Sempre gostei de mulheres altas, muito altas. A primeira foi a de um puteiro. Cada amiguinho sentou-se num lugar do sofá e as meninas foram meio que escolhendo quem queriam e levando os guris punheteiros para os quartos. Ficamos nós dois, eu o gordinho e ela a girafona, cada um sobre seu lugar. Ela fez um muxoxo, bom já que estamos aqui, vamos logo resolver esse seu cabaço.
E ela era muito mais alta que eu, muito mais alta que minha mãe, mas me senti de volta a ser criança. Ela me puxando pelos corredores, os quartos estava quase todos de portas abertas, umas cortinas vermelhas e outras de miçangas. Por meio das frestas vi meus amigos com seus corpos desconjuntados de adolescentes, cada um com sua puta, uns rindo, outros tensos. De dentro de cada quarto, escutava músicas diferentes, velhas e cafonas, e uma se misturava a outra, tornando todas incompreensíveis. Enquanto caminhávamos ela disse seu nome, nome de guerra certamente, mas na época acreditei com toda fé: Clarisse.
Clarisse me levou ao último quarto e deixou a porta aberta. Ela me fez sentar na cama, um lençol velho, puído. Em cima de uma cômoda, havia um rádio e ela ligou em volume alto: Amado Batista se misturaria aos outros do lado de fora no corredor. O abajur tinha cor de carne, e o quarto ganhou ares de geladeira de açougue. Baixou minha bermuda do colégio e a cueca suada da Educação Física e jogou longe. Depois sentou num banco, pernas bem abertas para poder ficar perto e começou a me ordenhar com a mão. Eu estava mole, mas ela foi gentil:
-Não precisa ficar nervoso. Vai ser gostoso.
A moça não notou que eu estava fixo na porta aberta e na cortina entreaberta.
-Por que vocês não fecham a porta…?
Ela parou, sorriu um pouquinho e interrompeu a punheta.
-É quando alguma colega apanha do cliente. Ela grita e nós todas vamos lá dar um cacete no bosta. Mas vou lá fechar para você.
Gozei rápido na mão dela e daí ela me fez subir de novo com sua boca cheia de batom. Ela me chamava de bebê e montou sobre mim, depois apertou meu pescoço com suas mãos de unhas longas e me olhou como se tivesse raiva. Antes que eu sufocasse, saiu de cima, ficou em pé no quarto. Depois me puxou como se eu fosse um dos sacos de grãos lá do mercadinho de meu pai. Botou minhas pernas sobre seus ombros e me chupou. Eu podia tocar o teto do quarto, espalmei e me apoiei nele para não bater minha cabeça. Do alto eu podia ver que não havia muito o que ver. Uma mala, bolsa, revistas de artistas, um pôster de Jessé. Gozei encarando a lâmpada apagada.
Depois que saímos de lá, os outros caçoaram dizendo que tinham deixado o traveco comigo. Não era um travesti, era uma mulher muito grande, posso garantir; se fosse a história seria outra. A morena era uma égua, uma potranca, muito melhor que a de vocês. Mas estávamos muito felizes e todos comprometidos uns aos outros com nosso segredo e a piada não durou muito. Para minha sorte.
Eu até tentei manter esse padrão: não era difícil encontrar garotas maiores que eu. Devo ter dito em outro lugar que sou um homem baixo. Se não disse, explico: sou baixinho. Mas invariavelmente elas recusavam. Eu brincava dizendo que na horizontal não fazia diferença, mas elas se riam. Eu percebia que o problema não era eu, mas os outros e as outras. Como se precisassem demonstrar: sou protegida por esse sujeito, não é só um peguete, mas é meu guarda-costas.
Por isso vez ou outra se me sobrasse dinheiro eu voltava àquele primeiro puteiro, atrás de Clarisse. Mas só encontrei ela duas vezes depois daquela. Não conversávamos muito: perguntei se ela era do nordeste, mas nascera no interior do Paraná. Quis saber se gostava de break, funk e hip hop, se gostava de som de função. Ela franziu a testa e fez uma careta, gostava daquilo que tocava no rádio: Roberta Miranda, Nelson Ned e Almir Rogério. Talvez ela tenha simpatizado comigo, pois Clarisse me deu um conselho:
-Você é legal. Arruma fácil uma namorada. Não precisava ficar vindo só aqui. Depois você se acostuma e fica achando que todas tem que ser assim.
