Isso, uma traça. Já já dou um Google pra saber se presta. Traça é danada, né? Bicho danado. Vê só…
Flavinha dizia pra ela mesma, tudo dentro da cabeça sem sair som, até porque o microfone tava no mudo. O fone também. Toda vez essa agonia com o bluetooth que nunca tá ligado no fone certo. Ela com as duas pernas pra cima, enrolando o cabelo no dedo na distração do mundo todo. Era reunião do trabalho, mas não tem problema não, ninguém reclama de quem entra sem câmera. Quem chamou foi Carlos Eduardo do RH, tava rolando desde de manhã, pararam pra um intervalo. Ela trocou a hora do almoço por um cochilo, levantou do jeito que deitou e nem se deu ao trabalho de passar no banheiro antes de voltar pro computador. Só ela na sala. Normal, o povo que trabalha do escritório atrasa, 17 minutos já.
…tem sempre uma traça na quina aqui do quarto. E pode ser até que eu esteja agorinha confessando um negócio meio vergonhoso publicamente – era ela mesma o próprio público. Vai que quer dizer que não estou faxinando direito. Qualquer coisa, desculpa aí, galera, mas é que a vida inteira é muita coisa. Tem dia que eu não leio, tem dia que eu como glúten, tem dia que o almoço das crianças é ruim até não poder mais, tem dia que eu esqueço de passear o cachorro e tem dia que eu faço uma faxina meio mais ou menos. Tem dia, inclusive, que isso é o mesmo dia.
Carlos Eduardo aparece na tela. Ela, com o olho fixo na parede, não vê, nem escuta. O fone que tá conectado no bolsinho pequeno do bolso maior da mochila da academia.
Antigamente eu matava. Matava mesmo. Mas, sei lá matar, né? Agora eu pego com um papelzinho e deixo na beirada da varanda. Aí fica a critério da traça. Quer se arrastar pra outro andar? Tem problema nenhum. Quer se jogar? Não aconselho, mas sabe, sei lá. Quer voltar pro 12? Faz de conta que tu tá em casa. Tem uns 6 meses só que eu não mato mais. E aí é que está. Voltar viva, dá até pra entender, essa casa é uma delicinha mesmo. Agora, voltar viva depois de morta, é um negócio meio intrigante, não é não?
Entram Cesinha do financeiro, Caio e Mario Neto de projetos. Eles gesticulam, gritam, gastam parágrafos de chat. E Flavinha, sem tirar nenhum dos dois olhos da traça, tombada na cadeira de rodinhas emprestada da empresa, uma perna no assento e a outra em cima da mesa, nua, nuazinha, câmera abertíssima, é só monólogo. Ela no palco imaginário, microfone e foco de luz. E na plateia, as vozes da cabeça atentas a concordar, discordar e levantar a mão pra fazer pergunta.
Eu matava a traça, jogava fora, e um dia, acordava, meio lenta, deitada na cama ainda, olhava pra mesma quininha, na mesma altura, que eu já calculei até qual é, na exata altura do quadro do J. Borges (Rainha do cabaré o nome do quadro), a danada tava lá de novo. Só não me dava tchau porque os bracinhos são bem pequenininhos. Oito bracinhos, 4 de cada lado, isso se a gente não tomar nenhum deles por perninha. Enfim, não dava tchau, mas eu sentia um pouco como se olhasse pra mim e dissesse, ó, voltei. Só que eu não via voltar. Entendesse? E ela é pequenininha, leva um tempo da varanda pro corredor, do corredor pro quarto, do chão do quarto pra parede na altura exatinha do quadro do J. Borges. Eu pra me mexer desse emprego, um sacrifício arretado e a traça num Ironman por dia. É de se pensar, não é não?
Ela levanta. Dá as costas pro computador. A bunda ocupa a tela toda. Linda a bunda de Flavinha. Redondinha, mas não redonda de procedimento estético, sabe? Redondinha de vida mesmo. Três pintas. Uma bem na bochecha direita da bunda; uma no exato centro do fim das costas, parece indicação em livro de anatomia, aqui é o cóccix, ó, aqui que é o cóccix; e a outra no começo, bem no começo da perna esquerda, na fronteirinha mesmo entre a bunda e a perna. Uma marca de biquíni ótima. Marca de inverno que é a mais bonita que tem, quase saindo, sem ter saído ainda. Os 4 analisando cada detalhe da bunda, tinha gente imaginando até a cor do biquíni. Ela tira a mão do cabelo, coça o pescoço. O pescoço da galera toda arrepia.
Ninguém diz, mas o único que não fixou a tela de Flavinha foi o inoperante do Mario Neto de projetos que não sabe como faz. Entre eles a polêmica: derruba-se a sala da reunião pra preservar a moça ou mantém-se pra tentar avisá-la. Vai que ela entra em reuniões maiores, a gente tem que avisar, tem que avisar. Tem que todo mundo ser forte e aguentar isso aqui. Oxe, deixar Flavinha na mão.
Já meio na certeza de que a ideia era óbvia e inclusive estava liberada, Cesinha do financeiro começou a gravar no minuto 2 do bafafá. Ninguém viu, todo mundo hipnotizado por Flavinha, pela cara plácida de Flavinha, pelos ossinhos das saboneteiras de Flavinha, pela perna hidratada de Flavinha. Ela caminha em direção ao corredor. Carlos Eduardo do RH faz o sério. Cesar, rapaz, tu tá gravando a reunião, é? Gravando? Não, imagina. Nem sei como faz pra gravar. Mario Neto de projetos com o celular na mão gravando a tela do computador, solta o celular no susto e um mano, que absurdo, olha o respeito. Carlos Eduardo volta: aperte a camerinha vermelha, por favor. Claro. Pronto. Gravei por acidente. Caio não escuta nada, concentrado acompanhando cada milímetro de movimento de Flavinha. A gravação para. Todo mundo sente pena, inclusive Carlos Eduardo do RH. Flavinha foi buscar o celular que tava carregando no corredor de frente pra porta. Eles apertam o olho, chegam pertinho da tela. Ela abaixa, destrava o celular, ri de uma mensagem. Põe a mão na barriga tamanha a risada. Galera morrendo com o movimento da barriga de Flavinha. A mão. A barriga. Ninguém nem respira. Ela lembra do Google, foi pegar o telefone pra dar Google.
O Google tá aqui dizendo que elas se alimentam de restos de pele e pêlos do corpo. A bicha tá comendo a gente – já na primeira do plural, ela e as vozes agora íntimas. Fora isso, se interessam por tecidos e papeis. Tá comendo nossos lençois, nossas roupas e nossos livros. Minha gente, olha isso, algumas espécies podem viver até 8 anos. A gente tá nesse apartamento há 4, então pode ser que a intrusa seja eu. E que ela já tenham tentado me jogar pela varanda. Ainda bem que tem tela.
Chega mensagem no WhatsApp. É Gabriela do escritório. Ô Flavinha, que reunião troncha é essa? Tô vendo Caio colado na tela, Cesinha todo suado. Tu tá online? Rapaz, tô mais ou menos. Volta lá pra ver. Minha nossa, não tavam falando nada com nada de manhã. Vou voltar. Será que vai ter corte?

