Avenida Pinto de Aguiar

por Américo Paim

Ele esperava pelo Uber. Jogou fora o guardanapo da casquinha. O de coco continuava perfeito. De costas para a Sorveteria da Ribeira, contemplou a vista, sempre bonita. A Península de Itapagipe, os barcos. Se perguntou por que levou tanto tempo sem dar uma chegada ali. Na época da escola, mesmo estudando na Cidade Alta, costumava vir ali com os amigos. Era muito bom. Azaração, rolê pela orla até os Tainheiros.

Chegou o carro, um Cobalt branco, Comfort. Trajeto seria longo até Itapuã, no calor daquele meio de tarde do verão de Soterópolis. Entrou e a motorista o cumprimentou pelo nome. Ele respondeu meio automático, cabeça ainda nas memórias dali. Acomodou seus 1,80m e a discreta, mas inegável barriga. Folgou a gravata. Passou o pata-pata no cabelo e no bigode bem tratados. Sacou o lenço umedecido que trazia no bolso, limpou um filete de suor na testa e refrescou as mãos finas que sentia meio sujas. Retirou os óculos escuros e sorriu à toa, mostrando os belos dentes. A moça olhou discreta pelo espelho, sem entregar reação.

Ainda saíam da Av. Porto dos Mastros, quando um freio brusco lhe sacudiu o pescoço para frente e para trás. Um cachorro atravessou a pista. Foi por pouco. Ele ia falar, mas ela foi mais rápida.

– Pode colocar o cinto, por favor, Sr. Osório?

– Cê tava correndo, né?

– Num tava não. Veio do nada.

– Fique ligada.

– Eu tava. Ninguém se feriu, né?

– Por sorte – falou e buscou o nome dela no aplicativo.

– Sou muito cuidadosa.

– Olhe… Hercília.

– Sim.

– Mais concentração e tudo certo na Bahia.

Ela não alimentou a potencial discussão. Entraram no Caminho de Areia. Ele em silêncio, olhando para seu lado da janela, pensativo. Problemas no trabalho, sem programação para o dia seguinte, um sábado. Pensando nas contas a pagar e que não pegava ninguém há muito tempo. Para sua desejada vida de delírio sexual aos 30 e poucos, estava de mal a pior. Parados em um sinal já na Barão de Cotegipe, ele reparou melhor na motorista. Ela usava uma calça jeans azul escura, com jeito de nova e confortável. As pernas lhe pareceram bem bonitas. Uma camisa branca de botão, dobrada umas duas vezes nos braços, pulseiras discretas, cabelos longos e negros soltos, mas bem arrumados. Óculos escuros e um batom vermelho suave. Tudo lhe pareceu interessante. Até chegarem em Água de Meninos e um pouco mais, ele alternou o olhar entre a paisagem externa e a motorista. Hercília. Nome pouco comum. Com algum esforço, lembrou.

– Hercília…

– Sim, senhor.

– Eu tô aqui pra lhe dizer um negócio, não leve a mal.

– Algum problema, senhor? O ar-condicionado? O aromatizante?

– Num é nada disso, não.

– Fique à vontade, Sr. Osório.

– É que eu gosto de papo reto, entendeu?

– Também acho isso certo.

– Pois veja que coisa engraçada.

– O quê?

– Tenho certeza que já lhe comi.

A freada foi forte e perigosa, início da Estrada da Rainha. Pura sorte que quem vinha atrás conseguiu brecar. Hercília ameaçou ligar para a polícia e parar ali mesmo, bloqueando o trânsito intenso, apesar do horário.

– Que loucura é essa?

– Oxe, só falei.

– Tá me assediando.

– Queéisso? Para tudo, véi, nada a ver.

– Como se atreve?

– Eu não disse que vou lhe comer. Falei do passado.

– Que absurdo, sem noção!

– Repare, calma. Eu fui seu colega de escola?

– Claro que não.

– A gente se bateu na faculdade ou no trabalho? Foi na missa?

– Lógico que não.

– Então, só falei como lhe conheci. Foi só pra quebrar o gelo, bater papo.

Hercília recuperou a calma, mas olhava pelo espelho o tempo todo e considerou de novo ir até a delegacia. Estavam na Heitor Dias e ela tirou os óculos escuros para coçar o olho direito.

– Oxe, agora com essa pinta aí, num tem dúvida.

– Como?

– Esse sinal aí embaixo do seu olho.

– Quéquetem? – ela se mostrou irritada.

– Lembro agora. Cê até gostou quando eu falei que era bonitinho.

– Olhe, melhor o senhor parar com a conversa.

– Foi uma trepada master, viu? Espetáculo.

– Me respeite!

– Eu só tô elogiando, véi. Saímos do Ponte Aérea, na Pituba, lembra?

– Não faço ideia.

– Cê tava meio chumbadinha mermo.

– É o quê?

Apesar do choque, ela aliviou o tom. Foi um relance, mas a frase pareceu fazer sentido. Guardou os óculos. Osório tinha um visual até interessante. Não era de se jogar fora, no fim das contas e ele tava bem, forte, pele cuidada. Ela se acalmou e concentrou na direção. Foi só entrarem na ACM, ele voltou a falar.