Eu bem que tentei, mas as garotas que me interessavam não se interessavam por mim. Um primo mais velho – e também um tanto pequeno – sugeriu que eu aprendesse a dançar, mulher gosta de quem dança, homem que dança sabe trepar. Mas eu era muito descoordenado, ia mal em todos os esportes; poderia montar e desmontar um rádio ou um controle remoto, mas era incapaz de acertar uma bola ao cesto.
Depois conheci a Eva. Foi numa matinê de domingo. Pegávamos o ônibus e depois nos acotovelávamos na entrada da danceteria. Lá dentro tudo escuro, luz negra e gelo seco. Estávamos em um grupo de meninos, elas estavam em um outro grupo. Em determinado ponto da conversa, notei que homens conversavam entre si e as mulheres entre elas, mas estávamos todos intercalados, um guri, uma guria, um e depois outra, e assim por diante, mas nós não falávamos entre os dois grupos. Quem visse de longe, pensaria que estávamos nos dando bem. Eva era uma delas, branquela e grande, meio roliça e flácida, o cabelo cor de ouro sujo. Tinha um ar ingênuo de professorinha ou de freira. Perguntei se ela gostava de Duran Duran ou de A-ha. Ela gostava de Nego Véio e Dr Silvana & Cia.
A íris dela era bem azul e parecia uma mira de rifle telescópico que nem filme de espionagem de tanto que chamava a atenção. Eu achei que ela não ia ligar para mim, era alta, grandona. Mas logo os outros começaram a se arranjar e a se pegar e eu percebi quase tarde demais que ela estava a fim de mim. Beijava esquisito, a língua indo e vindo, como se minha boca fosse um picolé. Eu a imprensava contra a parede da matinê, os outros começaram a rir, parecia um chihuahua acuando um dinamarquês.
Eva era legal, mas meio tonta. Da primeira vez, achei que ela tinha gosto de menta, pensei que era por conta de licor. Mas ela sempre estava com esse perfume de coisa doce, enjoativa. Eu a achava meio ridícula, mas continuava saindo com ela no cinema e no shopping. Fui eu que a ensinei a beijar direito. O filme lá na tela, nós nos entranhando, de repente parei e ordenei:
-Chupa essa língua direito.
Um dia eu a levei para casa com a desculpa de mostrar minha oficina, onde eu montava e desmontava aparelhos eletrônicos e rádios. Eu estava aprendendo a mexer em uma televisão velhíssima, o tubo do tamanho de uma caixa de sapatos. Eu a deixei nuzinha, só de meia e tênis e os agasalhos da escola dela servindo de tapete para gente se agarrar. A coisa dela era rosa danoninho. Balançava inteirinha a cada estocada, como se eu fosse a antena e ela o céu por onde correm as ondas sonoras. Depois a menina chorou e fiquei sem graça, perguntei se eu a tinha machucado, ela disse que não, mas nunca me explicou.
Eva morava muito longe, não ia dar certo. Continuou me visitando algumas vezes, mas nunca fui onde morava. Dois, três ônibus. Mas quando a gente se encontrava, a coisa esquentava. Comer Danoninho era nossa gíria secreta que eu sussurrava toda vez que queria amassá-la em algum lugar discreto. Eva deixava eu fazer tudo, ainda que às vezes chorasse, sem explicação.
Durante o tempo em que a gente saiu, me contou que só havia ficado com meninos menores. Eva não encontrava gente maior que ela, e quando encontrava, não era o perfil mais atraente. Com menos opções, deixavam de lado os preconceitos. Percebi que poderia ter uma chance por ali.
Duro mesmo era encontrá-las, naquela época não havia celulares ou aplicativos, eu acabava mirando locais onde elas seriam tanto prováveis quanto acessíveis. Estúdios fotográficos, partidas femininas de basquete, quartéis de polícia, quadras de escola de samba. Eu procurava um tipo certo: a Transamazônica, grande e mal acabada, alguém que pela descrição teria que ser bonita, mas por algum motivo a combinação das peças ficava em uma coisa meio torta.
Na época, a gurizada se amarrava na Chiclete com Banana, a revistinha do Bob Cuspe, cheio de podreiras. Podreiras para nós, adolescentes criados à leite de pêra. Eu seguiria me interessando por revistas e veria coisas muito mais pesadas e piores depois dali. Mas, para a época, aquilo já era bastante subversivo. No meio das histórias em quadrinhos pelas bancas de jornais, havias uma do Crumb. Hoje a gente sabe que era tudo pirateado. Meus pais nem imaginavam, para eles revistinhas eram revistinhas, então nem me preocupava em esconder – diferente das Ele Ela e Playboys entre o colchão e o estrado. Eu ficava tarado com aquelas mulheres do Crumb: fortes, volumosas e cabeludas, corpos massudos. Os desenhos me deixavam bem mais animados que as Egitos, Cotrofes e Xuxas da vida, meio delgadas e etéreas demais. As fotos delas até eram meio esfumaçadas. Eu queria carne. Eu queria encostar no teto.
