Palo santo, alfazema e Esmeraldina

Roberto Efrem Filho

“Ori, ori, minha cigana Esmeraldina, este homem diante de nós sofre. Ori, ori, oriê, bela cigana, peço sua licença para trilhar os mistérios da amargura que consome este homem e derrota sua fé. Ori, ori, oriô, querida cigana, permita-me conhecer as veredas dos arcanos e alcançar a verdade que lhe escapa”. Elisabete parte o baralho e, enquanto puxa a primeira carta, arregala os olhos já marcados pelo lápis preto e expandidos pelos cílios postiços. “Você vê O Enforcado, Aparício. É o décimo segundo entre os arcanos maiores. Neste momento, a espiritualidade nos alerta – mas preste bastante atenção, Aparício – que sua dor pertence às primeiras dores da humanidade, tão antiga quanto a maçã de Eva ou o ciúme de Adão”.

A fumaça do palo santo queimado toma de penumbra a pequena sala do apartamento. Aparício inteiro transpira e converge seu corpo para a imagem do tarô. Um rapaz pendurado pelo pé, de cabeça para baixo, esconde as mãos amarradas às costas. Ali resta, Aparício acredita, a razão que procura. “Você está preso, meu bom amigo, num beco sem saída. Não há norte ou sul, não há leste ou oeste para o que você sente e espera. A sua vida não sopra, Aparício, ela não prospera. É fogo morto em engenho velho de cana-de-açúcar que esqueceu como moer”. Elisabete acende o Hollywood exibindo as unhas feitas. O esmalte vermelho Gabriela anima as luzinhas do pisca-pisca do outro lado da janela, nas marquises da Conde da Boa Vista. É 20 de dezembro de 1983. Na nuvem do palo santo, o cheiro do cigarro se mistura ao frescor da alfazema e Elisabete se pergunta, silente, que merda fez do seu destino para, aos 50 anos, precisar lidar com as frescuras de Aparício Siqueira na semana do Natal.

Quinze dias atrás, ele a encontrou na porta do elevador de serviço. “Elisabete, querida, será que eu poderia contar com seus préstimos novamente? Você teria um horário para mim nesta semana? Ando nuns dias de cão…”. Ela carregava as sacolas do Bompreço para dentro do elevador. Era a feira do mês que trouxera num táxi bancado pelo mesmo cliente que pagou as compras. O cabelo posto em coque alto, alguns fios despenteados caídos na nuca molhada, o vestidinho de tafetá verão empapado, Elisabete suava, Elisabete irritava-se, Elisabete detestava as horas despendidas nos corredores do supermercado, seus frequentadores apontando-a sem piedade, revezando-se em risadinhas, comentários e olhadelas.

“Aparício, amorzinho, é final de ano, nesta época a demanda cresce demais, você sabe, todos querem banho espiritual para renovação de energias. Não prefere deixar para janeiro?”. Aparício Siqueira, porém, era senhor de uma vontade irrefreável, dificílima de dobrar ou retroceder. Segurando a porta do elevador de serviço, argumentou que sofria como nunca desde que Otávio pegou o dinheiro, desapareceu e parou de atender às suas ligações telefônicas às quintas-feiras. Na última vez, um homem respondeu ao telefone que nenhum Otávio morava naquela casa de família, muito menos um Otávio que cursasse o técnico em eletromecânica. Aparício se desolava, era um mulambo insone pelas noites do Recife. Gastava madrugadas intermitentes na boate Misty, na esperança de rever Otávio onde o conheceu. Faltava às aulas na Universidade Católica, atrasava a coluna para o jornal. Sequer sobre a morte de Janete Clair conseguiu escrever, por mais que o comovesse. Aparício não reconhecia a si próprio naquele estado de penúria, apenas Elisabete poderia ajudá-lo a se reencontrar. “Muito bem, amorzinho, arrumo um horário para você. Te falo”.

