Depois que terminar o inventário não vou mais precisar falar com Maria Eduarda. Isso seria o meu cantinho no céu. Só que aqui na Terra o tormento continuava.
– Me dá uma carona?
– Você mora no outro lado da cidade.
– Por favor.
Contra minha vontade, coloquei mais uma parada no trajeto do Uber. Minha irmã ainda estava histérica, talvez uma gentileza amenizasse nossas futuras brigas na divisão dos bens de mamãe.
O Uber chegou, era um Ford preto e pequeno. Assim que entrei no carro, senti que o estofamento do banco estava todo ensebado. O cheiro de suor do motorista também não ficava para trás. Maria Eduarda tirou o véu e fez uma cara de nojo.
– Não podia ser um Confort? – disse entortando os lábios.
O motorista olhou pelo espelho, provavelmente querendo saber quem era aquela metida, em seguida arregalou os olhos como se tivesse acabado de ver a mula sem cabeça de luto. É isso mesmo, pensei, ela não morde, em todo caso é melhor não se aproximar muito. O problema foi que ele se virou para se certificar de que tinha uma assombração sentada ali e não dava partida no carro.
– Tá olhando o quê?
– A senhora é diferente. Nunca tinha visto um rosto se mexer – ele percebendo que Maria Eduarda tinha começado a espumar pela boca, quis remendar a situação e só piorou – não dava a idade que a senhora tem.
– E quantos anos você acha que eu tenho? – ela disse alisando os cabelos.
– Uns setenta e dois, mas juro que não parece.
Ela pôs a mão no rosto e começou a chorar, depois olhou para os dedos e teve um ataque.
– Para na próxima farmácia!
Nem deu tempo de perguntar o que minha irmã tinha, ela abaixou o véu e quando dei por mim já estava lá dentro. Pelo tamanho da demora, achei que Maria Eduarda fosse sair com uma sacola enorme. Veio com um saquinho de papel e quando entrou no carro estava ainda mais nervosa.
– Você precisa me ajudar, pega!
Gaze, esparadrapo e uma tesoura pequena.
– Está saindo água do meu rosto, faz um curativo em cada lugar que estiver molhado.
– Maria Eduarda, seu rosto tá todo molhado.
– Ai meu Deus! Tá pior do que eu imaginava. Cobre tudo, rápido.
Fazer um curativo nas bochechas, no nariz e no queixo foi fácil, só que quando chegou a vez das pálpebras, tive que cortar a beirada da gaze para que Maria Eduarda pudesse enxergar. Acabei picotando o cílio esquerdo dela. Para que não ficasse disforme, fiz a mesma coisa do outro lado.
O motorista não desgrudava o olho de nós duas e franzia a testa como se não estivesse gostando do trabalho que eu estava fazendo. Também, com tanto buraco nas ruas, era difícil não deixar tudo torto. De repente, ele levou uma fechada, não conseguiu frear a tempo e acabou batendo na traseira de uma pick-up. O motorista do Uber desligou o carro e saiu para ver o que tinha acontecido. Ficamos sem o ar-condicionado.
As gazes do rosto de Maria Eduarda que já estavam molhadas, com o calor, começaram a empapar.
– A esteticista disse que meu rosto precisa ficar o mais seco possível. Me ajuda a arrancar os curativos.
– Tá sinistro. Que diabo de esparadrapo você comprou?
– O mais barato.
Quando fui puxar a tira que estava em cima da pálpebra, fiz uma depilação gratuita na sobrancelha da minha irmã. Ela começou a gritar como uma louca, não só por isso, mas também porque em alguns lugares o esparadrapo não saía. Pobre Maria Eduarda, ela parecia um cachorro sarnento com o pelo cheio de falhas.
Não sei se por ter ficado com o rosto muito úmido ou se foi os puxões do esparadrapo mas o rosto da minha irmã despencou de vez. O olho não era mais puxado, a pálpebra tinha virado uma pelanca de galinha e caía na frente dos olhos como se fosse uma persiana velha que não subia mais. As bochechas? Não chegava aos pés das de um buldogue. Já a língua continuava afiada, como não estava mais presa dentro da boca, pude ouvir com todas as sílabas o que Maria Eduarda esgoelava: eu era a culpada por todas as desgraças que estavam acontecendo na sua vida. Eu e mais ninguém, nem elazinha.
Um motoboy que estava passando, ouviu os berros de Maria Eduarda e parou ao lado do nosso carro.
– Vocês estão bem? Precisam de aju…
Assim que viu minha irmã, ele ficou paralisado, nem piscar piscava.
– Você não quer me levar para casa? Não estou me sentindo bem, acabei de sair do cemitério.
O rapaz estava tão branco quanto a mamãe no caixão, achei que fosse desmaiar.
– Pena que você não tem outro capacete, ela fez um tratamento estético e deu um pouquinho errado.
– Ufa, achei que ela tinha sido enterrada viva. Tem jeito de arrumar o rosto dela? O bagulho tá feio.
Duas rosnadas da minha irmã foram suficientes para espantar o motoboy.
O motorista voltou nervoso, não tinha seguro, no outro carro só uma arranhadinha, ainda bem, só que perdeu um farol e estragou o para-choque. Quando olhou de novo no espelho e viu Maria Eduarda ele se acalmou.
– Meus problemas não são nada perto dos da senhora. Tenho uma prima que é esteticista, fez mais de dez cursos pela Internet. Quer que eu te leve lá mais tarde? Domingo ela sempre tá em casa.
Maria Eduarda concordou com a cabeça e mesmo assim continuou de bico. Não quis mais falar comigo. Quando chegamos na porta do seu prédio, o motorista deu um cartão para ela e pediu que passasse um Zap depois do almoço.
– Essa semana te ligo para a gente desmontar o apartamento da mamãe.
Ela nem se deu ao trabalho de responder e foi embora sem se despedir.
Passei o caminho até a minha casa quieta, pensando nas razões de minha irmã ser assim, o que foi que deu errado? Depois lembrei da mamãe e não precisei pensar em mais nada. Elas eram iguaizinhas.
– Por acaso sua prima usa fenol?
– Fenol? Já ouvi ela pronunciar esse nome.
