Tô dizendo nada

Nem vou falar do primeiro pedaço do bolo

– Por mim não tem problema não.

Era Gabi sem nem entender o porquê da pergunta. Por Serginho, tem problema sim senhor. Antes de entrar na fila, enfrentou quase 5 minutos de negociação – em tempo de criança dá pra mais de uma hora. Isso porque revisaram um combinado feito. A coisa tava organizada desde ontem. Diego com Jorge, Manuca com Tom e Cacá com Serginho. Só faltou pensar que se sobrasse alguém na fila antes deles, as duplas desmanchavam. Acabou que Diego foi com um desconhecido de outro aniversário, Jorge foi com Manuca, Tom com Cacá e quando Serginho se deu conta, Gabi já tinha entrado no carrinho. Sentou mais do que depressa no lado do motorista. 

– Tanto faz – ele responde engolindo o choro. 

Gabi com o cabelo sem fim, sorri jujubas e brigadeiros. A saia de tule que escolheu usar pra festa de 8 anos de Serginho ocupa mais da metade do banco. Ele toma aquilo por uma injustiça de morte. É o aniversariante, não pode escolher o modelo do veículo – ele pensava que era como carrossel, ia ter caminhão, moto, fusca, vagão de trem -, nem a música que tocava de fundo, nem o co-piloto, e ainda vai passar a primeira rodada do bate-bate se espetando em saia de menina num carrinho lilás. A mãozinha esquerda de dedo curto de Gabi, apoiada no volante, empilha um anel solitário de plástico e a segurança do mundo todo. É de botar pra correr qualquer motorista de táxi experiente. A direita, no automático, abraça o ombro de Serginho.

– Segura o teu, Serginho – ela diz sem se dar conta do coração disparado do dono da festa. 

Ele meio que não entendendo que ela se refere ao segundo volante, repete o movimento do braço da menina. O lado do carona do carrinho bate-bate da Kidzania do Eldorado também tem volante que é feito a cabeça de Serginho na hora que a mão dele encosta o macio do cabelo que cobre o ombro de Gabi, gira, mas gira em falso. Soou o apito de início do passeio e, para o espanto do próprio Serginho, de Diego, Jorge, Manuca, Tom, Cacá e até do desconhecido do outro aniversário, passaram os próximos 5 minutos, correndo, batendo, buzinando e dando risada sem se soltar – em tempo de criança dá pra mais de uma vida.

Nem vou falar do choque séptico

Foi no rostinho de preocupação de Mário que Fernanda começou a lembrar dos últimos minutos. Ela achou que ia dar. Vai dar, claro que vai dar, ele não tá doido. Atravessava a Angélica na altura da Maranhão, tava quase de noite, a rua meio vazia, o sinal vermelho pra pedestres, ela tentando mudar de lado de calçada pra se livrar do moço sem camisa e com um cobertor pendurado no ombro que avistou na quadra de cima. O moço vinha gritando, disparado, como quem foge. Ela já conhece a figura do bairro, mesmo assim ainda tem medo, toda vez troca de calçada. Viu o Palio velho descendo a avenida O motorista também viu que ela tinha visto. Pensou igualzinho, vai dar, claro que vai dar, ela não tá doida. Não deu.

Bateram, o Palio, Fernanda e até o moço sem camisa com um cobertor no ombro, que ninguém sabe por quê se jogou no bololô do atropelamento. Alguém chamou o Samu. Todo mundo foi pro hospital, cada um em um hospital, cada um em uma ambulância. Fernanda quebrou uma perna e dois braços, tudo fratura exposta, o moço sem camisa deslocou o ombro e o motorista do Palio teve um ataque de pânico. 

O rostinho de preocupação de Mário dividia o elevador com Fernanda, a maca e o suporte do soro. Faltavam 10 minutos para o fim do expediente – em tempo de plantão de UTI dá pra mais de duas horas. Ela abre o olho. Confirma se tinha mesmo sido atropelada. Foi. E o cobertor do moço? Alguém guardou? Mario diz que sim sem saber de que cobertor e de que moço. Ela pergunta se tá sozinha. Ele diz que não. Eu tô contigo. Eu, os outros enfermeiros e um monte de médico, logo chega tua família. Ela chora pra lá de 15 ml de lágrima. Pode ser que essa seja a primeira vez que não se sente sozinha. Eu vou morrer? Vai não, tu só quebrou a perna e os braços. Vai operar, 24 horas de UTI e uns dias de recuperação no hospital. Já já tu volta pra casa. Faltam quantos andares? Mais dois e a gente chega no centro cirúrgico. O corredor é comprido? Bem comprido. Tu me empurra fazendo barulho de carrinho? Pode deixar. Com emoção ou sem emoção? Com. Vento no cabelo, tá? Mario não espera nem a porta do elevador abrir pra começar a buzinar. Vrum, vrum, bibi bibi. Fernanda ri sangue pisado e falta de dente. Tenta se segurar na maca. O braço não responde. Corre, motorista, corre. Ele acelera um pouquinho. Sopra pra ventar o cabelo. Estaciona na porta do centro cirúrgico imitando baliza. Tu vem me visitar depois da cirurgia? Venho. Dirijo tua maca da UTI pro quarto amanhã. Corrida registrada, senhora. Eram só 24 horas de folga – em tempo de plantão de UTI dá pra mais de uma vida.

