Nilde que era Dora ou Dora que era Nilde

Sou uma pessoa muito ocupada: tomo conta do mundo (Clarice Lispector)

Deixei de escrever à mão há muito tempo, mas ainda leio os livros no papel. Amo o ritual de desembrulhar, folhear e sentir o cheiro das páginas novinhas. Agora a escrita deixou de ter a marca da minha caligrafia ruim e dos erros ortográficos. Já erro demais no dia a dia, compro coisas supérfluas, não ponho limite de tempo no smartphone do meu filho, falto muito na academia, esqueço de lavar a vulva com sabonete líquido de ph neutro, não carrego sacolas retornáveis na mochila, entro todos os meses no cheque especial, deixo o cachorro sozinho em casa, e não termino de escrever o artigo do pós-doc. 

É insuportável tomar conta de todos os erros sozinha, por isso me rendi ao editor do word e fico feliz quando ele me ajuda sem que eu peça. Escrever é difícil e perigoso, viver também é perigoso, mas pedir ajuda é ainda pior, chega a humilhar.

Tomo conta do mundo igual Clarice, nasci assim, incumbida. Uma maneira exaustiva de habitar a matéria viva. Tomo conta das folhas secas da samambaia na sala, da solidão dos meus pais, do tédio dos meus filhos e do genocídio do povo palestino. Tomo conta da lua cheia no céu para o cosmo não despencar na minha cabeça. Até do zumbido alheio passei a tomar conta, como se eu fosse capaz de escutá-lo.

Fui procurar a quem prestar contas desse estado perene de vigília. Visitei pela primeira vez uma cartomante.

É preciso dizer que sou cética, imensamente cética. E se fui a uma cartomante é porque estava cansada de tomar conta do mundo. Era preciso esclarecer essa questão de incumbência. Não é possível que eu tenha herdado tamanha porosidade para as coisas do mundo, como o castanho dos olhos ou o formato retangular da unha do hálux. 

Eu não visitei uma cartomante somente para prestar contas, que isso fique bem claro. Todos consultam o oráculo para saber do novo emprego, de uma viagem a trabalho ou de uma paixão avassaladora. Ruth, uma amiga não muito íntima, desapareceu em novembro e quando nos reencontramos, por acaso, no bloco de carnaval, esclareceu o ocorrido. Enquanto planejava os votos de ano novo, estreitar vínculos com os movimentos feministas de saúde reprodutiva, mudar de consultório, dedicar-se à ioga, acompanhar de perto os estudos da filha, apaixonou-se perdidamente. Os planos foram adiados e a paixão desarrumou tudo. O mundo parou de respirar para que o ar pudesse entrar todinho nos alvéolos dela. Inveja que me deu da Ruth. Porque me apaixonar assim era o que eu precisava, um erro redondo no lugar de acumular estridentes pecadinhos cotidianos. Um erro certeiro, para deixar as coisas tomarem seu rumo livremente, louça por lavar, livros por ler, filhos pra criar, apenas seguir o curso do rio, tatuando água e tempo.

Era sobre paixão minha consulta ao tarô.

Eu queria que as cartas fossem meu novo corretor automático para as decisões da vida amorosa. Viver corrigindo erros é trabalhoso demais. Queria saber dos próximos dias, das novas semanas, dos meses vindouros, afinal eu me preparava para uma avalanche de mudanças. Estava tomando fôlego para me separar, mudar de casa e fazer uma tatuagem. Passava horas escolhendo o desenho, um ramo de arruda, uma rosa, um ponto de luz, uma mandala. Até pensei em tatuar no braço meu sobrenome paterno em árabe, honrando assim a origem libanesa, essa história encoberta pela diáspora. Isso me daria um gigantesco trabalho de pesquisa biográfica, mais uma coisa para tomar conta. Então não. Não vou entrar nessa agora, vou direto para o cafofo da cartomante, Dora.

