José limpou o sangue, enxugou o rosto e encarou o espelho como quem reza sem fé na própria missa de corpo presente. O escândalo da noite anterior havia pernoitado ao seu lado como vergonha, a ressaca só piorava. No fundo do poço buscou abraço na casa da avó. Ela, sempre tão disponível. Ele, tão neto extraviado. Saía sem café quando ela largou o crochê e pegou na mão dele.
– A gata pariu hoje cedo. Quatro filhotes, um não vingou.
– Algum preto?
– O que morreu.
No supermercado, José levou um tapa na cara ao ver os Toblerones Miniatura, os preferidos de Carol. Uma abocanhada e a namorada mastigava rindo, bochechuda, espumando ultraje no olho dele. Sabia que isso levava José à loucura. Não pela eroticidade do ato, mas pela irritação dele com a deglutição alheia. E Carol provocava. Pegava pesado, cada vez mais emputecida com os desencontros dos dois. Ele em digressão com a banda, ela stalkeava pianinho os passos das fãs. Ela viajava para filmar, ele surtava ao imaginá-la em uma cena de beijo, de sexo. Na intersecção mínima de tempo em que se encontravam, era briga, briga, briga. O sarcasmo cortante, o cinismo escancarado, de boca aberta. As reações impulsivos, o apetite de vingança. Terminavam. Reatavam. As redes sociais piravam. Carol achava charminho a surra de nhoc nhocs diários, até o dia que fuçou no telefone do namorado e descobriu uma pesquisa sobre preços de tacos de beisebol. A brincadeira de birrinhas perdeu a graça e ela encerrou o namoro, ali, de vez.
O funcionário do mercado não chegou a tempo de identificar o autor dos chutes que derrubaram as prateleiras dos Toblerones. José pegou duas garrafas, pagou a compra no atendimento automático, e saiu, com um assobio disfarçado de vodka e dor. Havia esquecido o telefone no carro. Quatro mensagens de voz, inúmeros desesperos não atendidos. A agente da banda marcava em cima, nunca falava em tom baixo, mesmo que José não tivesse gritado. Ou ele gritava, e não mais percebia?
Não José, não foi isso que combinamos. Estar calado não significa que esteja a me dar sermão. Temos um compromisso à sério. Apareça inteiro. Depois tire um tempo, viaje, desapareça, morra se quiser. Hoje, venha.
José não ouviu os áudios restantes. O telefone voou com velocidade máxima pela janela, rumo à Costa da Caparica.
Na imitação barata do tapete vermelho os jornalistas cacarejavam elogios à banda. José entrou pelos fundos, o estilo rebelde blasé foi escudo perfeito para o ar de quebranto. Ignorado no camarim, os espelhos multiplicavam a sua ausência. A cena da banda já não era mais divertida, a camaradagem escoava de vez pelo ralo. O catering ressecava, sem clima para fome. As garrafas de uísque passavam da metade, por motivos de sobra. Um zum zum zum reinava, entre recriminações amarelas e perdigotos de cheetos. Estranharam José, passivo, zumbi, o meio baixar de pálpebras, a sonolência morna. Não seria mais ele o problema, a pessoa difícil, o gênio forte? Nem reagiu ao terceiro sinal. Foi empurrado para o palco. O show começou. O copo foi junto.
A música fez da sua degradação, força. Destroçou sua raiva com uma excitação redentora. Quase uma promessa para reviver o homem inteiro que era, quase uma saída para o caminho de volta. Surrou a bateria sem cerimônias, cada batida no prato exterminou um desgosto, cada toque no bumbo excomungou um sofrimento. No final da primeira música os aplausos o desviaram do transe. Demoliu-se frente as câmeras. Abandonou o show sem a menor satisfação, o capuz camuflou a afronta. Deu uma chicotada certeira e roubou a bolsa da backing-vocal. Dormiu com ela uma vez, conhecia seus truques. Queria a cartela de Zolpidem. Apanhou outra garrafa de uísque, fechada. A santa moda dos bolsos grandes não levantou suspeitas. Ignorou perguntas até o estacionamento, mastigou o remédio feito bala, entrou no carro, e foi embora.
Conduzindo, saiu do corpo e da linha do tempo. Odiava a todos, a agente, os caras da banda. Brecou no meio da ponte Vinte e Cinco de Abril. Odiava os fãs. Desceu do carro, largou porta aberta, motor ligado. Odiava os sanguessugas que ofereciam a caneta da firma e o sorriso-trapaça na assinatura do contrato, e depois fodiam com tudo. Mil luzes distantes, as janelas insones riam-se dele. Odiava a si mesmo. Carol estava lá, desembrulhando um bombom. Odiava ser fraco, medíocre. Carol abriu os braços. José berrou para ela ir embora. Odiava não ter amigos, não ter assunto. Carol desceu pela garganta uma enguia viva, sem mastigá-la. José gritou por socorro. Carol vomitou sangue na cara dele, rindo. José gritou que a amava. Carol estava na mesa de autopsia, seu fígado explodia, nojento. José chorou. Carol voava. José subiu na mureta, implorou para ela voltar. Ofuscado pela chuva de faróis, soube que a sirene era, mais uma vez, para ele. Em um lapso de consciência, em um milésimo de segundo sem fôlego, teve frio, teve medo, teve saudade da infância. Quis voltar para a casa da avó, quis o café com leite da avó. Quis a mãe, o colo da mãe. Ao descer, escorregou. Caiu no Tejo sorrindo, lembrando do gato preto que nasceu já morto. Sortudo, ele.
(Glaucia Faria)