Nem vou falar do único ganhador dos R$148 milhões da Quina de São João

Carol bateu a porta do carro com toda a delicadeza do mundo. Eram ela e Verônica, Golden que herdou da mãe depois do AVC. Sempre teve orgulho das 5 estrelas do Uber, desde o dia que começou a usar o aplicativo, fechou 10 no histórico escolar do prezinho até o terceiro do médio, foi laureada da turma na faculdade de economia, e passou no concurso do Ministério Público na primeira tentativa, até selo de Superhost no Airbnb do apartamento da mãe morta ganhou de cara. Agora, desde que Verônica começou a fazer escolinha de adestramento toda terça e quinta – era em Perdizes, Carol morava no bairro, mas tem joelho ruim – a nota caiu despencada a cada corrida. Motorista de Uber tem horror a cachorro. Tava em duas estrelas, e só foram 3 semanas de aula. 

Deu até uma rezadinha pra esse não avaliar mal, ele tinha puxado conversa, ela lamentou a mãe, disse que nunca gostou de cachorro, mas ia fazer o que?, cantaram juntos Cheia de Manias. Ela riu tosse de ar-condicionado sujo e bala de canela quando a rádio mandou um remix no didididididiê. Ele achou bonitinho. Tava até disposto a largar umas 4 estrelinhas, só que Verônica deu de se balançar inteira antes de sair, como quem se seca de um banho imaginário. Voou pelo em tudo que foi canto, até no nariz, território da rinite crônica do motorista. Ele marcou uma estrela e nem responder ao boa noite, obrigada de Carol respondeu. Foi na balançada de Verônica que a pulga caiu. Ficou no tapetinho do banco de trás, atrás do banco do passageiro. O motorista ia xingar, mas o aplicativo tocou e ele se distraiu na operação, chamaram na quadra da frente. Quando viu que o número era de um petshop, já foi escrevendo recado pro passageiro cancelar a corrida. Ele, também em escassez de estrelas, perderia a licença de uso do aplicativo por uma semana se cancelasse mais essa. O casamento se aproximava e Leona queria lua de mel, Porto de Galinhas no mínimo. Ele tinha 5 dias pra fazer o dinheiro do fotógrafo, do bolo, das passagens e da pousada – em tempo de tarifa promocional, tinha que ser pelo menos três meses. 

–  Amigo, se tiver cachorro, cancele, por favor. Minha rinite tá atacada. 

– Tô com cachorro não, amigo, sou veterinário. 

– Ah, tranquilo. Chegando do lado esquerdo da rua. 

Vinha com duas pulgas no cachecol. Foi um abraço que deu na última paciente do dia. Elas também pularam no tapete. Com pulga a coisa é rápida, sabe? Oi. Oi. Tudo bem? Tudo bem? Não precisa nem perguntar se tem local. Pulex irritans as três. Os primeiros ovinhos eclodiram em 12 dias. Depois de 20, eram 40 pupas perfeitas, no fim do mês, todo mundo emergiu do casulo – o carro infestado estacionado na garagem do motorista. E essa era só a galera do primeiro acasalamento, se fosse pra pontuar com estrela, não ia ter constelação que desse conta da fertilidade do trio. O macho que morou em Verônica vinha com fome da Fitcão e não demorou muito pra convidar as duas fêmeas a pularem no calcanhar do motorista. Se deleitaram. Coçou na hora. Foi deixar o veterinário em casa e parar na farmácia. O Fenergan tava R$17,50. Ele com uma nota de R$20 e o cartão bloqueado que ontem pagou os salgadinhos. A mulher da farmácia foi logo falando que não tinha troco. Parou na lotérica do lado, tentou jogar na mega, mas a mega já tá custando R$5. Perguntou se tinha algum jogo de R$2,50 e fez uma surpresinha da quina. Segurou a onda da coceira até a meia noite. Pegou criança preguenta de festa, enfermeiro contaminado de hospital, levou um motorista panicado na delegacia. Trabalhou 14 horas hoje. Mais 2 minutos de fila pra investir o último dinheiro da carteira  – em tempo de tarifa promocional dá pra mais de uma vida. 

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