– Você tem certeza?
– Tenho sim.
– Não diga isso nem de brincadeira. Maria Eduarda é insuportável.
– É isso mesmo. Não dou quinze dias para ela se mudar para sua casa.
– O que eu faço? Compro um mastim para mastigar os pés dela? Diga alguma coisa.
– Está vendo esse Rato? Sua irmã está falida, não tem para onde ir.
– Posso emprestar minha barraca e o fogareiro. Dá para começar uma vida nova com eles. Mas e se Maria Eduarda quiser acampar no meu jardim?
– Se ela passar pela porta da sua casa não vai sair mais.
Fui embora apreensiva, pensando em como espantar Maria Eduarda da minha vida. Se pelo menos ela fosse dessas baratas que é só bater o pé e ela sai correndo. Não era o caso, ela é do tipo voadora, gruda na gente e ainda acha que é um broche.
Assim que atravesso o portão de casa, vejo a barata sentada na mureta da varanda. Ela está com os pés em cima do anão de jardim que acabei de pintar.
– Como você entrou aqui?
– Você não chegava, acabei chamando o chaveiro.
Ela fez uma cara de sonsa, em seguida baixou as antenas e ao entortar a boca, o bigode chinês acentuou sua cara de infeliz.
– Já acabou o prazo de validade desse seu último procedimento?
– Preciso fazer o retoque mas não tenho dinheiro. E também não posso voltar para o meu apartamento.
– O que aconteceu dessa vez, Maria Eduarda?
– O jogo do tigrinho. Perdi mais de cem mil reais, se você não tivesse torrado todo o dinheiro da mamãe com aquele monte de cuidadoras, eu não teria ido atrás de um agiota.
– Elas estão nos processando. Você não recebeu as notificações?
– Recebi e joguei fora. Para que pagar hora extra se eles vão me matar. Você podia me…
– Melhor você se esconder na edícula.
Demos a volta ao redor da casa tropeçando nos canteiros do jardim. Não ajudei Maria Eduarda a carregar as malas. Para que tudo isso? Ela pretendia passar a próxima encarnação aqui?
– Amanhã vem a diarista, peço para ela limpar. Não toca em nada e esquece que você tem alergia.
– Aqui tem aranha?
– Se tiver, é pequena.
– Deixa eu ficar lá dentro com você.
– Nem pensar, estão te procurando. Finge que você está num hotel de beira de estrada.
– Numa espelunca, você quis dizer, olha essa privada sem tampa.
– Não está entupida.
– E a cama?
– Já vou pegar.
– Quer que eu ajude?
Dei as costas para a barata sonsa e fui lá para dentro. Quando estava subindo a escada ouvi meu celular apitar. Era uma foto de Maria Eduarda pelada. Muito pelada mesmo. E o mais estranho é que tinha sido mandada por ela. Minha irmã tinha duas cicatrizes na altura da cintura que estavam muito vermelhas e com cara de serem recentes. Dava para ela ter tirado um rim por ali?
Depois de desenterrar o colchão de ar do armário, fui até a cozinha e peguei uma garrafa de água e alguns biscoitos. Não é elegante morrer de barriga cheia. Quando cheguei na edícula, Maria Eduarda ria de nervoso, estava recebendo um monte de mensagens por causa do nude.
– Vazou uma foto minha, justo a que aparece a cicatriz.
– Chegou para mim também. Que cicatriz é essa?
– Tirei duas costelas. Ainda estou devendo para o hospital. Que ódio desse tigrinho!
– Só para saber, como você vai pagar tudo isso?
– Você podia me empres…
– No momento só dá para pagar seu enterro. Será que eles dão desconto por causa da mamãe? Tipo leve duas e pague uma?
Nesta hora Maria Eduarda enlouqueceu, em cada espirro seu rosto inchava mais.
– Bom, você ainda está viva. Toma.
– O que é isso?
– Seu colchão. Vai ter que assoprar, perdi a bomba.
– Ela olhou para mim incrédula. Depois enfiou a cara no celular e disse: o tio Gontran está escrevendo umas obscenidades.
– Mamãe falou que ele estava cada dia mais tarado. Deve ter caído baba em cima da sua foto. Duvido que escove a dentadura, que nojo.
Maria Eduarda continuou vendo as mensagens, uma hora ria, na outra chorava. Fui para cozinha preparar um bife, já estava ficando sem forças para aguentar minha irmã. Só depois de assistir a novela é que fui ver como ela estava.
Quando entrei na edícula, Maria Eduarda parou de assoprar o bico do colchão e olhou para mim. Estava completamente roxa. Igualzinha a mamãe quando saiu da banheira gelada. Fora o inchaço que parecia ter fermento e não parava de crescer. Pronto-socorro hoje? Não, por favor.
– Conversei com várias pessoas que viram meu nude, adoraram minha cintura fina, só que quando falei em dinheiro, todo mundo sumiu. Só o tio continuou online.
– Ele vai te ajudar?
– Disse para eu ir para lá. Faz uma meia hora que só fica no Gontran está digitando…
– Também, com noventa e oito anos.
– Mandei uma foto dessa edícula imunda comigo tentando encher essa porcaria. Quem sabe ele sente pena de mim.
Maria Eduarda estava limpando os joelhos quando o celular dela apitou. De tão nervosa quase apagou a mensagem.
– É o tio. Olha só o que ele escreveu ‘Você não quer vir aqui encher meu colchãozinho?’ Vou pedir para ele mandar o endereço. Se pelo menos ele digitasse um pouco mais rápido.
Não deu nem tempo de Maria Eduarda receber a resposta do tio. O celular dela começou a apitar sem parar, pior do que na foto do nude.
– Eles leram tudo o que eu escrevi para o tio. Quero me matar.
A conversa dos dois tinha vazado e todos os contatos de Maria Eduarda estavam se manifestando. ‘Vai papar o tio’ era a mensagem mais boazinha.
Não teve jeito, Maria Eduarda desmaiou. Assim que abriu um pouco os olhos, coloquei ela sentada ao lado do gnomo e dei o celular para que chamasse um táxi. Nem chorar ela chorava. A barata estava cada vez mais tonta e inchaço só piorava. Se ela foi para casa do titio? Não sei, só se ela continuar viva.
