Era para estraçalhar a rosa que eu amanhecia na casa da minha infância. O quarto dava para o jardim lateral e a roseira era alvo da minha gula. Devia dizer ira, mas quando digo gula, estou no presente, ou talvez no futuro. Voltarei para a cena do estraçalhamento das rosas, mas agora preciso de concentração plena, porque escrever é a melhor maneira de me vingar. Então é isso que farei. Vingança. Quando digo vingança, já estou no futuro, então vou tentar me acalmar e procurar um fio narrativo mais bradpsíquico, um ritmo límpido e claro para não me perder nessa história de gula, raiva e vingança.
Às pressas para entrar no link da oficina de escrita, dou os comandos para os filhos adolescentes: estou entrando na aula, vejam a lição de casa, tomem banho, escovem os dentes… essas coisas que as mães de adolescentes falam o tempo todo, mas dessa vez sou surpreendida pela pergunta: Mas mãe, por que você está fazendo esse curso?
Por que estou fazendo uma oficina de escrita se tenho duas profissões bem demarcadas, sou médica e psicanalista? Eu também não sabia a resposta naquela altura, tampouco imaginava que era justamente isso que iria descobrir ao término daquela aula.
Eu passei a vida toda para chegar até aqui, para dar de cara com essa proposta: escreva com a força do ódio. Da ofensa vem a raiva, que se transforma em ressentimento, rancor e… vingança.
É isso! Chegou a hora de escrever essa história. Vingança é um prato que se come frio, e lá se vão quarenta e poucos anos desde que eu fora injustamente acusada de assassina das flores do jardim e não pude me defender à altura.
Eu amava as rosas vermelhas, não me contentava em observá-las, queria senti-las nas mãos, afundar meu nariz naquele perfume perturbador, no aveludado das pétalas. Não era uma criança fictícia, bem-assentada. Era feita de matéria bruta, apaixonada, perdidamente apaixonada pelas rosas, e amá-las consistia em tocá-las, acariciá-las, descer com os dedos até onde o caule encontra o primeiro espinho.
Estar viva era poder amar as rosas, e para amá-las era preciso mais do que arrancá-las, eu tinha que devorá-las. Preguiçosa, reduzia o esforço dos dentes, das enzimas salivares, do masseter, triturando as pétalas com as mãos. Claro que eu não as comia, porque logo era surpreendida e retalhada.
Essa história é sobre o que retorna, como no intestino dos platelmintos, a raiva entra e sai pelo mesmo orifício, o desejo de devorar as rosas deu na necessidade de estraçalhar um homem.
É sobre um homem em especial que quero escrever. Ou melhor sobre o ódio que eu sinto por esse homem. Quero me vingar de tudo que não foi digerido, contando o caso de um desamor, devolvendo cada pétala ao seu devido lugar.
Esse homem é o meu ex-marido. Nelsinho. Ah, Nelsinho você não percebeu que sangrávamos. Puxa vida, mas assim essa novela ganha um tom de carta ao ex-amor e isso é muito patético. Vamos ao que interessa, narrar o ódio.
Vou começar por mim, sem culpar ninguém, porque culpar Nelsinho pelas flores seria injusto. Tenho raiva, mas evito injustiças.
Estava certa de que colocar fim a um longo casamento era a única maneira de enganar a morte.
Nos primeiros anos, essa mulher nos visitava em dias aleatórios, nos quais, com alguma atenção, se escutava o farfalhar do manto preto arrastado pela casa e o som metálico do ceifador esbarrando na estante da sala. Com o passar dos dias, as visitas tornaram-se regulares. Sentada no meu colo, ela sussurrava seu hálito cetônico. O bafo da morte é como uma rajada de vento polar nas costas, você petrifica, indolente.
Era preciso reagir, levantar-se daquela poltrona, jogar a morte para longe e encontrar na vida um lugar tangível onde meus desejos pudessem ser encenados.
Eu queria conversar, conhecer gente, sair pelo mundo, sobretudo não temer a rosa, voltar a me apaixonar pelo perfume e mergulhar meus dedos em suas pétalas aveludadas. Tagarelar… eu queria romper o pacto de silêncio com a morte.
Não sei onde Nelsinho se enfiava que não sentia o hálito de enxofre. Eu o odeio por isso, desatento, não se deu conta do perigo que rondava e não expulsou a morte de sua vida, foi levado por ela, inebriado nos braços desta ardilosa senhora.
A presença de outro homem durante a travessia, uma voz estrangeira de sotaque acolhedor, uma mão que pudesse alcançar a minha e segurar meu corpo foi tão fundamental para mim quanto enlouquecedora para Nelsinho.
Agora eu era a causadora da ofensa e o ódio veio cheio.
Duelo. Tiro, bomba, fogo cruzado. Mesquinharia, humilhação. Quem paga o que, quantos centavos para lá, quantos reais para cá.
Nelsinho impediu minha passagem para o grupo dos ex-casais que se transformam em bons amigos. Eu sonhava com isso, em poder dizer, sim, nos separamos, e nos damos bem. Meu companheiro, minha companheira, nossos filhos e enteados, todos juntos destroçando as rosas, os bárbaros no jardim.
Essa frustração me deixa louca, tenho um ódio visceral por ter ficado no banco dos réus, no lugar das almas penadas, recebendo as bombas.
Vingança é um prato que se come frio, vamos a ela. Já se passaram alguns anos de nossa separação e Nelsinho vai se casar. Ele e a noiva moram numa casa charmosa, com um jardim lateral, onde se assentam belas roseiras.
Era para estraçalhar a rosa que eu amanheci na casa do Nelsinho no dia do seu casamento. Com a foice da morte em mãos, ceifei ramo por ramo, caule por caule, rosa por rosa. Fiz um belo buque com as flores do jardim, comi tudinho, pétala por pétala.

Imagem: capa do livro, um bárbaro no jardim, de Zbigniew Herbert.
