Carne e unha, alma gêmea, bate coração.

— De Lisboa para Toledo? De carro? Perfeitamente possível. O valor é tanto. Não seria mais cômodo viajar de avião?

— Não. 

— Tenho um motorista bacana que no dia a dia faz uber black. Vou checar a disponibilidade e aviso.

— Vamos nesse.

— Quando? 

— Amigo, agora. Anota o endereço. Tu não estás a entender meu disparate. 

O motivo da viagem não vem ao caso. Quem me conhece não estranha essas urgências bizarras. Fumo uma ponta com a mala na porta, tamanha ansiedade.

recebo a mensagem >> viagem confirmada. carro tal>>placa tal
motorista>> Clemente Nunes. 

Clemente? Será? 

Prólogo desta cena dramática: meu marido e meus filhos viajaram para os Estados Unidos anteontem. Mês todo, clube do bolinha. Sedenta, na primeira noite avulsa agilizo uma festa, descolo uns baseados, jesus, há anos não fumo, me monto para um revival da época jovem e logo desmonto com a notícia: meu fígado já não tolera tequila, menos ainda minha presença é arrasadora. Fuen. Cinco da manhã a verdade dói. Envelheci. Bêbada, desiludida, descabelada, sem carona para volta, me encaro no espelho do bar, a maquiagem da Margot Tenenbaum derretida me transforma em um clone vencido da Courtney Love. Dignidade passa longe.

Chamo um uber. Nenhum à vista. Dou um tempo, solicito outro, que cancela, e uma dízima periódica de cancelamentos depois opto pelo Black, o triplo do valor, hein, aprenda Sheila, vacilar não é preciso, dinheiro custa caro. O automóvel chega, checo a placa, esse mesmo, o motorista desce e abre a porta, nem precisava, bonitinho, ele, eu, a Cinderela moderna, se enxerga mulher, vai levar um belo coice, que nada, aqui o trotar da carruagem é o câmbio automático, um sonho, asfalto bom, na curva tudo gira, música clássica, pode trocar a estação do rádio, se não for muito pedir, qual o nome do senhor, mesmo? Desmaio no banco de trás, a única passageira no Mercedão de 7 lugares. 

Hoje. Clemente. Verifico no histórico. O motorista super duper mega blaster que me salvou anteontem também é Clemente. Coincidência ou sina? Na parte da cabeça onde as pessoas guardam a memória eu carrego uma massa oca pouco nítida, que se esvai a cada tropeçada dada. Duas noites atrás, por conta da bebedeira, mal lembro de entrar no uber, quem dirá de abrir a porta de casa, lá vou eu lembrar da cara do sujeito? No puzzle da ressaca eu jogo com 4 peças conflitantes entre si:

1) embora vestida, acordei enrolada em um cobertor desconhecido. E perfumado. 

2) a última música registrada no meu Spotify foi aquela da metade da laranja, 

3) meus sapatos de salto estavam de pé, alinhados, bonitinhos,

 4) sério que eu dei uma gorjeta tão polpuda? 

O motorista que me levará a Toledo chega. Clemente Nunes. O mesmo nome. O mesmo carro. Ele mesmo. Caceta. Melhor fumar mais um. 

— Sra. Sheila Ferreira?

— Olá, boa tarde, eu nunca te vi na vida. 

Erva boa, essa, chapa mesmo. O destreino com as drogas tem sua serventia. Meus dedos moles não acertam nem o encaixe nem a fivela do cinto de segurança errado, que trava, carro cheio de nhen nhen nhen, Mercedes Classe E. E de Educadíssimo, o Clemente. Meio corpo em cima de mim e fez lindamente as honras do cléc da patilha do cinto, sua destreza nem me rela, eu, danada, já vampirando o pescoço moreno, pele esturricada, ascendência árabe, de certeza. Um estranho. Constrangido. Claro, meu passado de excessos me condena. Sheila, pare. Pega leve. O cara é pontual, profissional. No ganha-pão. Mas não tem aliança.
Pode não usar. Eu não uso. Cauteloso nas ações e afirmações, Clemente frustra com monossílabos sensatos as tentativas de conversa. Haja silêncio para 5 horas de autoestrada. 

Uma hora rodando, desaba um temporal nas planícies do Alentejo. 

— Que chuva, não?

Meu comentário é besta, e besta é melhor que nada. Enfio a cara intrometida entre os dois bancos da frente e vejo um livro no assento do carona. Pego sem pedir. A Letra Encarnada. Hum. 

— Gostas? 

— Estou a ler pela curiosidade da tradução ser do Fernando Pessoa… 

(opa)

…e por ser um homem a escrever sob a voz de uma mulher…

(hum)

…adúltera!

— OI? 

— Uma mulher ADÚÚLTRA.

Que isso, usar a palavra adúltera, em 2024, é de foder. Será o motorista pacato um religioso, um fanático maligno, um extrema-direita fascista machista neonazi eleitor do André Ventura? Me ocorre que, apesar de ser cliente, e bem pagante, teoricamente uma senhora mãe de família, eu sou brasileira. Nós nunca conhecemos as pessoas. Se estivesse na cidade descia do carro, mas na estrada, chovendo, meto os fones e afundo desgostosa no banco de trás. 

2h30 horas de viagem. Muda o país, muda a estrada, muda o céu, só não muda o meu frenesi em sacar qual é a do Clemente.