Pagava esse gibis com meu trabalho informal de produtor de fitas-cassete. O povo sabia que eu tinha um monte de aparelhos de gravação em casa. Não era uma mesa de som, entendam. Eu só tinha vários gravadores e sabia editar as músicas de um jeito bem primitivo e burro. Funcionava porque eu tinha tempo de sobra e era persistente. Na época, todo mundo recorria a gravar canções das rádios FM e as emissoras embutiam vinhetas no meio: Rádio Cidade, 89 FM, Jovem Pan, etc. Ninguém queria estragar a música que demorava tanto para pescar com a fita cassete. Mas as vinhetas não eram sempre no mesmo trecho da música. Então eu conseguia gravando e regravando, parando no ponto exato, eliminar esses trechos. Era um trabalho do cão. No começo eu fazia pelo desafio. Depois pela amizade. No final, eu estava cobrando tamanha era a quantidade de pessoas que vinham falar comigo. Até uns coroas vinham me pedir para salvar uns Nelson Gonçalves e Germano Mathias.
Eu gravava fitas dos Inocentes, Echo, Titãs, Dead Kennedys, Ira!, Exploited, Furacão 2000, Queen, Marina, Ramones, Ratos do Porão, Cocteau Twins, ainda não havia começado o derrame de acid house e dance music. Hoje é só clicar e digitar. Ficou tão rápido que ninguém valoriza. O Legião já dizia, “Vendemos fácil o que não tinha preço”. Agora esse mundo acabou e quando vier o vazio, vão procurar o motivo nos lugares errados.
Mas enfim eu entrei nesse assunto para falar que foi por esse conhecimento de gravar e regravar e tal que conheci minhas duas esposas. A segunda eu ainda não posso falar, está no futuro. Mas a primeira foi a Leoni. Eu já estava na Engenharia, mas continuava conhecido por fazer essas coisas de arrumar fitas. Na época eu já estava envolvido com videocassetes, tentando consertar uns na raça. Estava menos envolvido com música. Minha mãe veio me avisar que tinha uma moça no portão querendo falar comigo.
De longe ela parecia uma estátua encostada no portão de casa. Era uma figura muito alta. O sábado estava nublado e um tanto frio, mas ela estava de óculos escuros. Usava uma jaqueta de couro surrado e uma camiseta vermelha da Moranguinho. Seu cabelo tinha cor de ferrugem e estava preso com lápis, em um coque meio gueixa. Seios pequenos e culotes grandes feito uma Vênus pré-histórica. Não usava batom, mas tinha um brinco metálico, parecendo aço. Não olhava para mim enquanto falava, o que lhe dava um ar meio arrogante. Me deixou um tanto irritado.
Ela queria que eu limpasse uma música das Mercenárias. Eu tinha ouvido falar, mas nunca havia escutado. Não era dos grupos mais populares. Expliquei que não fazia mais esse tipo de edição, o povo andava correndo atrás dos Compact Disc, eu achava o som estranho, mas juravam que era a perfeição.
Continuava com a cabeça muito empertigada, porém mudou para uma expressão triste. Só então entendi que ela era cega. Me disse que foi a irmã que gravou essa fita para ela. Perguntei por que ela não pedia para alguém comprar o vinil antigo, ainda devia haver na Galeria do Rock, a Galeria do Rock tem tudo. Se bobear até já tem CD. Mas Leoni queria a fita.
-Minha irmã morreu num acidente ano passado. O gravador mastigou a fita e tem umas falas dela aí no meio. Não queria perder. Tem a voz dela dizendo que a música se baseia num poema de um velho louco antigo e outras coisas.
Resolvi aceitar a tarefa. Hoje em dia seria muito mais fácil com os equipamentos que tenho. Na época foi o inferno. A parte das Mercenárias precisei resolver comprando o LP na Galeria, conforme havia dito, lá tinha de tudo. Mas a voz da irmã da Leoni eu não conseguiria do mesmo jeito. A tal música tinha uma letra diferente mesmo, tigres, deus, cavalos, pavões, mulher, todos em provérbios estranhos, que não saberia quando usar.
