…combinaram com os russos?

Brontops Baruq

MOTE: Em meados dos anos 60, um samizdat (fanzine) chamado Oito vezes Octobriana (Восемь раз Октобриана) circulou discretamente entre estudantes e saraus de poesia dos países da Cortina de Ferro. Uma cópia carbonada e com tradução para o italiano teria chegado na FFLCH, de onde viria a história a seguir. A hq foi publicada pirateada e sem créditos na edição número 06 da revista Cucamonga em fins da década de 70. A história foi falsamente creditada ao ilustrador tcheco Zdenek Burian e a um certo poeta V. Limonov. Os autores verdadeiros são desconhecidos.

1

Varlam Grushenko abriu os olhos. Ainda assim não podia ver. Apenas quando a jovem Lubliana recolocou seus óculos, conseguiu enxergar: amarrado na poltrona no meio da sala.

Ao seu redor, uma família de bons russos, os Volkanovas. Deles, só se sabia o nome da caçula, a pequena Lubliana Volkanova, uma loura encardida de tranças entrelaçadas uma na outra e sorriso acolhedor. Alguns dos outros reconheceu pelas fotografias que vira algumas horas antes. Um senhor de calvície proeminente cujas costeletas demarcavam o final da mandíbula. Uma velha com o cabelo armado em um coque século XIX. Uma mulher amamentava dois bebês, um em cada peito.

Havia outros na penumbra. Nenhum deles portava alguma arma, o que poderia representar algum alívio. Porém o senhor careca de costeletas se apoiava numa bengala toda ornamentada e cheia de pregos.

 2

Varlam Grushenko os reconheceu das fotografias. Quando chegara àquela datcha, não havia nenhum deles ali, exceto a molequinha Lubliana. Ela o recebeu de pés descalços e com seus olhos azuis faiscantes e atentos, “Há quantos anos não recebemos visita, meu senhor”, e insistiu que fosse da varanda para o interior da casa. O segundanista da curso de Engenharia Hidrogeológica recusou com polidez. Afinal, como entrar com as botas enlameadas do charco que cruzara há pouco?

Mas Lubliana Volkanova não era mulher que se submetia a desculpas poucas, “Deixe estar, paizinho, eu o ajudo a retirar suas botas”. Antes que Varlam pudesse impedir, ela já se curvara prontamente a seus pés e passou a puxar suas botinas, sem se importar com a massa de lama, nem em ficar de joelhos diante dele. Ele pediu perdão pelo cheiro de derrubar urubu, mas a moça sardenta riu, “Desde a curva do rio Kamanin, já se podia sentir seu chulé do oeste.”

Finalmente, Varlam adentrou à datcha a ao alívio de sua sombra. Lá fora era verão e o sol seguia sem pressa rumo ao poente, o calor rachava o coco e as cigarras cantavam sem medo de arrebentar. Quando os olhos se acostumaram à penumbra, viu que a casa já não estava em seus melhores dias. Quadros desalinhados, sofás rasgados, cheiro de cachorro molhado, um armário sem porta.

Lubliana propôs um chá. Varlam disse que não queria incomodar, mas a menina – lá da cozinha – disse que era assim que os turcos fazem, sempre recebem as visitas com chá. Ele não quis acompanhá-la na tarefa, ficou mais intrigado por uma baioneta velhíssima pendurada na parede como troféu ou talvez para estar acessível. Na coronha de madeira, alguém inscrevera “Mata-turcos”. Ficou tentado a removê-la do lugar, mas se conteve.

Depois perambulou pelo interior da casa para investigar a estranha coleção de objetos dispostos de forma meio caótica. Havia uns muito refinados em meio a outros, de ordem mais prática, condizentes com a vida do sertanejo. Redes de pesca e de caça. Uma poltrona Luís XV. Um isqueiro alemão com suásticas. Uma garrafada com um pássaro morto dentro do líquido. Um chifre para pólvora. Um samovar tão belo quanto inútil pois estava furado. E finalmente um ícone com a imagem de São Cristóvão e São Raimundo Nonato, os dois auxiliando em um parto.

Lá da cozinha, a menina continuava falando e falando e falando, mas Varlam pouco prestava atenção. Era algo sobre a irmã que tivera filhos há pouco tempo. O sotaque acelerado e difícil. Grushenko estava envergonhado por estar descalço, mas seus pés agradeciam o fato de poder respirar. O assoalho de madeira rangia a cada passo seu.

