Pontas soltas

1.

A sua mesa tem um cheiro estranho, disse, emendando um beijo na minha boca. Gostei dele, deve ser artista, mais um na flora, fauna e primavera daquele local, um homem vestido na moda (ou não), clamando atenção ao se queixar de uma mesa de centro, de tampo espelhado, que jamais faria meu gosto, pertencia somente ao cenário de uma festa, da qual eu nem havia sido convidada, entrei como acompanhante da Sheila, muy amiga, me carrega junto porque detesta chegar sozinha, no primeiro passo porta adentro, some. Mas a mesa tem cheiro de quê, mesmo? Ruim, melhor, Xuim, respondeu, me baralhando se a afetação na pronúncia arriscava um espanhol duvidoso, ou se o tipo sofria de problemas na dicção. Sob os escombros dos quatro zaps ignorados por Sheila, eu divisava uma coragem barra preguiça para me levantar dali, e sumir, quando vi aquele ser humano de pele laranja, de quem exagera no betacaroteno, e cabelo bagunçado, franja incluída, um corte chamado parece-que-uma-criança-cortou-mas-custou-caro-para-caceta, vir, em um catwalk furioso, bem na minha direção, e que, após um pivô de dois tempos, desabou no mesmo sofá onde eu me afundava, com direito a bundada de chega para lá e espreguiçamento de braços. Finda a primeira parte da performance para a plateia de uma pessoa só, no caso, eu, ele, agora de pé, dobrou a coluna em direção à mesa de centro, e ficou, todo alongado, a admirar a própria beleza, até o vidro espelhado embaçar com a respiração, e de volta ao sofá, cabeça espertamente tombada no meu ombro, balbuciou, com a entonação professoral de quem lê a primeira frase de uma fábula: a sua mesa tem um cheiro estranho. E emendou um beijo na minha boca. Foi assim que conheci Giulianno.

2.

Há mais de um ano, em toda volta e toda ida, de e para qualquer lugar que seja, eu altero o caminho e passo pela rua do Pedro. Luz acesa no apartamento. Primeiro andar no nível do térreo, janelona lateral, dá ver tudo. Pelo TikTok da filha sei que a menina está com a mãe. Escrevo um olá, estou aqui, sem resposta, Pedro não atende quando telefono. Última vez conectado no whats 15:02, dez horas atrás. Deve ter tomado uma dose cavalar do remédio para a dor. Merda de doença.  

3.

Meio-dia em ponto recebo a mensagem: não gosto de atrasos. Reparo com raiva a miséria do entorno, um resto de fim de mundo onde toda segunda-feira meu carro vira um origami nas vielas estreitas e esburacadas. Ao estacionar, quase atropelei uma galinha. É normal ganhar bem e morar neste bairro espelunca? Cheguei, coração, cléc, o portão abre. Sebastião me espera no alto da escada, fumando, nervoso. Diferente da semana passada, o apartamento está um brinco, não há um fio de cabelo boiando no sofá. A novidade é uma gravura valorizada por um passe-partout gigante, ocupando a parede órfã de televisão. Não preciso de muito para notar seu cansaço, nos dias de exaustão ele aparenta mais que 46 anos, menos que 1,68, encasqueta com sua barriga saliente e demora para conectar minha playlist na sua coluna de som. 

Desta vez eu trouxe a minha.
Você pensa em tudo, menina?
Às vezes não penso.

Nosso diálogo para aí. Beijando meu colo desabotoa meu vestido, nosso combinado não contempla beijo na boca. Desce o zíper da calça, passo minha minha mão na braguilha aberta e sinto que toco em um rato morto e mole. Vamos para a cama, menina. Fecho as cortinas do quarto. Hoje não quero vizinho espiando. 

Sebastião continua tenso, alega ter comprado preservativo de outra marca, menor. Imagino que deva ser complicado se desligar de todos os erros que coleciona na agência em que trabalha. Melhor tirar isso, é tudo que consigo dizer. Giro seu tronco, o deito de barriga para baixo, meto meus dedos em um cafuné nos cabelos, depois pelas costas, pele lisa, sem cicatrizes, estrias ou pelos. Um bebê. Sebastião acende outro cigarro, eu ponho o vestido e a meia calça. Sem jeito, diz que não sabe se dará jeito estar comigo na próxima segunda-feira. Se puder, de certo estarei aqui. A despedida é rápida, dois beijinhos no rosto e desço as escadas levando algo a menos do que havia em mim quando entrei. Mais cedo, é possível? ele pergunta da janela. Claro, adoro manhãs.

4.

Pedro me telefona, voz grogue, quase inaudível. Aviso que estou entrando no Ikea, precisa de algo? Ele desliga e envia um texto de letras trocadas, que decifro como sendo cabides e almôndegas. Aborto a missão de renovar minha roupa de cama, passo no caixa somente o que ele pede e voo para sua casa. Sou recebida com um baita abraço, uma força tirada sabe-se lá de onde. 

5.

