Flautista amadora, festiva compulsiva e emblemática nas horas vagas, minha avó paterna nunca fez sala, nem para a família. Tomava conta dos netos somente quando meus pais precisavam. Precisavam muito. Amorosa à sua maneira, comunicava que era um favor. Nesses raros momentos não punha mesa, menos ainda assava bolo. Empurrava um volume de enciclopédia ou coisa parecida, no colo de cada criança, meu irmão, minha irmã, e eu. Ditava a tarefa: me surpreendam com algo interessante, e saía. Nós ensaiávamos, ela não voltava. Recaía sobre mim, a mais velha, o fardo da frase: isso é um segredo nosso, ninguém pode saber.
Uma avó pitoresca. Fazia o que gostava, o dia inteiro. Viajava, de preferência para alguma cidade com cafés de calçada, lambia vitrines, andava na chuva, se divertia, dizia que encontrava emoções. Sozinha. Companhia? Ela mesma, a melhor. Consigo, a fiel maleta masculina, 007, anos setenta, da qual não se separava nunca, como uma pequena menina grande que anda para cima e para baixo com uma bolsa recheada do seu mundinho de segredos. Minha curiosidade infantil indagava à família: o que a avó guarda lá dentro?
Nada de importante. Sempre foi maluca.
Morreu nova, 74 apenas. Câncer no ovário. Dela herdei alguma ousadia, uma estante vermelha pé palito, bijuterias vintage. Era o ano de 1994, eu cursava Artes Plásticas na FAAP, local da moda e a competitividade acirrada de looks tipo eu sou mais estranho do que você e não estou nem aí para isso sangrava nos olhos. Minha afetação meio clubber meio brecholenta glam blasé de butique urubuzou a tal pasta de couro borgonha com pespontos brancos. Seria perfeita para mim, mais pelo charme do que herança afetiva. Posso? perguntei ao meu pai.
Pegue o que quiser daquela toca de ratos.
Pronto. Uma vez minha, foi preciso arrombar a tranca mais que enferrujada. O funcionário do chaveiro voou longe na fantasia: aposto que há dólares, armas, documentos secretos, heroína. Tarantino estava no auge.
Embalados pelo forro de cetim laranja estilosérrimo, dentro da maleta, obrigada avó pela graça alcançada! estavam: um bloco de volantes da loteria esportiva da zebra, uma revista Manchete de 1974 de páginas falecidas cuja beleza da capa estampava uma Sandra Brea matadora de blush tapa na cara e cílios postiços. Inúmeros recortes amarelados de jornal, a maioria de atrizes, cantoras, também Lady Diana. Um caderno de poesia de escrita truncada e letra miúda, que um dia gostaria de publicar. Ela não fez testamento, mas deixará para a vida seus versos. Em uma das laterais, um zíper fininho escondia um bolso, dentro, um envelope de cartão, dentro, umas páginas de caderno, dobradas, dentro, outros papéis, canetados, tudo muito lido, relido, carcomido, manuseado, despetalado, no meio disso, uma pequena fotografia. Papel fosco, impressão PB. Não foi difícil reconhecer, a moça magrela de cabelo curto era a minha avó. Jovem, linda e pelada.
PE-LA-DA.
Nua em pelo. Peluda, genitais, axilas. Escancaradamente feliz, deitada sobre o que deveria ser uma toalha de piquenique, em um cenário de jardim. Nada mais. Meu batimento cardíaco se debateu no ritmo da atitude transgressora. Ela, na foto, que pelas minhas contas datava de 1940, e eu, no momento, devíamos emparelhar a idade, não mais que 20 anos, mas aquele corpo parecia tão frágil e pequeno! De joelhos dobrados, pernas semi abertas e mãos servindo de apoio para cabeça, ela sorria para a lente. Sob o olhar de quem? Chequei os papéis que embalavam a foto. Pedaços de cartas. Bilhetes desconexos, trechos revelados em caligrafia distinta, escritos a quatro mãos… algo tipo… a sua vida será marcada pelo ritmo da música, mutante e reticente…. nunca deixe o lirismo… nada a abandonará… seja movimento, sempre… influência do Sol, de Saturno, Vênus, Jupiter….abençoada por Eros…
Que isso, avó?