Aproximou-se de uma das janelas. Notou o vidro quebrado e pela falta de cacos e o piso apodrecido ali, percebeu que estava assim há algum tempo. O inverno devia ser bruto ali, como ninguém consertou ainda? Olhou para fora e viu a luz do dia refletindo sobre o lago, as pequenas jóias saltitando onda a onda.

Continuou sua exploração, foi parar na biblioteca. Sentiu cheiro de mofo. Como todo estudante daquele tempo, quis conferir as lombadas. Espantou-se pela torre de babel de idiomas. Reconheceu alemão e francês, mas não esperava ver ideogramas chineses ou ainda alfabeto árabe. Existiriam livros proibidos ali? Pelo visto, essa família estava há décadas sem contato com o exterior.

Sobre a escrivaninha, um tinteiro seco e envelopes sem abrir. O papel amarelado indicava como eram antigos. Havia um livro contábil sem registros e debaixo dele, um álbum de fotografias. Um de capa dura e com marcas severas do tempo. Na capa, Feliz 1911 escrito em letras douradas. Deveria ter sido um objeto caro. Ao abrir, o universitário tomou um susto.

3

Varlam Grushenko estava há algumas semanas no sertão da Kodária acompanhando o corpo de Engenheiros Voluntários da Universidade Kotykgrado. Recomendação do tio, homem enfronhado nos Comitês do Partido: antes de ser bom engenheiro ou um bom patriota, seja um bom político. Puxe o saco, lamba botas – siga o conselho do seu tio que você irá muito mais longe que seu pai.

Seu empenho em bancar o capacho foi reconhecido. Foi aceito para participar do grupo de estudos e levantamento topográfico do rio Kamanin. Contaria nota e méritos no seu histórico. Segundo o professor responsável, o Alto Comissariado planejava a construção de uma hidrelétrica para fornecer energia para as minas da região. Também era uma forma de povoar aquela lonjura, próxima da fronteira onde havia rotas de contrabando e tráfico de peles para a Manchúria e Mongólia.

Já estavam há algumas semanas sofrendo o pior do verão no acampamento no baixo Kamanin, tributário do rio Lena. Distante de aldeias e estradas decentes, sobreviveram na base de lebres e pesca, quando não de arenque enlatado. Até que receberam umas fotografias aéreas mostrando a região que seria alagada pela possível represa. No médio Kamanin, o rio formava bacias de águas calmas e tranquilas. Parecia ter gente vivendo ali. Com a lupa, podia-se ver um cais pequeno na margem direita no meio da floresta, completamente afastada de qualquer comunidade.

-Capaz de ser um bando de caboclos …um abrigo para caçadores.

-Pode ser, mas precisamos investigar. Eles tem que ser realocados. O Comitê de Humanidades e Desenvolvimento acredita que pode haver um povo autóctone perdido ali. Existem uns rumores de gente vivendo lá no meio do mato. Querem saber se são índios ou se são fugitivos políticos. Se bobear nem sabem que Stalin morreu.

-Ou que o czar morreu.

4

Como os sinais eram frágeis, não quiseram desperdiçar a mão de obra nessa expedição. Apenas dois dos voluntários foram designados. Varlam Grushenko e mais um colega chamado Andriúcha Savítski se prepararam para dias subindo as margens do rio, acima das cataratas do Kamanin.

Varlam era míope e parecia professor, ficou o escrivão responsável pelo diário de bordo. Já Andrei era uma tosqueira só; cara e linguajar de cabrunco. Dito isso, tinha sua poesia: sabia fotografar e seus instantâneos tinham a beleza das pirâmides. Eram imagens do acampamento, trabalhadores e da mata devastada ao redor: porém remetiam a Bíblia, ao Gênesis ou ao Apocalipse.

Passaram a primeira noite ao redor de uma fogueira perfumada com galhos de abeto, bebendo e trocando mentiras sobre as garotas da Universidade. No fundo estavam contentes de saírem do ambiente militar do acampamento.

Logo no início do terceiro dia, perceberam uma rede de pesca esticada em um tronco. Ao penetrarem na terra e seguirem por uma picada, acharam uma cabana. Não era a datcha onde Varlam tomaria o chá de Lubliana. Era uma muito mais rústica e abandonada. Logo encontraram outras em igual estado.