— E essa vida de uber?

— Gosto de pessoas. 

Gostar de pessoas não é profissão. É desculpa para os que são apanhados à porta das casas de swing. Estou aqui porque gosto de pessoas. Mais silêncio.

Clemente menciona fazer uma parada. Fora do carro, estica as pernas, os braços, fuma um cigarro, afastado. Eu desço e acendo um bec, sem disfarçar. Ele continua com uma cara de nada.

— Quer? provoco.

Eu leio um balãozinho de HQ acima da cabeça dele: adúltera.

— Na boa, pega aí.

Eu sei que ele não quer, ou não pode, melhor, não deve, eu estou errada, minha posição é abusiva. Erro feio nos feelings, mas há algo no ar. Como sei? Não sei.

— Eu posso perder a condução de uber se fumar ganza em serviço. 

— Eu posso perder meu casamento se meu marido souber o que só você sabe. 

Estico a mão e a dele completa o percurso e pega o cigarrinho de artista. Sabia! Com a voz apertada que segura a fumaça no peito, ele entrega:

— Foi tranquilo. A senhora não lembra? 

— Então.

— Fazia frio, a senhora quase pelada, eu a enrolei no cobertor que uso para dormir entre uma corrida e outra. Peguei a chave da porta da entrada (na bolsa?), a levei ao quarto de casal (no colo?). E fui embora.

No discreto charme da vacilada uma nesga da minha nebulosa lembrança volta. Claro que dei vexame. Corri risco, inclusive. Santo Clemente. Um anjo, ele.

— Só isso?

— Uma coisa deixou-me intrigado, a senhora insistia em me tratar por um outro nome.

Aí carajo.

– Dizia que eu era um tal de Antônio Alves, taxista?

– Taxista?

Algo poderoso aditivou minha bebida naquela noite. Acessar a gaveta vergonhosa, desenterrar a novela tosca do SBT, exibida há mais de 30 anos, da qual eu não perdi um único capítulo, na época, não por me sobrar tempo, ou faltar opção, mas porque fui, e sou, e serei sempre, uma pessoa brega. Não parece, mas disfarço bem.

— Na viagem e eu te conto. 

De estranhos passamos a amigos, com risadinhas cúmplices, bobeira pura, Clemente acha graça no cantor dublê de galã quiçá ator Fábio Júnior. Para ser Júnior deve haver o Fábio Pai, ele indaga, retruco que uma canção famosa se chama Pai, mas não gosto, acho triste, prefiro as românticas, meio bregas, as chamadas música pimba. Ele ri. Risada boa. Alta. Pronto, ultrapassamos não só a fronteira Portugal Espanha como a muralha que nos gelava. Conecto o Bluetooth do carro, This is Fabio Junior, todas as faixas essenciais em uma única playlist.

Carne e uuuuunha, aaaalma gêêêmea, baaaaate coração, aaas metaaades, da laraaanja, doooooooooois amantes dooooooois irmãoos.

— Desta vez a senhora não vai cantar?

Quero morrer. 

— Naquela noite eu cantei?

— Desafinadamente.

A viagem avacalha de vez. Cada música desenterra um causo, uma lembrança, até confidências. Troca rara, conforto de estranhos.

Demorei muito para te encontrar, agora eu quero só você…

— Amo música mela cueca, eu disse. Não podia perder a piada.

— Aqui se chama música de ir ao cu.

— Ao cu? 

— Ao cu.

Eu corro para te acordar e me entregar, sem peso e sem medida…

A música acaba e o ao cu ecoa. 

Observo. Bonito, bonito, não é. Meio jovem, meio calvo, desajeitado. Queixo prognata. Mas há nele alguma desordem que me encanta, uma sombra triste, uma delicadeza subterrânea.  

Quando um homem e uma mulher se tocam num olhar não há força que os separe…

Debaixo do nosso mela cueca há um cu de silêncio. 

Tem horas que bate uma tristeza tão grande que eu não sei o que fazer e nem para onde ir….

Clemente se emociona. Não se envergonha do princípio de choro, tampouco pede desculpas. Acho bonito, e para guardar essa imagem aperto o stop do repertorio duvidoso. 

As nuvens de algodão que sobrevoavam o Alentejo se transforaram em uma nódoa cinzenta. Chuva à vista. A mata seca é agora uma paisagem borrada pela água que chicoteia a janela. Tiro uma foto e fica uma merda. O interior do carro está frio. Uso uma manta para me cobrir (tão perfumada quanto a que usei na outra noite, e já digo que não vou devolver). Finjo que durmo. À vontade, Clemente ouve Frank Zappa. Don’t Eat the Yellow Snow, e apsicodelia nos mantêm no sonho. Mejor no hablar más nada. Bienvenidos a Toledo. Cidade de pantone medieval-terroso-mais-50-tons-de-oliva-e-uma-pitada-de-azul-balsâmico.

E então? Mal pergunto e me arrependo. Lembro que não vim a passeio, e que uma bela encrenca me espera. Não haverá o então.

Ele volta a ser o motorista de antes. O sério. 

-— Tenha uma boa estada.

— Boa viagem de volta. 

Clemente entra no carro. O vidro escuro do carona abre, automático, revelando a intenção dele em dizer algo que não deve. Rápida, entro no carro, beijo sua bochecha, e saio, rindo alto:

Brigadú!

(Glaucia Faria)

Deixe um comentário