… Deus deduz, as duas, amigas, amadas, amantes, nuas… as sombras assombram mas não assustam, nos sobra a neblina e a solidão… lasciva a chuva a aurora chega como remissão… possibilidades de chover no chão… no silêncio seguro sua mão… da sempre sua… Elena. E-LE-NA.
Depois de morta, a avó ainda protagonizava uma vida inflamável. Minha estrutura emocional rastejava debaixo de um escombro pós terremoto, tamanho meu abalo. Ouvi a voz dela, do nada. Melhor, do tudo: isso é um segredo nosso, ninguém pode saber.
Claro. A ficha caiu. Tudo fez sentido. Viveu camuflada, mas não inibida, na discrição seguiu os códigos do seu interesse. Como era Elena? Quem mais sabia? Poucos? Ninguém? O retrato. Um corpo deslocado em uma personalidade ímpar. Quem revelou?
Trouxe a fotografia para perto do meu rosto até o papel tocar a ponta do nariz e a imagem perder o foco. Meu cérebro entrou em transe. O granulado pululou, como se moscas sobrevoassem o corpo da minha avó, e eu tive certeza de que eram as mesmas moscas que moravam nos azulejos verdes do único banheiro da casa dela. Olhei melhor, a nudez. Reparando bem, sim, estava lá, porque sempre esteve, o garrafão de Sangue-de-Boi, acompanhando a piada de sempre, contada todos os dias sob o efeito do álcool, às vezes duas vezes no mesmo dia. Desavisados julgariam a imagem sexualizada? Não sei. A postura segura, até desejável, expunha o inacessível. O busto menor que um punho, o quadril inexistente. A elegância de roupas simples transformadas em fantásticas, a genialidade que pilotava a máquina de costura, da noite para o dia um vestido se fazia pronto, mas sempre alterava a estampa, trocava o tecido, adicionava gola, retirava os punhos para copiar sem copiar os figurinos das atrizes de cinema. No canto, a máquina de lavar roupas que eu nunca soube o porquê de ficar na sala e o sofá com cheiro de mijo camuflado pela capa amarela. O Opalão dourado mal-estacionado na frente do meu colégio, a celeuma de quando era ela a ir me buscar. A implicância com o sorveteiro Seu Novaes, só porque ele tinha apenas 3 dedos na mão esquerda. O pescoço magro disfarçado com foulards, as blusas de manga por conta dos braços magros. O tabaco que fumava até na cama. A gata preta Jiboia, o catálogo da Avon, o pudim de pão, a poltrona quase humana, o peixe marinando na pia. O Cartier paraguaio com pulseira elástica, o espelho da penteadeira, a fresta da janela. A tristeza rara de uma bailarina reprimida. As brigas no campeonato de buraco, a bacia de alumínio toda noite atrás da porta para assustar um possível ladrão. A Bette Davis, a Virgínia Lane, as piadas da Dercy. O brinco de marcassita, a partitura de La Cumparsita, a santa milonga domingo à tarde. A boca enorme que engolia o rosto, os lábios vermelhos, a língua mais que afiada. A infância em Sorocaba, a salsicha Viena de lata, o Campari com Baré Cola, os pastérrr de carrrrne. A combinação de singeleza e mundanismo. O humor puxado que não dava a mínima para o bom andamento doméstico, o divórcio conturbado, a outra família do marido, o filho morto, o filho vivo, a nora, os três netos. A agilidade na qual rebolava em cima da mala para estalar o cléc da tranca e fechar a dita recheada de compras fúteis a cada volta de Buenos Aires. Os olhos de um azul devasso, os pés 34 equilibrados em saltos altíssimos, envernizados. No seu velório, a coroa de flores mais económica do preçário, a nenhuma lágrima, o algum incômodo e um certo alívio na cara lavada da Tia Marieta, do Tio Geraldinho, do Verardinho, do Robertinho, da parentalha de relações rompidas, os hipócritas e os carolas, justo ela, que detestava religião, igreja e padre intrometido. Senti a mão a formigar, a fotografia pesava, como se o papel tivesse uma camada oculta de chumbo. A foto ainda mora no bolso escondido da maleta, e segue, assim como ela foi, infernalmente livre, até o fim, sem recuar nunca. Minha avó era imensa. A nudez é sempre múltipla. No verso da fotografia, constava apenas seu nome, Olga.
