Lígia Bruni Queiroz
Aconteceu durante o passeio de bicicleta com um amigo, que vou chamar de Márcio, porque se quero me expor, problema meu, mas devo preservá-lo. Moramos na mesma rua e essa coincidência facilita tudo, da divisão do Uber nos trajetos noturnos ao convite de última hora para a pedalada de domingo.
Saímos tarde, meio-dia. Percorremos o minhocão em sentido à avenida Sumaré, sol de inverno na pele fria, céu azul, os grafites dos prédios ganhavam cor, o ziriguidum da xepa da feira ecoava lá de baixo.
Pista cheia de adultos, crianças, patins, skates, cachorros, ainda assim, seguíamos lado a lado, conversa miúda, que se avolumava conforme o giro do pedal. Era hora de enfrentar a Francisco Matarazzo, sem ciclofaixa nem ciclovia.
– Você sabe pedalar na rua?
– Não sei.
Mentira. Estou cansada de saber como se anda de bicicleta entre os carros, porém, na prática, tenho sentido cada vez mais medo. Admitir minha vulnerabilidade me pareceu honesto. Queria que ele me ensinasse e me ensinado me protegia dos carros, de um possível acidente e do medo de morrer atropelada.
– Vamos pela faixa da direita, mas não no cantinho, assim não te jogam pra calçada.
– Assim, pelo meio?
– Isso! Os carros ficam irritados, mas eles sabem que hoje tem muita bicicleta na rua. O que você não pode é ficar acuada.
– Tá bom. Vou tentar.
Nossa amizade é dessas de falar sobre os relacionamentos amorosos e o que fazemos diante das urgências da vida, como as maluquices dos nossos pais, as pesquisas de pós-graduação e essa junção tão improvável entre medicina e literatura.
Naquele domingo, o certo mesmo era discutir sobre o atentado do Trump e suas implicações para o fortalecimento da extrema direita no mundo e em nosso país; também sobre o jogo do Palmeiras contra o Cruzeiro no próximo sábado, no Palestra Itália. Não me acostumo com a ideia de que o Palestra virou Allianz.
Gostamos mesmo é de compartilhar nossos equívocos, as ruínas e os tropeços de cada experiência amorosa.
– E você, como tá?
– Tudo bem. Na verdade, com uma saudade gigante dos meus filhos. Eles voltam hoje, depois de quinze dias com o pai. Você não imagina como é isso, chega a doer. Hoje cedo, preparando o café da manhã, me imaginava com eles aninhadinha, sabe?
– Sim, sei bem. Quando eu namorava a Lia, os feriados eram na casa da mãe dela. Sabe aquela matriarca que acorda feliz, sorrindo, prepara um baita café da manhã, a família toda na mesa… todos lavando a louça… no começo é divertido, mas mano, depois de uns dias, eu só queria tomar um café pretinho num canto e ler meu Saramago na rede… nossa eu me sentia na boca do jacaré.
– Sim, sei bem.
– Eu gosto dela. Quer dizer, gostava… gosto… sei lá…
– O tempo verbal é no presente mesmo, sempre fala dela com tanto carinho.
– Sim, sim. Agora cuidado aí, vamos atravessar para pegar a Sumaré. Espera o farol abrir.
Fiquei agarrada na imagem da boca do jacaré. Esse lugar mortífero, prestes a ser devorada.
Eu, que nunca vi um jacaré de perto, estava lá, repousando minhas costas na língua gelada, sentindo o bafo de réptil que come bicho vivo, com os olhos no céu da boca, sentindo seus dentes agudos, até o instante dele fechar a mandíbula de toneladas pré-históricas e fim.
Faz um ano e meio da minha fratura de cóccix num acidente besta de bicicleta, chega de devaneios, preciso me concentrar no percurso.
Márcio quer saber de mim. Fica preocupado com minhas confusões.
– E como foi a viagem com João? Vocês se entenderam?
– Foi gostoso, o lugar é lindo, ficamos bem. Mas no final, já estava cansada. Voltamos um dia antes até… falei isso pra ele… qualquer formato que lembre casamento, me arrepia a espinha.
– Sim… com certeza. Mesmo um feriadinho? E eu querendo tanto isso…
– Etapas da vida, meu amigo, essa eu quero bem longe… sabe aquilo de negociar a louça pra lavar? Nossa senhora… a boca do jacaré…
Márcio dá uma risada gostosa… adoro quando ele sorri assim, deu para escutar de pertinho, mesmo eu estando um tanto na frente.
– E você? Como foi o date ontem?
– Foi massa, nossa que mulher!!!!!
– Eu vi… na foto que você mandou… linda ela!!
– Ela é muito poderosa. Uma mulher negra, da perifa, mais nova do que eu, juíza federal.
– Caramba, Márcio… juíza federal, te cuida, hein? Bonito isso!