Precisei ouvir tantas vezes aquela apresentação da música pela irmã, que a teria decorado, não fosse uma sequência de ideias sem muito nexo, costuradas por palavras gongóricas. Não lembro de quase nada e o que lembro talvez não faça muito sentido.
somente depois de quase vinte minutos de falação semi improvisada sobre quem era o William Blake começava a música das Mercenárias. E na sequência, numa combinação de embrulhar o estômago para qualquer DJ, vinha Bom Conselho, do Chico Buarque.
Tive a impressão que a irmã se suicidou. Aquela mistura de poesia, dificuldade, punk, samba só poderia brotar em uma cabeça meio trágica, desequilibrada. Para que aquela falação toda? Onde chegariam? Deveria ser um bilhete de despedida. Pensei em Leoni, ouvindo aquela fita estranha seguidamente. Senti pena. Senti vontade de confortá-la. Fechei meus olhos e a imaginei a meu lado. Eu retiraria seus óculos como quem separa pétalas e talvez nós nos beijássemos.
-A Prudência é uma velha solteirona rica e feia, cortejada pela Impotência.
Gravei mais de uma fita para ela. Uma de becápe, por precaução. Eu quis entregá-la pessoalmente (Você pode ver como ficou) e ela aceitou. Combinamos num sábado à noite. Garoava um pouco. Um gato veio me receber. Era um siamês, daqueles antigos, mais gordinhos, cara preta e o corpo num branco sujo. Fiquei espantado quando a descobri sozinha. Ela me levou para a edícula, onde morava. Ela foi tateando o corredor com toques leves. Uns anéis em sua mão refletiam na penumbra. Parecia não estar acostumada ao ambiente, sua cabeça esbarrava nos varais sem roupas penduradas. Ou talvez o piso estivesse escorregadio. A casa na frente estava com as luzes apagadas, apenas uma televisão ligada para uma sala vazia.
-Meus tios moram na frente, mas tinham um casamento hoje. Deixaram a TV ligada para parecer que tinha gente. Medo de ladrão. Não gostam de deixar só.
-Você não quis ir?
-Não tinha muito o que ver. Quem que casa no inverno?
Apesar do frio da noite, não quis fechar a porta que ficou o tempo todo entreaberta para o quintal. Não havia sofás ou poltronas; uma cadeira estava cheia de bolsas e roupas dependuras. Precisamos no sentar na cama, uma pequena, de solteiro. O siamês ficou se esfregando, passeando entre nossas pernas, depois sumiu.
Seu quarto era pequeno e organizado, muito diferente da oficina onde eu trabalhava e estudada. Dito isso, era uma mistura incomum de objetos e decoração, até porque parte da decoração deve ser inútil para quem não enxerga. Havia um mapa anatômico de acupuntura em ideogramas chineses. Havia um tecido estampado com uma imagem em alto contraste da Siouxsie sem os Banshees, pendurado na parede feito um quadro. Afastado da cama, sobre uma mesa, uma prensa térmica de estamparia, fiquei imaginando se seria prudente deixar isso próximo dela. Ao lado da cabeceira de uma cama de solteiro, uma bengala branca e um porta-retratos. Havia um aparelho de som e alguns discos. E foi nele que ouvimos a fita da irmã falecida, que só então fiquei sabendo que era Úrsula.
-Desculpe a pergunta, mas do que ela…?
-Acidente de carro.
-Faz tempo?
-Terça passada fez um ano. Tem uma foto nossa no porta-retratos.
Elas eram bem mais jovens. Duas moças se abraçando. Úrsula era mais velha que imaginava ouvindo sua voz. Tinha o cabelo cortado reco e tingido de branco. Era bonita. Leoni também estava mais bonita. O fundo da foto estava escura, parecia um bar ou um show noturno.
-Café Piu Piu.
Não havia sofá, então nós dois nos sentamos em sua cama. Usamos a parede como recosto. Ela tateou a cabeceira até achar o cinzeiro e o maço de Plaza. Na claridade, pude ver que havia um anel grosso e metálico para cada dedo de suas mãos. Leoni estava com os mesmos óculos escuros de quando nos conhecemos, mas agora de moletom, calça e agasalho da mesma cor cinzenta. Estava de chinelos. Achei curioso que as unhas do pé estavam pintadas numa cor escura. Ela usava uma camiseta estampada com uma figura da Mulher Maravilha. Hoje reconheço o traço, José Maria Garcia Lopez, um uruguaio que fez muito sucesso nos quadrinhos e o desenho dele foi usado em todo tipo de produto, de lancheiras a capas de caderno. Enfim era uma combinação nada atraente, exceto pelo fato dela estar ali imensa, nós dois sozinhos na casa e o frio lá fora. No aparelho de som, Úrsula seguia no seu discurso entusiasta de Blake “Nada é pecado exceto aquilo que é pensado como sendo pecado” e Leoni me perguntou:
-Você gosta de poesia?