Era evidente que aquilo havia sido um vilarejo engolido quase que completamente pela floresta. Talvez há uns bons cem anos, exagerou Savítski. Dentre os troncos cobertos de musgo, viam-se casebres sem portas e janelas agora quase que ruínas no matagal. Pareciam um tanto elaborados demais para serem meros abrigos rústicos para caçadores ou pescadores. Tudo destruído e vazio de objetos.

Na parede, alguém gravou uma ameaça: VÁ EMBORA, mas na penumbra e na caligrafia trêmula os estudantes deixaram passar. Ao redor, perceberam uma horta já tomada por trepadeiras e ervas daninhas. Acharam curioso não encontrar sinais de fogueiras. Se houvesse gente circulando por aqui, deveria haver algo. Seja quem for que esteve lá não deixou rastros. Só ficaram umas pegadas antigas de animais.

Andriúcha quis ficar ali investigando e fotografando a vila fantasma, talvez pudessem acampar ali, “Pouparia tempo de armar barracas”. Varlam preferiu avançar mais um pouco pela margem do rio. “Não estamos longe daquele cais. Quanto antes chegar lá e voltar, melhor. Não gosto muito dessa vida de sertanejo, acampar no mato, carrapato, bicho. Tô estudando para sair dessa vida”. Savítski gargalhou, “Tu não passa dum frosô bunda mole, mesmo”

Grushenko seguiu algumas verstas a pé pelos aclives e declives até ver pelo binóculo o cais e a datcha. A datcha estava oculta sob a folhagem dos pinheiros, carvalhos e bétulas. Era uma habitação muito mais imponente que as que acabara de visitar. A princípio, poderia estar também tão abandonada quanto a aldeia de Baba Yaga que acabara de visitar. Porém, com o binóculo, conseguiu captar a imagem de uma mulher caminhando. Ela carregava um cesto de roupas e passou a pendurá-las numa cerca baixa e quase oculta entre os arbustos. Tanto as roupas quanto a casa pareciam ser eslavas e pouco asiáticas. Poderiam ser fugitivos políticos. Cigarras bradavam no calor do início da tarde. Decidiu continuar.

Ao se aproximar da datcha, notou que o estado geral do que deveria ser o jardim se apresentava bastante deteriorado. Uma clareira se abria no meio do matagal para revelar uma carcaça de trator enferrujado exposta aos elementos em meio a alfazemas, girassóis e cogumelos. O futuro engenheiro tentou imaginar como aquela máquina fora parar ali.

Varlam viu excrementos, mas não escutou latidos, nem viu grandes animais, exceto um cavalo bastante gordo e interte com arreios de arados nas costas. Estranhamente, não havia uma plantação visível. Um machado abandonado dormia de cabeça para baixo, a lâmina cravada num toco de árvore. Uma pequena borboleta voejou até pousar sobre a ponta do cabo, como se tivesse confundido a ferramenta com uma flor. Retirou o quepe da cabeça e o prensou contra a axila para bater palmas e anunciar sua presença. Foi quando Lubliana Volkanova apareceu na varanda, lenço de camponesa sobre os cabelos.

5

O velho álbum aberto por Varlam Grushenko tinha cantoneiras próprias para encaixar as fotos. As imagens eram antigas, mas não tanto quanto o volume que as abrigava. Todas igualmente amareladas. Umas com garranchos sobre a superfície do papel. Aqui e ali se reconheciam partes da casa: ornamentos da varanda, a janela redonda, a fachada com elementos curvos.

Algumas fotografias pareciam ter sido tiradas por brincadeira. Outras tinham a sobriedade e a postura de quem fará um retrato de classe dos alunos. Exceto pela nudez. O nudismo se distribuía desigualmente entre as imagens e dentro de cada imagem. Algumas vezes todos estavam pelados. Noutras, um ou dois.

Numa delas, homens, mulheres, crianças e cachorros, muitos cães. Todos nus naquele campo de alfazemas que acabara de atravessar há pouco. Exceto o tal cavalo, gordo e inerte. Esse sim sempre tinha sela e arreios e que, por vezes, arrastava uma telega.