Que apartamento divino! Giulianno mexe em tudo, troca os objetos de lugar, pergunta quanto custou o prato japonês na parede. No caldeirão do seu delírio, fala sem reservas da mesma forma que não me escuta, ou escuta sem disfarçar o desinteresse. Até pede uma opinião sobre algo, claro, relacionado a ele, e na ânsia de falar, opina e atropela a própria pergunta. Aceita uma taça de vinho, toma quase a garrafa toda, ignora as nozes e castanhas, saca da mochila um pacote de Doritos, que não me oferece, e come, contando sua breve carreira de ginasta, cancelada por uma lesão no joelho, tenho as medalhas ainda, qualquer hora te mostro, está calor aqui, tem ar-condicionado? Diante da negativa, me beija e menciona a vontade de tirar a roupa. À vontade! Giulianno desata o nó do cinto e deixa cair o quimono (sim, ele vestia um quimono azul, acetinado, sem cueca­) e na mais absoluta indiferença da portentosa nudez, gesticula imitando o tédio de uma comissária de bordo que comunica antes de cada decolagem as regras de segurança do voo: atenção, braços retos com as mãos apoiadas no chão, na direção dos ombros, pernas retas e unidas, impulso, força, levanta, eu faço a parada de mão perfeita, duvida? Duvidei eu, que estivesse ali, a ver aquela cena, na minha casa, um adulto momentaneamente calado, plantando bananeira, pelado, suado no esforço de aguentar muito tempo, e se deliciando, de cabeça para baixo, a ver minha reação diante do bilau pendurado. Ao levantar, soltou um grito, e eu, recuperada da desorientação inicial, e inflamada, abri e fechei a porta sem a menor cerimônia, querido, acho que está na hora de você ir embora, me poupando de uma operação de guerra caso Giulianno vomitasse no tapete da minha sala.

6.

Pedro tomou a quarta dose do Ocrevus, e seu neurologista acha considerável a recuperação de alguma mobilidade. Quando estamos juntos, gosta que eu redija seus e-mails, brinca que eu sou a guru da escrita. Para ele é suposta a precisão das palavras, por medo delas já não mais poderem serem ditas.

7.

Sebastião me angustia quando marca comigo em um café. Nos conhecemos há quatro meses, em um bar, transamos naquele sábado mesmo, emendamos domingo e segunda, e sua agenda maluca só permitiu nosso próximo date na outra segunda, hora do almoço. Química ativada, combinado semanal estabelecido e algumas vezes cancelado, nunca mais o encontrei em nenhum outro local que não fosse sua cama. Será que o sexo garantido, sem delongas ou cobranças, subiu no telhado na primeira broxadaNa apatia da oratória, abreviei a DR da chatice, calma, está tudo certo, e Sebastião insistindo no blábláblá da vergonha e pior, de eu ser mais importante para ele do que suponho ser. Afirmo que ele me desvia do bom caminho, apenas, e que o maior exercício da autocrítica é saber esperar. A frase clichê de auto-ajuda barata abre espaço para um silêncio confessional, com todos os medos que isso implica. 

Sebastião, Pedro não é meu namorado, mas é como se fosse.
Pedro quem?

E desando contar a epopéia sobre Pedro. De como nos conhecemos, no Centro de Reabilitação Física, eu, a checar um formigamento contínuo nas pernas, paralisada diante do homem mais bonito do mundo, rosto forte, mandíbula definida, olhos de um verde impossível, camiseta regata, na ala da fisioterapia, um corpo inteiro tatuado diagnosticado com esclerose múltipla. Que pela primeira vez na vida acreditei no destino, e seis meses depois foi a vez do destino não acreditar em mim, quando a piora de Pedro veio a galope. 

E o que o Pedro acha disso, menina?
Ele me ama.

8.

Dando corda ao entusiasmo atrevido da criatura, e sem criar expectativas maiores, com os dois pés na realidade, convidei Giulianno para dormir na minha casa. A escolha do verbo dormir suavizou o trepar, caso ele não percebesse minha intenção sexual. Giulianno veio na hora, saiu dois dias depois. Talvez por sua sensibilidade e atributos intelectuais se mostrarem mais visíveis, ou pela minha carência que distribuía largos descontos, rir das bobagens dele, e transar, uma, duas, três, quatro vezes, depois dormir de conchinha, me fez um bem danado.

9.

Comprei para Pedro um trenzinho elétrico. Sem destreza manual para o encaixe das peças, pediu-me que montasse os trilhos no meio da sala. A aceitação é meio caminho para que eu viva melhor. Qual é a outra parte desse meio caminho? A gratidão, confidencia. Estranho, ele detesta esse termo, gratidão, porque nunca espera muito das pessoas. Pedro adormece vendo um filme bobo, dublado. Retiro o cachecol do seu pescoço, ajeito ele na cama. Mariana, a filha adolescente, chega, conversamos um pouco, e vou embora. Em casa, embalando no sono, me vem à cabeça uma frase, que anoto, para não esquecer: o relacionamento ideal sempre deixa pontas soltas, porque a vida não tem uma conclusão.

(Glaucia Faria)

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