Desde então, não houve dia em que o interfone da kitnet de Elisabete não disparasse, movido pela aflição de Aparício do outro lado da fiação, cinco andares acima. Elisabete passou a alternar pequenas desculpas a justificativas por incapacidade de saúde. Ressentia-se de uma dor nos quartos que a deixava de cama. “Deve ser os rins”, ela explicava a Aparício, mas de fato atribuía o problema ao peso do silicone que carregava nos seios, importados e muito bem pagos por Adalberto um par de décadas após ele trazê-la, mocinha, de Gameleira para o Recife. “Quero você toda durinha, minha joia”. Aparício, claro, insistia. “Elisabete, querida, já não consigo. E estou começando a achar que nem você me quer, minha amiga”.

Ela não o queria. Elisabete conhecia Aparício desde menina. Aparício montadinho a cavalo, franguinha empertigada desde muito nova, passeando com o pai e o irmão caçula pelos engenhos da Mata Sul. Cumprimentavam, um a um, os moradores da vila de posseiros em que a família de Elisabete vivia, todos, inclusive ela, entregando seus dias à cana-de-açúcar e à usina da família Siqueira. Depois do ritual anual de cordialidade – que, todos entendiam, servia sobretudo ao controle da produção dos trabalhadores rurais –, pai e filhos sentavam-se no terraço da casa grande, ladeados por três ou quatro jagunços armados, para recolher o dinheiro do foro e verificar a assiduidade de cada família nos canaviais. Sob mando, pais, irmãos e vizinhos de Elisabete trabalhavam de graça no plantio, na queima, no corte e na moagem, fazendo a roda da fortuna dos Siqueira girar reluzente às custas do cansaço e da cachaça daquela gente.

Se Elisabete não queria Aparício, motivo não lhe faltava. É que mesmo depois da queda do corcel dourado, quando o pai obteve provas incontornáveis das inclinações do primogênito e resolveu afastá-lo do núcleo familiar e da gestão do seu patrimônio, Aparício não abriu mão da aura de aristocrata. Manteve os trejeitos da longa mesa de cedro, com seus dose lugares, as toalhas brancas de renda Renascença sobre as quais se dispunha talheres de prata e a louça de porcelana portuguesa gravada com fragatas e gaivotas. Aparício jamais abandonou as cristaleiras de sua origem. Embora ele sobreviva dos seus trabalhos como professor e jornalista e, evidente, da posição social que conseguiu preservar, Elisabete sempre o enxerga equilibrando-se penso numa sala apinhada de cristais, às vésperas de sucumbir e derrubar o delicado palácio em que se instala, com sua fala empolada e seu fato de lapela. Ela não carece do tarô ou da cigana Esmeraldina para desvelar os horizontes de Aparício. São tristes, cingidos a um passado rígido, cravado indelével em açúcar, cristal e cedro.

“Aparício, amorzinho, que acha da próxima terça-feira? Isso, isso, dia 20. Um cliente antigo que costumo ver nas noites da terça telefonou hoje cedo para dizer que viajará com a família para a praia e, por isso, não virá. Você desce aqui depois do Jornal Nacional, pode ser? É o tempo de eu me preparar para lhe receber”. A verdade é que Elisabete não dizia “não”. Relutasse como fosse, não negava os pedidos de Aparício ou de qualquer homem ou mulher disposto a lhe fazer um agrado. Lembrava-se perfeitamente: aprendera a somente dizer “sim” com Adalberto, no final dos anos 1940. Desembargador do Tribunal de Justiça de Pernambuco, Adalberto Cavalcanti, sua esposa e seus três filhos eram visita habitual na casa grande dos Siqueira. Pertenciam de algum modo à parentela da mãe de Aparício e, Elisabete entenderia anos depois, Adalberto colaborava regularmente na solução das contendas judiciais de seus generosos anfitriões.

