no braço dele e bebi o uísque.
Eu era a namorada ‘oficial’ do Pedro e não tínhamos nenhum acordo de relação aberta, apesar de alguns amigos nossos serem adeptos. Nunca moramos juntos, porque pra mim, na época, era inadmissível roupa suja de alguém na minha cesta e cuecas no meu varal. Minhas calcinhas, minhas regras. Algumas pessoas nos consideravam casal modelo, casal moderno, casal fofo, casal genial. Mas ali tinha paixão, mas também tinha muita pancadaria. Minha lua, em escorpião.
Hoje eu e Pedro somos amigos. Quase parentes ou primos distantes. Eu casada, em outra cidade, outro estado. Ele separado, pela segunda vez. A gente se fala às vezes por aplicativo ou por e-mail. Mensagens de natal e de aniversário. Ele continua me achando brava. É fato que já arrumei muita confusão nessa vida. Em um tumulto com a Oi, que merda, uma empresa de telefonia de merda que felizmente parece que está falindo, quase fui presa. Na loja da operadora, mostrei os pulsos para o jovem policial e o desafiei a me algemar, cega de raiva.
Tenho alguns inimigos de estimação, mas hoje em dia eles são relativamente poucos. Eu diria que Elon Musk, Zuckerberg, Natanyahu e Trump estão no centro do plantel. Pra mim, eles são como aqueles vilões da Marvel, super do mal, arqui-inimigo do mundo, como aqueles das revistas em quadrinhos que têm um plano para dominar o universo. Mas meu ódio em geral se dirige a instituições e políticos. Minha irmã, muito ‘espiritualizada’, acha um milagre de Maria eu ter me casado e tido filhos. Acha meu marido um milagre do cosmos. Ela pensa que o Vincent é um santo: além de alto, lindo e caído do céu, só mesmo um milagre pra eu ter encontrado uma pessoa assim, ainda por cima capaz de me aguentar. Eu super discordo. A lua em escorpião tem seu lado de luz, não é só de sombra. Acho que tenho boas chances, só não correr certos riscos. Em todo caso, the júri is still out.