-Não. Já estou na faculdade.
Leoni riu, Úrsula não se dava bem com nada prático, tudo que poderia ser explicado em duas linhas não era para ela. Ela estava muito segura comigo ali e eu fiquei sem saber como sinalizar o que eu queria para uma cega. Para uma outra garota, eu só olharia para ela e se ela me olhasse de volta, eu me aproximaria.
Tive a impressão que ela iria chorar enquanto Úrsula concluía seu discurso. Quando o baixo da banda finalmente deu seu acorde inicial, decidi colocar minha mão sobre a dela, como quem conforta parente de defunto em velório. Leoni continuou quieta. Me aproximei e tentei fazer com que encostasse sua cabeça no meu ombro, uma operação complicada diante de nossas diferentes estaturas.
Eu não sei o que ela entendeu, mas com a outra mão apertou meu pescoço. Eu me desequilibrei, meu corpo caiu para trás. A fita continuou na sequência de provérbios, mais declamado que cantado. Fui parar no chão de piso frio, fazer companhia para um tapete de fuxico. Ela se jogou contra mim e começou a me bater, mão fechada, os anéis contra meu rosto. O cabelo dela se soltou do coque e o rosto dela ficou rodeado de uma juba caótica. Tentei gritar, o que você está fazendo, mas ela se apoiou no meu pescoço com o antebraço e passou a esmagar minha orelha como quem destrói uma flor na palma da mão. Olhei para o lado e vi o gato do lado de fora da porta. Estávamos da mesma altura, eu sendo esganado, ele fazendo coisas de felino no quintal molhado. Piscou algumas vezes e voltou com sua cara preta para a noite.
Quando finalmente ergui meus braços para proteger meu rosto, ela se voltou para minha virilha. Eu estava de jeans, mas ela conseguiu achar um espaço no tecido. Achou meu saco com sua mão de cega e o apertou. Eu desisti de salvar minha cabeça e ela pôde morder meu nariz. Os óculos escuros dela caíram e eu pude ver com clareza a ausência de olhos sob as pálpebras, a carne entre os cílios.
-Seu filho da puta.
Conseguiu me virar com a posse que estava de meu saco. Minha camiseta subiu durante a luta e meu abdômen encontrou o frio do porcelanato do chão. Ela continuava me estrangulando com seu peso e montada em mim, sentia o calor da sua buceta através do pijama. Ela abaixou minha calça e enfiou um ou dois dedos em mim, mais por raiva do que por tesão. De costas, consegui arquear me corpo e a jogar para trás no chão. Me afastei engatinhando, e estava emputecido. Agora a música já era a do show do Chico, o público batia palmas.
-Sua louca.
Fiquei em pé e ela ficou no chão, recolocando seus óculos. Seu moletom havia saído do lugar e pude ver seus pentelhos e uma antiga cicatriz percorrendo de alto a baixo seu tronco. Endireitei minhas calças e saí, contendo o sangue das narinas com as costas de minha mão. No caminho pisei e esparramei a areia mijada do gato. O portão estava trancado, onde estava a chave? Cambaleei para o quartinho no fundo, ela me ouviu chegar e tentou me acertar com a bengala, que passou zunindo pela minha cabeça. Eu peguei o molho de chaves do chão onde havia caído durante nossa refrega.
-Vou jogar de volta pela fresta.
Cumpri o prometido e fui para o meu carro. Depois dei partida e saí procurando por uma farmácia. Durante o percurso, conferi meu próprio rosto no retrovisor, marcado, arranhado, inchado. Queria matar aquela vaca. Precisei esperar no estacionamento da farmácia por uns bons minutos antes de sair para comprar compressas e gazes. Eu estava de pau duro.
Depois de seis meses, Leoni me ligou. Não falamos sobre o acontecido, ela usou a desculpa que precisava me pagar a recuperação das fitas cassete de Úrsula. O que é certo é certo, ela insistiu. Poderia ter passado o número de minha conta, mas voltei até sua casa – de dia dessa vez – seus tios estavam lá. Eram uns coroas boa praça, acho que mais simpáticos que meus próprios pais. A conversa fluiu até a noite, quando dividimos uma pizza. Começamos a namorar umas semanas depois e nos casamos no civil assim que me formei. Ficamos com o siamês.
-No tempo da semeadura, aprende; na colheita, ensina; no inverno, desfruta.