Na primeira ocasião em que estendeu os olhos sobre Elisabete, Adalberto montava a cavalo durante um dos passeios patronais. Ela tinha 16 anos, ajudava no cuidado dos cavalos dos Siqueira e se sentiu completa nos dentes e na saliva do homem que a encarava. Duas noites após, naquele verão de 1949, Adalberto a abordou na cocheira. A casa grande se recolhia para a ceia, ele havia-se lembrado contudo do relógio que, em descuido calculado, esquecera no alforje. Ali mesmo, entre os animais, Adalberto impôs seu corpo contra o de Elisabete e, enquanto fazia descer os dedos da mão esquerda pelo interior das suas nádegas, disse-lhe ao pé do ouvido “Todo sim que você me disser será sua felicidade, e sua felicidade é minha ousadia”. Passado ano e meio, Adalberto voltou à fazenda e, novamente entre os animais, informou a Elisabete que montara casa para ela no centro do Recife. “Você não precisa trabalhar, minha joia. Estudará e me aguardará, nada mais”. Com uma semana e um punhado de cruzeiros entregues por seu amante, Elisabete arrumou uma trouxa de roupa e, sem se despedir dos pais ou dos irmãos, tomou o trem para o Recife.

“Boa noite, amorzinho, sinta-se à vontade. Estou queimando o palo santo, você sabe, para purificar os ares e acolher a espiritualidade da melhor maneira. Você percebe a alfazema, querido? É importante. Sente-se e respire profundamente”. Quando Aparício bateu à sua porta, Elisabete ainda estava de camisola, largada no sofá, absorta pelas vozes de Cid Moreira e Sérgio Chapelin e pela notícia de que a taça da Copa do Mundo de 1970 havia sido roubada do prédio da Confederação Brasileira de Futebol, no Rio de Janeiro. Elisabete não costumava pensar em futebol, mas a notícia do roubo materializara a imagem de Adalberto, sentado com ela naquele mesmo sofá, assistindo aos jogos no aparelho de televisão que ele comprara como presente por seu aniversário de 37 anos. “Só um minuto, Aparício!”. As batidas na porta confundiram seu senso de realidade e a fizeram saltar do sofá em direção à cômoda, de onde tirou um quimono de seda chinesa, que logo vestiu para acertar o batom e o tanto de ruge que compete a uma senhora da sociedade recifense. Virou a chave, abriu a porta e sorriu cordial para Aparício.

“Fale, amorzinho: o que lhe aflige?”. Elisabete estudou tarô em um curso por correspondência que convenceu Adalberto a contratar. Muito a contragosto, ele aceitou satisfazer mais este desejo de sua joia porque, afinal, também só sabia dizer-lhe “sim”. Além do mais, ela arguia conclusiva que haveria de ter uma profissão, um meio de ganhar a vida quando ele já não estivesse mais a seu lado. “Taróloga, Adalberto. Eu serei taróloga”. Velho, mas consciente arguto do mundo a seu redor, Adalberto acompanhava, sem que ela imaginasse, as crescentes visitas de Elisabete ao Chanteclair e aos prostíbulos que ele próprio a apresentara, quando buscavam ampliar suas experiências com os homens e as mulheres por que ambos se interessavam. Aquelas visitas agora traziam-na prendas, justificavam a reforma no banheiro e os vestidos que se avolumavam no guarda-roupas. Adalberto fingia desconhecer de onde vinha o dinheiro e se arregaçava de desejo no instante em que, pondo-se eles dentro um do outro, falava-lhe baixinho “uma puta, minha joia. Você é uma puta”.

Aparício não consegue descrever com clareza o que lhe aflige. Sucede nome atrás de nome, menciona Otávio e a absurda falência de seus anseios, até que recua às aulas que não ministra, à coluna que não escreve, à mãe a quem não telefona. Suas mãos movem as pedras de quartzo verde e branco sobre a mesinha redonda a que Elisabete senta, ao contrário das cartas do baralho. Ele fita O Enforcado, mas o rapaz de cabeça para baixo parece fazer pouco do que Aparício relata. “Elisabete, querida, talvez eu só precise saber se Otávio voltará”. Elisabete se impacienta, é como se Aparício não houvesse entendido palavra do que ela lhe dissera. As cartas, a espiritualidade, a cigana Esmeraldina não bastavam a Aparício. Ele não discernia através de Otávio, como se o jovem por quem se apaixonara consistisse numa barreira opaca ao seu futuro.