Enquanto folheava o álbum, reparou que as pessoas ali se repetiam e outros sumiam para nunca mais. Vários homens de diversas idades e corpos, jovens e fortes, obesos e flácidos, com bigodes e barbas extravagantes. Por exemplo ali, o careca de costeletas que horas depois estaria diante de Varlam amarrado.

Também apareciam mulheres, algumas escondendo o rosto, jogando a cabeleira para frente ou usando véus como os turcos. Virando a página, havia uma moça de pernas arreganhadas sentada na varanda da casa. Encarava a câmera com um olhar indecifrável. Monocelhas acima de olhos claros (a imagem era em preto em branco), pentelhos volumosos abaixo, sovaco cabeludo. Ria uns sorrisos de dentes tortos, quase ingênuos. Mais adiante a mesma surgiria grávida. Seria a irmã mais velha de Lubliana Volkanova? Se fosse o caso, a caçula ficara com toda beleza.

Não eram fotos apenas da família. Algumas mostravam paisagens, uma ponte sobre um abismo, a floresta, uma cascata, o lago, o deserto. Outras pareciam ser do vilarejo abandonado onde Andríucha ficara. Era possível notar a passagem do tempo, a pequena criança crescendo até ficar irreconhecível. O adulto calvejando e cedendo o corpo para a gravidade inclemente. A datcha na primavera coberta de flores e depois de neve espessa. Adolescentes nus caminhando destemidas sobre as tábuas alinhadas do cais. Atrás as montanhas, a floresta, a superfície da água. Riam-se e davam-se as mãos, molhados de nadar.

Na última das fotos, recostada em um pinheiro, uma moça de longa cabeleira ondulada. A qualidade granulada da imagem sugeria uma fotografia mais antiga, talvez a mais antiga do álbum. Os pelos fartos formavam um buquê entre as coxas fechadas. Varlam não teria esse referência, mas poderia se ver ali um Klimt.

-Essa é minha babushka.

A pequena Lubliana Volkanova trazia para o Varlam Grushenko uma bandeja com um jogo de chá e um samovar – um inteiro, dessa vez. Vinha da cozinha onde fora preparar a bebida.

-Sua babushka?

-É, minha vó, acho que ela tinha minha idade na época, pode tirar para ver. – Lubliana não esperou que Igor fizesse, retirou o retrato e o deu na mão do jovem universitário. Varlam nem imaginava, mas essa bela moça logo mais estaria diante dele, igualmente nua, mas com o corpo esmaecido pela velhice e o coque século XIX.

Lubliana tomou sua xícara e soprou a fumaça para arriscar uma bicadinha. Então sentou-se, pires na mão, pernas cruzadas como um apache sobre a poltrona. Varlam teve o impulso de guardar no bolso a parente mas preferiu recolocar no livro. Só então pegou sua própria xícara e experimentou o chá. Sentiu gosto de água suja, como são todos os chás.

-Seus pais demoram?

-Eles foram para o bosque, Varlam Grushenko. Eles não sabiam da visita do senhor a nossa humilde residência, se soubessem teriam aguardado.

O voluntário da Universidade Kotikgrado ponderou possibilidades sobre aquelas pessoas. O pai lhe falara dos tempos pré-Partido, quando uma massa de camponeses famélicos e crédulos vivia por esses sertões, um povo fanático capaz de colar no mel das palavras de Antônios Conselheiros e outros salvadores da pátria. Ouvira falar dos Molokans, um bando de loucos que prometeram jamais derramar sangue de qualquer criatura e que viviam à base de beterraba com raízes. Que tipo de fé impediria as pessoas de comerem carne? Alguma que não pensasse nos homens e na fome. Poderiam ser talvez algum dos Verdes, dos Vermelhos e até dos Brancos, um pelotão perdido que se embrenhou continente adentro e se isolou até enlouquecer. Ou talvez fossem uns ciganos que abandonaram seus vagões para firmar pé nessa terra esquecida por todos.

Enquanto considerava essas alternativas, reparou que Lubliana balançava os pés com vontade sobre sua poltrona. Ela estava sem as roupas de baixo? O pires e o chá dela continuavam inteiros sobre a mesa. De repente, Varlam sentiu-se tonto. Perguntou à moça por que ela não bebia o chá.

-Chá broxa. Eu não quero descansar. Vocês nunca ouviram falar disso na cidade?