– Muito!!! Ela é toda determinada, precisa de ver!
– Imagino.
– Nesse ponto ela é muito diferente de mim.
– Como assim?
– Ah, ela faz as coisas de maneira pragmática, passou na San Fran, estudou latim sete anos, morou na Itália para estudar direito civil, fez mestrado, está fazendo doutorado e passou no concurso para juíza federal… ela é focada na carreira, uai!
– E você, não? Fez escola pública, filho de mãe solo, faculdade na casa de Arnaldo, mestrado na USP, fazendo Filosofia na FFLCH, indo pro doutorado, todo planejadinho.
– Verdade. Nunca pensei dessa maneira… me acho tão caótico…
– Pois é…. a gente se acha caótico, mas somos bem organizadinhos… e onde você a conheceu?
– Aplicativo.
– Hummm…
– Aliás, tô todo enrolado, entrei nessas de aplicativo, falando com umas cinco pessoas ao mesmo tempo, uma bagunça.
– Bumble?
– Sim.
– Morro de medo de aplicativo.
– Sério? Por quê? Nunca entrou?
– Nunca. Tenho quase dez anos a mais que você, rapaz!
– Nada a ver isso da idade, tem muita gente mais velha…
– Eu sei… desculpa esfarrapada, né? É que você não faz consultório, não atende adolescentes… tá bom te conto meu medo, tenho uma fantasia de que vou encontrar os pais dos meus pacientes… acho estranho…
De novo aquela risada gostosa.
– Sim… e no caso não é só fantasia, pode encontrar vários mesmo.
– Pois é…
– A Mi tem um monte de história sobre dates… é muito engraçado, não sei se devo contar, ela podia fazer um podcast sobre isso.
– Agora conta, vai.
– Cuidado aí. Vamos pelo posto e atravessamos na faixa para pegar a ciclovia.
– Tá bom! Nossa, que calor com essa calça legging preta, devia ter colocado uma bermuda.
O sol esquentava o domingo de inverno e aquele passeio com o Márcio era o próprio toco na boca do jacaré, impedindo a mordida final.
Eu sentia um alívio de pedalar com ele, alguém atrás de mim, protegendo meu cóccix avariado, um amigo mais jovem e não menos cuidadoso. Tenho sentido medo de me acidentar, de morrer, um estado perene de consciência da fragilidade do corpo e da alma.
Estava curiosa pelas histórias da Mi, nos conhecemos recentemente, pelo Márcio, uma menina do interior, linda, doce e inteligente; vinte e tantos anos, vivendo os relacionamentos de maneira tão diferente de quando eu tinha a mesma idade.
Tenho me esforço para entender o que os jovens chamam de relações não monogâmicas com responsabilidade afetiva. Eu me sinto jovem, nunca desisti de brincar e me divertir, ainda que a cada dia, a cada mês, a cada ano eu me distancie das novas gerações, sobretudo nas experiências amorosas.
– Ela saiu com um moço… eu lembrei dessa história porque conversamos outro dia sobre os cheiros, lembra, que você comentou que achava estranho sair com alguém que ainda não tinha sentido nem o cheiro?
– Hum hum, sim. Muito importante isso.
– Então, a Mi estava num date com um homem e ele cheirava forte. Ela foi se dando conta de que era cheiro de conserva. A pessoa cheirava a conserva!! Chegando na casa dele, adivinha?
– Ahhh, não faço ideia.
– Ele produzia e vendia alimentos em conserva, era o trabalho dele, a casa inteira cheirando e abarrotada de potes de conserva…
– Gente… o homem picles… imagina o sexo… muito bom!!
– Sim! Tem outras histórias também, depois ela te conta pessoalmente. Ah, essa é boa, um dia, um deles tomou viagra antes do encontro e desmaiou durante a transa.
– Tadinha, teve que fazer reanimação? Que situação… eu preciso me atualizar em reanimação antes de entrar no aplicativo, então?
– Sim… ela ficou tensa, em cima, reanimando a pessoa.
– Coitada.
– Pena que você não vai ao teatro com a gente hoje.
– Pena mesmo, meus filhos chegam, eu expliquei pra ela… e o que você tá lendo?
– Terminei de reler o Evangelho. Muito bom.
– É incrível mesmo. Memorial do convento e o Evangelho são os meus preferidos do Saramago.
– E você?
– Estou lendo A Odisseia de Penélope, da Atwood. Tão divertido! Penélope, depois de morta, nos campos elísios, narrando sua versão da história.
– Olha, fiquei curioso.
– Tantos mil anos nos separam de Homero e seguimos compartilhando nossa Odisseia em torno dos pretendentes, não é?
– Sim… eita…olha a hora… vamos voltando?
– Vamos. Dá tempo de tomar uma água de coco? Cansada de segurar o toco na boca do jacaré.