“Amorzinho, quem falará agora a você sou eu”. Elisabete corrige a posição do quimono, ajusta os seios no sutiã meia-taça. “Aparício, eu conheço o rapaz que você chama de Otávio”. Ela vê o homem a sua frente tremer ante a possibilidade de haver amado alguém cujo nome desconhece. “Eu sinceramente não sei se é assim que ele se chama. Duvido muito, mas em que isso importa, Aparício? Adalberto e eu vivemos mais de três décadas juntos e em todo esse tempo eu confiava que ele não conhecia outro nome além deste que ele próprio me deu. ‘Elisabete’. Confesso que gostei porque, afinal, havia a rainha, mas eu preferia mesmo era ‘Bianca’, ‘Samanta’, ‘Vitória’. Agora veja, somente em 1973, quando Adalberto amanheceu morto de mal súbito nesta cama atrás de você, e eu precisei entrar em contato com a esposa dele para comunicar a morte, foi que eu soube que ele não só sabia o meu outro nome, como o tinha registrado no cartório, por causa deste apartamento. Ele fez mais, Aparício. Adalberto escreveu o meu outro nome no seu testamento, isso para o desespero daqueles três filhos dos infernos que foram obrigados a ver parte da herança ser transferida para a minha conta no Banco do Brasil. Chamaram até advogado para tentar desfazer a vontade do pai. Acabou que desistiram porque imagine o escândalo, Aparício, eu entrando belíssima na sala de audiência para explicar ao juiz que sim, eu era a concubina do Desembargador Adalberto Cavalcanti”.

Aparício escutava atônito o que ela lhe contava. Para ele, não era novidade a relação entre Elisabete e Adalberto, de que tinha notícias, em tom de fofoca, desde que cursava jornalismo e começara a conviver nos círculos de entendidos na cidade. À boca miúda, dizia-se que o desembargador Adalberto Cavalcanti mantinha uma senhora de origem duvidosa numa casa no centro do Recife, casa esta que, uma década atrás, tornar-se-ia o apartamento do Edifício Módulo, alguns andares abaixo da kitnet que Aparício pôde comprar com o que restou para si da herança do seu pai. A mulher em questão era Elisabete, quem Adalberto o apresentara num encontro ocasional de elevador, logo após perguntar pela saúde de Dona Ofélia, a sua mãe. O que surpreendia Aparício, no entanto, era a decisão de Adalberto de, depois de morto e enterrado, reconhecer o seu relacionamento com aquela mulher, estampando-o em documentos que seriam lidos e odiados por sua esposa e seus filhos, notoriamente intratáveis, Aparício sabia bem.

“Pois, o rapaz que você chama de Otávio foi assíduo na zona e, diferente do que acordou com você, ele saía com outros homens. Posso fazer uma pequena lista das bichas velhas que o buscavam, se você quiser. Realmente, faz mais de mês que ele sumiu. No dia em que você me encurralou no elevador de serviço, exausta de supermercado, eu fiz uns telefonemas e ouvi de todos a quem perguntei que o moço não aparecia há semanas. Na última noite em que deu as caras, ele estava morto de contente e alardeava aos quatro cantos que o dinheiro de Aparício Siqueira era a sua alforria”. Aparício para de tremer. Em seu rosto, uma dúzia de lágrimas refletem os piscas-piscas da marquises da Conde da Boa Vista e a ponta do segundo Hollywood que Elisabete acendeu. Aparício, porém, não reage exatamente ao que Elisabete revela. É que atrás dela, próximo à luminária, está Adalberto. Aparício o vê, não o senhor que faleceu nos anos 1970, e sim o homem garboso que cavalgava na companhia de seu pai. Enfrentando o olhar de Aparício, Adalberto implora, precisa pedir desculpas à sua joia, desculpas por apenas haver tido coragem a postos de morrer.

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