Quando percebeu o que estava acontecendo, Varlam já deixara sua xícara cair em seu colo. Apesar de ser água quente sobre suas calças, ele preferiu dormir.

6

Quando se recobrou, a sala estava iluminada com o alaranjado das velas, cada fogo feito uma fenda, um olho de gato demoníaco. Estava sentado na poltrona Luís XV e amarrado por voltas e mais voltas de corda e tecidos. Ao redor dele, estavam as pessoas do começo da história. Lubliana Volkanova experimentava o quepe de estudante que anteriormente lhe pertencia. O careca de costeletas aproximou-se mancando ligeiramente:

-Acordou, mujique? Faz muito tempo que não vemos um cristão ou judeu por essas bandas. O que você veio fazer nas nossas terras?

O segundanista tentou explicar e acrescentar que qualquer coisa que fizessem com ele atrairia mais soldados, que o melhor a fazer seria deixá-lo vivo, que ele não se importava com o que seu bando andava fazendo por ali. A velha que parecia tão serena em sua juventude o interrompeu “Vocês nunca se importam com o que acontece longe de seus olhos. Se estão vindo para cá é que pretendem alguma coisa.”

Todos falavam e resmungavam ao mesmo tempo, até os bebês chupando as tetas da mãe pareciam ter algo a declarar. Varlam Grushenko viu a parede e percebeu que a baioneta não estava mais pendurada. Inspirou fundo para se controlar, pois o medo fazia piscar o próprio cu e torcia para que o matassem antes de estar cagado.

-Ô de casa!!! Varlam, você está aí?

Era a voz do fanfarrão e bravo Andreiúcha Savítski. Antes que tentassem tapar sua boca, o refém gritou: Estou preso aqui, foge e chama ajuda! E em seguida começou a escutar disparos. O zunido parou na parede da varanda e as pessoas do clã Volkonova se abaixaram. A mãe agarrou suas crianças e sumiu para o fundo da casa. O careca de costeletas foi para o lado da porta e bradou, “Camarada, por que faz isso? Somos todos russos, abaixe seu rifle para conversar”.

A velha empurrou a cadeira com os pés e Varlam caiu com força sobre o piso. Ela se curvou, as pernas escancaradas, “Seu filho duma rapariga, tu não escapa inteiro dessa hoje” e com uma faca vinda de não se sabe onde cortou-lhe parte do lóbulo. Varlam gritou, foge Andrei!

Continuou a ouvir tiros, as balas triscando e uns vidros se quebraram. Admirou-se com a coragem do colega, mas ali eram muitos e Savítski era um único homem com dois rifles, o dele e o que Varlam deveria ter levado, se fosse mais consciencioso. O sangue da orelha escorreu pela sua fronte e desceu pelas vistas. Na confusão, apagaram a maior parte das velas. Na penumbra, Grushenko passou a escutar rugidos de cães e passos rápidos. O assoalho estalava e vibrava com passos e saltos. Conseguiu ver pelas janelas a luz de uma lanterna se aproximando. Temia pela vida do amigo, não só por ele, mas por si. Se Andrei morresse ou fosse capturado, estariam os dois fodidos de vermelho e amarelo.

Logo escutou passos vibrando na varanda e Andreiucha aparecer na porta, rifles e mochilas, o cabra mais macho de toda Kodária. Ele logo entrou para cortar as amarras do colega da Universidade.

-Sua vida não valia um copeque. Você não voltou, achei estranho e decidi ir atrás de você.

-Sei bem disso, me tira logo daqui. Esse povo aqui é tudo doido.

-Que povo, eu não vi povo nenhum, só vi lobos.

Passaram a ouvir novos rugidos. Varlam usou a mão livre para iluminar de onde vinha os barulhos. Era uma alcateia de feras, algumas de quatro, outros em duas pernas. Uma delas amamentava dois bebês humanos, como se fosse uma versão menos mítica da fundação de Roma. O homem careca continuava lá, diante de todos, o alfa do grupo.

-Corta logo isso pelo amor de São Marcelo.

