Raiva de mãe dá e passa – Yan

Walmíria quase não sente raiva. Nesta segunda-feira, no cemitério de Inhaúma, ocorreu uma das poucas exceções. Não sentiu raiva da Rio Pax cobrando um valor absurdo para reservar a capela, nem do velório forçado numa pedra pública no meio do cemitério, nem da papelada que dificultou a liberação do corpo e nem mesmo do cartaz na entrada, que dizia: “Rio Pax: com você nos momentos mais difíceis”. Tampouco sentiu raiva do marido e da filha, que a seguraram o tempo todo, mesmo ela gritando, pedindo, implorando:

“Deixa eu abrir só um pouquinho. Deixa eu tocar no rostinho dele”.

Walmíria não sentiu raiva dos meninos de cabelo platinado vestindo camisetas com a foto de um menino de cabelo platinado empinando uma moto. Seu menino. Sempre preferiu seu menino longe da platina e longe da moto, longe daqueles meninos de cabelo platinado e de suas motos. Mas a foto era bonita, nela seu menino estava sorrindo. Talvez até a moto estivesse sorrindo. No cemitério, os outros meninos, com capacete numa mão e a outra nos olhos, abaixavam suas cabeças platinadas. Como sentir raiva de meninos assim, meninos, no começo e no fim das contas? Um deles, o com mais cara de mau, abriu o berreiro quando a ouviu berrar:

“Só um pouquinho, por favor. Deixa eu abrir só um pouquinho”.

Walmíria não sentiu raiva do menino bom com cara de mau, o amigo de seu menino, que por um segundo berrou mais alto que ela. Nem da irmã da igreja chamada às pressas porque o pastor se recusou a ir. A mulher repetiu muitas vezes que o menino estava num lugar muito melhor que todos ali, que estava com Jesus. Deu o seu sermão enquanto mexia no celular e, como se esquecia do nome que tinha de falar, punha a mão no caixão e dizia apenas “cordeirinho”. Como se tudo isso não bastasse, a irmã ainda cantou num desafino de quebrar todos os vasos do Senhor:

Estou clamando
Estou pedindo
Só Deus sabe a dor
Que estou sentindo
Meu coração está ferido
Mas o meu clamor está subindo

Walmíria não sentiu raiva do marido e da filha, que não a deixaram enterrar o rosto no caixão, quebrar o vidro com a própria testa e beijar a testa do filho. Nem sentiu raiva do ex-patrão, que apareceu com seus dois filhos, que eram mais velhos que seu menino, dirigiam carros e estavam vivos. Os dois disseram “meus sentimentos, Mimi” e abraçaram a ex-babá, que os molhou de catarro e lágrima, muito catarro e muita lágrima, mas menos do que eles já a molharam um dia. Neste dia, nesta segunda-feira, Walmíria abraçou a nora e chorou com ela sem raiva, mesmo depois da proibição de ver seu netinho no dia anterior, o menino de seu menino, para não assustar a criança. E até o ex-patrão e suas ex-crianças se assustaram quando a ouviram insistir sobre o caixão:

“Por favor, maninha, abre só um pouquinho. Desde sexta-feira que eu não toco no meu menino”.

Nesta segunda-feira, no cemitério de Inhaúma, ocorreu uma das poucas exceções: Walmíria sentiu raiva. No sábado, quando algum anônimo ligou para dizer que o filho tinha morrido fazendo entrega num morro de facção oposta ao de sua casa, não sentiu raiva do patrão de seu menino que nunca morou em morro. Nem das facções, das drogas, do governador, do policial que insinuou dez vezes que seu menino era bandido. Não sentiu raiva da polícia demorando um dia pra achar o corpo, dos traficantes que mataram seu menino e desmontaram o sorriso da moto, do IML que demorou mais um dia para liberar o corpo.  Nesta segunda-feira, Walmíria sequer sentiu raiva do grupo de pessoas que passou pela pedra pública do cemitério vestido de branco, estourando rojões e cantando:

Quando eu morrer
Não quero choro nem vela
Quero uma fita amarela
Gravada com o nome dela

Walmíria não sentiu raiva do marido, que deixou os meninos de cabelo platinado entrarem com as motos e fazerem “um barulho pra ele”. Achou até bonito. As motos rangendo seu randandandan doído, abrindo caminho para o caixão passar, os canos de descarga pipocando feito salva de tiro de canhão. Não sentiu raiva de um desconhecido que passou dizendo que ela fazia mais barulho que as motos. Não sentiu raiva, mesmo depois de gritar, pedir, implorar mil vezes para abrir o caixão. Ela não sabia que o marido não deixava porque seu menino foi encontrado em pedaços num saco de lixo e se ela tocasse em seu rosto sua cabeça rolaria para fora do caixão. Ela não sabia disso e, se soubesse, tampouco sentiria raiva, colocaria a cabeça no colo como seu menino fazia com o capacete.

Nesta segunda-feira, no cemitério de Inhaúma, ocorreu uma das poucas exceções; na sexta-feira anterior, também. Walmíria sentiu raiva de seu menino, que passou a noite com os amigos de cabelo platinado e esqueceu de comprar o leite do próprio filho. Quando ele foi tentar dar um beijo na mãe, Walmíria empurrou seu rosto para longe.

“Raiva de mãe dá e passa”, Walmíria disse. “Enquanto isso, tu seja homem e vai trabalhar pra pagar o leite do teu filho”.

A raiva que Walmíria sentiu do filho na sexta-feira deu e passou. Mas a raiva que Walmíria sentiu dela mesma nesta segunda-feira no cemitério de Inhaúma, deu, dá, não passou. E não passa.

Deixe um comentário