Quitinete no primeiro andar de um edifício modesto no Paraíso, pertinho da Vergueiro. Da porta se via a mesa quadrada coberta por um pano branco, onde se assentava o copo d`água envolto por um cordão azul claro e dourado, cartas e búzios recolhidos. A mulher era idêntica à Nilde, mãe da Julia, minha amiga há mais de trinta anos, que me recomendou a vidente. Ambas pequenas na estatura, cabelos longos, lisos e negros, com uma calma que só quem sabe do futuro pode sentir. Aquilo me deixou aflita. Tinha sido desmascarada. Em algum momento a Nilde me diria, minha filha, não faça nada disso, pra quê uma separação a essa altura, me ouça porque sou mais velha e experiente, já quase lhe troquei as fraldas. Uma loucura a Julia arrumar uma cartomante igual à própria mãe.

Quando começou a falar, com a voz grave e o sotaque de Salvador, Dora afastou a semelhança de Nilde e eu pude me concentrar na consulta. Ela jogou os búzios, olhou para o copo d`água, depois bem fundo nos meus olhos e disse: que confusão temos aqui, menina. Mas uma coisa é certa, com esse homem você não fica. E de qual homem ela falava? Fiquei envergonhada de perguntar e supus que era do meu quase ex-marido. Estava na véspera de me separar e precisava saber o que ia acontecer, sem perceber que já estava acontecendo, não existia nada além da minha decisão, que já estava tomada. Homem nenhum fez parte disso, ao mesmo tempo que tinha outro homem fazendo parte disso, e é verdade, não fiquei com nenhum deles.

Seu caminho vai ser longo, vejo muita dificuldade nesse momento, obstáculos enormes, mas tem três homens ao seu redor. Enquanto jogava as cartas, dizia: você vai se casar de novo, mais duas vezes. E uma mulher loira vai te ajudar. Aqui diz que um rapaz, um amigo que você acabou de conhecer, vai te acompanhar nas mudanças profissionais. Dinheiro não é problema, agora tudo que entra sai, não fica nada, você precisa cuidar disso, estancar essa sangria. Você tem uma cigana aí atrás de você. Tá protegida.

A gente sempre sai meio atordoada desse tipo de encontro. O encontro com o próprio destino. Eu que sou cética, ateia, agnóstica, marxista, materialista, empirista, newtoniana e darwinista. Mas fui criada por duas tias italianas que acreditavam em strega, frequentavam a igreja católica, o terreiro de umbanda, me levavam para benzer e tomar passe no centro kardecista. Fui fabricada no patchwork materno das crenças ítalo-brasileiras. Meu ceticismo é pura falta de tempo porque se eu assumir minha mediunidade, ah, minha cigana, daí passo a tomar conta até dos espíritos.

Desde essa consulta fico atenta a cada mulher loira que passa na rua. Quem será ela? Minha mãe e irmã são morenas, minhas amigas todas de cabelo preto, vermelho ou castanho. Recentemente fiz amizade com uma amiga loira e logo fui pensando, vai ser ela a minha salvadora. Como, eu não sei. Salvar do que? Ajudar em que? Mas se a vidente disse, tá falado, e eu torço para que uma amiga antiga pinte logo o cabelo. Quase um fetiche. Será que eu ainda caso com uma loira?

Como pode uma pessoa dizer a uma mulher que nem tinha se separado que ela vai se casar mais duas vezes? Eu nunca mais voltei naquela cartomante poque acho que ela era mesmo a Nilde. Julia e ela me pregaram uma peça. Já pensou, me casar de novo, que a cigana me livre. Mas que eu tenho escolhido meus namorados a dedo, isso eu tenho, com o dedo certo para que o namoro não vá para frente. Talvez eu volte na Dora e diga a ela que os búzios e as cartas mentiram, nenhuma mulher loira salvadora da pátria e nenhum homem para me casar. Ufa!

Quanto aos erros, ainda bem que o word me ajudou, caso contrário, tinha errado ainda mais. Não fiz a primeira tatuagem, me falta dinheiro e nenhuma paixão à vista.

Lígia Bruni Queiroz

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