Enquanto a faca serrava com dificuldade as cordas, a lanterna focava o rosto do homem calvo. Os pelos das costeletas e sobrancelhas vibraram e se espalharam feito um incêndio cabeludo, recobrindo sua face cada vez menos gente. O alfa da matilha largou sua bengala cheia de pregos para liberar as mãos e desabotoar a camisa, revelando músculos e ossos pulsantes. Ele já não conseguia falar, dentes se projetavam de sua boca e uma saliva espumante escorria de sua mandíbula.

-Vai embora não, paizinho, a gente vai sentir falta de vocês.

-Tem uma criança aqui?

-Esquece, Andrei, é só outro diabo. Me soltei, vamos sair.

Os dois correram para fora da datcha. Varlam sentiu a falta das botas, mas agora é que não procuraria por elas. Recuaram os dois sem dar as costas para a matilha em direção ao cais e ao bote. A família os acompanhou, todos feito feras, exceto Lubliana Vulkanova, talvez nela falte a menarca para se transformar como o resto. Ela ficou para trás, protegida pelos demais.

-Paizinho, você vai se arrepender, não vai por ái não.

-Cala boca, baba yaga.

Passaram pelo machado cravado no tronco, dessa vez sem borboletas. Estavam tão preocupados com o desfile atrás deles que não perceberam algo estranho. Sobre o cais, sobre as ripas de madeira enfileiradas que avançavam vários metros em direção ao rio, havia o cavalo gordo do campo de alfazemas. Pelo visto, não era tão inerte quanto parecia. O animal interrompia o caminho até o bote.

-Que essa besta está fazendo aí? Puxa ele de lá, Varlam.

Como nas fotografias, ele tinha arreios sobre o corpo. Grushenko deveria ter considerado o motivo de terem preservado esse cavalo. A terra não tinha sinais de ter sido trabalhada, o trator enferrujava abandonado no campo. Não fazia sentido ter um animal de fazenda na floresta, ainda quando todos são lobos. Mas ele não tinha tempo de ponderar mais a respeito, pois quando segurou nas rédeas do equino, esse passou a rugir também.

A madeira do cais estalou com a mudança súbita de peso do cavalo, esse também se tornou um lobo, uma fera ainda maior que as demais, ainda que um tanto estúpida. Sua bocarra se abriu e numa mordida agarrou o ombro de Varlam Grushenko. Sacudiu várias vezes e então o arremessou nas águas calmas do Kamanin. Andreíucha Savítski tentou atirar para ajudar Varlam, mas logo os demais parentes se jogaram sobre o herói e o pelaram ali mesmo sobre o cais, até o sujeito ficar naquela bagaceira de tripa e sangue. Devoraram-no cru, enquanto ainda estava quente.

7

O sol nascera e fazia seu percurso de caramujo no ritmo do verão. A luz rebentava feito pérolas na superfície tranquila do rio. Varlam Grushenko acordou com o braço dilacerado. A mordida fazia uma meia lua de furos, um para cada dente, ao redor de seu corpo. Como era cedo, ainda não haviam moscas sobre as feridas. Surpreso por ainda estar vivo, tentou se erguer, quando ouviu a voz da pequena Lubliana Volkanova.

-Melhor descansar. Achei seu óculos.

Novamente, a menina o recolocou em seu rosto. A armação toda capenga sobre o nariz. Ele estava recostado numa árvore na margem do Kamanin. Não havia sinal da datcha, do cais à beira do rio e ele estava rodeado de citronelas, lavanda e cravos que fediam terrivelmente, de uma maneira que Varlam nunca percebera antes. A moça continuava com as tranças e o quepe de estudante enfiado na própria cabeça.

-Eu disse que o paizinho iria se arrepender.

Ela foi até o rio, encheu de água um cantil e o ofereceu a água limpa do rio para ele. Enquanto a moça descia em direção à margem, o estudante notou que ela continuava descalça. Só então lembrou de seus pés e os viu, igualmente desprotegidos. Bebeu com sofreguidão. Ele não precisou perguntar para que ela respondesse.

-Eu o salvei para fugir de casa. É muito triste crescer sem ver ninguém, só parente, primo, prima, irmão. Isso não é vida, é gaiola. Paizinho vai me levar para conhecer a cidade grande?

Sem escolhas ou disposição para outra coisa, Varlam aceitou balançando a cabeça. A pequena Lubliana sorriu.

-O que é combinado não sai caro. Vou fazer um chá pro papai, um bom dessa vez.

FIM

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