Ça va?

 Ondina viu a cena refletida no acabamento em inox da máquina de café. Dois corpos deformados com movimentos lentos que só entendeu quando virou a banqueta. Um homem segurava uma calculadora azul.  Mantinha a postura muita ereta e dava bastante atenção à mulher com quem conversava. Deviam ter pouco mais de cinquenta anos. Os cachos dos cabelos grisalhos, às vezes caiam sobre os olhos dele. A mulher , num vestido preto e justo, mostrava as pernas e braços finos. Ondina pediu mais um espresso e passou a observá-los agora sem as distorções do reflexo no metal. Buscava não ser notada entre um gole de café e uma consulta ao celular. Estavam a apenas cinco bancos de distância.

                A mulher parecia absorta na calculadora de plástico.  A cada resultado nas operações, o homem girava o banquinho, mostrava o visor e cochichava um pequeno discurso no seu ouvido. Não chegava a ser um cochicho porque mantinham uma distância de pelo menos dois palmos entre os rostos. Ela gravava tudo enquanto ele, às vezes, trocava a calculadora pela comanda de acrílico. Ondina demorou a entender o que uma tinha a ver com a outra.  Foi Antero quem ajudou. Antes que perguntasse, o balconista veio lhe contando que o homem fazia leitura de códigos de barras e a mulher o consultava a cada quinze ou vinte dias.

           Ondina afastou o corpo do balcão meio descrente:

          – E isso funciona?

          – Parece que sim. Ela sempre vem aqui.

           – Sabe quem é? 

           – Sei que se chama Veridiana.

          – E ele?

          – Horácio.

                Ela olhou mais uma vez para os dois e mudou de banqueta. Quis chegar mais perto para tentar compreender o que seria aquele tipo de leitura. “Oui” foi a única palavra compreensível. Partiu de Veridiana e Horácio respondeu. Um “oui” seguido de outro “oui”.

                 Ondina não fazia ideia sobre o que concordavam. Escolheram outra língua para que os curiosos num lugar público não entendessem muita coisa.  Aliás por que numa padaria? A Pães e Doces Júpiter andava barulhenta e decadente. Com Ondina,no entanto,  a estratégia da língua estrangeira funcionou diferente. Não sabia o que falavam, mas aos poucos,  foi reconhecendo aquele corpo miúdo, os cabelos pretos, o anel de pedra imensa no dedo indicador e principalmente o francês.

                 Fazia um ano, mas Ondina teve certeza de que Veridiana era a mulher que a havia ignorado ao abordar Vicente com um “ça va?”, a saudação que, na saída do cinema, se estendeu em uma conversa sem fim.  Na ocasião, Veridiana julgou que Ondina não entenderia francês como de fato não entendeu. Vicente interessado no assunto ou constrangido com sua presença nem a apresentou à suposta amiga e antes que o diálogo inteligível entre o namorado e a estranha terminasse, Ondina já estava na rua pedindo um Uber e  bloqueando Vicente no Whatsapp.

                – Antero! Me vê mais um café – ao reconhecer a mulher, Ondina ficou surda para a conversa ao lado e desbloqueou Vicente.  Engoliu o orgulho. Apoiou o celular no balcão e fez uma foto da mulher meio encoberta por Horácio. Saiu sem nitidez, um pouco pela posição e outro tanto porque as mãos tremiam. Ficou sem foco, mas Vicente iria reconhecer. Antero chegou com o café, Ondina viu seu reflexo no líquido e desistiu de enviar. Não teria o que dizer junto da imagem.

                 Contrariando seu hábito, adoçou o café, mexeu até as três colheres cheias de açúcar se diluírem e bebeu como se fosse álcool.  Lamentou que a Pães e Doces Júpiter não mais vendia cachaça, nem cervejas.  Recobrou a audição e todos os outros sentidos com o ruído do espremedor de laranja e então deu um gole no creme grosso e gelado que tinha virado a sua bebida. Ao lado, observou uma pausa na conversa entre Horácio e Veridiana. Eles dividiam uma garrafa de água com gás e consultavam seus celulares. Num impulso, desceu da banqueta e deu dois passos até eles.

                – Este seu método é inspirado no I Ching?

                 Horácio se espantou com a abordagem. Por instinto, protegeu seu celular. Veridiana guardou o dela na bolsa.

                – Como?

                 – Desculpe a intromissão. Mas fiquei realmente curiosa.

                Mais calmo, Horácio respondeu que poderia lhe passar o número de seu celular para um contato. Disse também que tinha uma página no Instagram com depoimentos e explicações sobre o método.

                – A senhora não percebe que estamos numa sessão? – Veridiana interrompeu .

                 – Claro. Não pude deixar de notar.

                Horácio alcançou um guardanapo, pediu a Antero uma caneta e anotou seu número.

                 –  Me envia uma mensagem e como já disse, marcamos uma sessão. Adianto que uso os recursos do I Ching e pelas linhas da comanda monto hexagramas.

                –  Que curioso! Mais fácil que jogar moedas. Obrigada pela disponibilidade em adiantar uma resposta. Só mais uma pergunta.

                – Ele não pode responder agora – de novo Veridiana tentou interromper.

                –  Só queria saber se é preciso falar francês?

                – É claro que não. – Horácio respondeu com um olho em Veridiana que revirava a bolsa buscando o celular.

                –  Vocês falam em francês para ninguém entender?

                – Sim. Para a leitura ficar mais privativa. – Horácio respondeu.

                – Pode fazer o efeito contrário – Ondina afirmou sem tirar os olhos de Veridiana.

                 – Como assim? – perguntou Horácio.

                – A Pães e Doces Júpiter não é exatamente um lugar turístico. Qualquer português com sotaque já chama a atenção, imagina o francês.  

                –  Chamar a atenção é diferente de entender – disse o homem.

                – Concordo, mas uma hora vão querer saber mais. Assim como eu agora.

                 – Que bom que se reconhece indiscreta – disse Veridiana com a câmera do celular apontada para Ondina.

                  – Indiscreta. Gostei da palavra refinada.  Aposto que te deu vontade de me chamar de coisa pior.

                 – Desculpe-nos, Senhora…… Como é o seu nome?

                – Ondina!  E não precisa do Senhora porque aqui todo mundo tem a mesma idade.

                – Pois então, Ondina! Já tem meu número e nós vamos agora continuar a sessão.

                – Desculpe, Horácio! Vou embora. Hoje pra mim acabou – Verônica respondeu e foi direto para o caixa. 

                 Ondina conseguiu uma selfie com a imagem de Veridiana ao fundo,  voltou satisfeita para o balcão, acenou para Horácio que ficou sozinho virando e revirando sua comanda.

                               – Antero. Dessa vez quero uma água com gás.

              Enquanto aguardava a bebida, na parte superior da selfie editou um “Ça va?” . Ensaiou três vezes enviar para Vicente. Desistiu quando Horácio sentou ao seu lado e ofereceu  ler a sua comanda.

Deixe um comentário