– Cê tava meio brigada com um carinha lá. Agora lembrei de vez. Xô pensar aqui o nome dele…

– Melhor parar com isso, já pedi.

– Ah, já sei: foi com Fora!

– Quem?

– Aloisio. A galera do baba chamava ele de “Fora de forma”, só que ficava comprido demais…

– Uma injustiça isso.

– Lembrou também? É que ele era gordinho, feioso.

– Que crueldade com o rapaz.

– Eu até entendi logo por que cê preferiu ficar comigo, modéstia à parte.

– Você se acha, né?

– Venha cá, aqui entre nós, cê foi meio siboteira…

– Retire isso!

– Oxe, ficou olhando, toda uda ali. Eu tava de boa, quetonomeucanto.

– Não lembro de nada disso – ela falou sem convicção.

– Peraê, rapaz… Cê tava molinha, mas num foi tanto assim não. Só se foi depois do motel…

– O quê?

– Ah, para com isso. Cê até falou que Fora lhe deixava na mão, só levava pra lugar brega.

– Olhe, isso já tá demais – ela falou entre chateada e curiosa.

– Eu apareci ali por acaso, óia. Sou amigo de um primo dele que tava lá no bar.

– Tá falando grego comigo.

– Josias o nome dele, mas pra nós era Tosquinho.

Engarrafamento na Paralela, logo depois da entrada para a Jorge Amado. Osório agarrado em uma ligação no celular. Ela ficou observando. Talvez fosse ele mesmo, a história lhe dando uns tapas na cara e ela nada de acordar. De qualquer maneira, ele lhe pareceu atraente, mas não daria o braço a torcer com aquela história louca. Ele desligou e voltou.

– Minha flor, repare. Ele lhe levou pro Volúpia, aqui pertinho, na Jorge Amado.

– Oxe, nem sei o que é isso.

– Sabe sim. Cê me contou tudo, abençoada. Fora negou fogo e num conhecia muito do serviço.

– Nunca vi tanta bobagem junta.

– Ficou naquele rame-rame de beijinho, alisando, conversê, todo mole… Aí dormiu de cachaça.

– De onde tirou essa história?

– Oxe, foi você que contou no bar. Que tinha sido na outra semana.

– Muita imaginação.

– Me falou que tava acesa, que num ia mais sair com ele, que gostou de mim e tal e coisa.

– Eu falei isso? Aonde…

– Siboteira, num lhe disse? Aí eu lhe prometi um lugar legal, motel de prima.

– É tanta mentira junta. Nunca conheci nenhum Osório.

– Ah, pera que eu explico.

– Tô ouvindo.

– Eu mentia o nome nesses reaggaes aí. Num queria confusão depois.

– Ah, enrolado…

– Tinha uma namorada ciumenta que só a porra.

– E qual era o seu nome, então?

– Era Átila.

– Nome estranho, viu…

– O pessoal me chamava de “flagelo de deus” …

– Oxe, que diabo é isso… Por quê?

As buzinas calaram a resposta. O trânsito fluindo, porém lento. Ela cada vez mais curiosa sobre como não se lembrava de jeito nenhum do que Osório lhe contava. Como tinha feito suas loucuras no período que ele alegava ter acontecido, não descartou as possibilidades e seguiu alimentando a conversa.

– Veja bem, esse apelido aí é por causa da natureza – ele disse.

– Explique aí.

– Ela foi generosa comigo, então…

– Oi?

– Hercília, vai me dizer que esqueceu que sou todo trabalhado no exagero, fia?

– Como é? – aí ela já riu…

– Tá vendo que se lembra?

– Você tem problemas, viu?

– Trago soluções, nega. Teve até uma posição, sua preferida…

– Quem? Eu?

– Oxe, quem mais? Eu que lhe ensinei e tudo.

– Esse trânsito não destrava…

– Taffarel.

– Como?

– A posição.

– Não entendi.

– É que na hora eu gritava: “vai que é tua”! Cê gostou demais.

Ela riu alto. Já nem sabia mais se queria mudar o rumo da conversa. Curiosa de verdade com aquilo tudo, ela passou a dar corda geral ao passageiro. Ele falava com tamanha naturalidade que ela estava mesmo acreditando que aquilo tudo era possível, embora não conseguisse se conectar. Seguiu viagem e agora estavam perto da Pinto de Aguiar.

– Nunca vi isso na vida. Nem vou perguntar como é.

– Olhe só, eu tô com tempo livre agora. Bem que nós…

– Pode parar.

– Ô, minha preta… Aqui, perto da Pinto – não é um bom sinal?

– Osório, se plante – ela já tava no riso solto.

– Aliás depois que duplicaram a avenida, ela ficou grandona, tá mais pra Caralho de Aguiar…

– Você é louco – ela riu.

– Foi o destino que reuniu a gente outra vez. E agora cê tá sem cachaça.

– Tá querendo o quê, meu cristo?

– Tudo que cê quiser. Aí tá cheio de motel bom. Num vai ser como Fora não…

– Como?

– Tudo dentro…

Ela nem escondia o riso mais. A entrada se aproximando e ela já nervosa, sem admitir que aquela maluquice estava acontecendo, deu sinal para converter na Pinto e perguntou, piscando um olho:

– Você faz “cabelinho de um, cabelinho do outro”?

– Ah, moleca…

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