Num hotel de quinta sem janela? Sua maquiagem derreteu porque também não tem ar-condicionado? Que mal te pergunte o que você foi fazer aí? Como você não sabe? Não sei onde você vai fazer xixi se está com nojo de entrar no banheiro, fecha os olhos para não ver a imundice. Não tem nada aí que dê para usar como penico? Não briga comigo e não chora, Maria Eduarda. Já entendi que você não se lembra de nada mas aí é tão ruim como você está dizendo? Pulgas? Quantas mordidas? Umas cem? Não exagera, ninguém se coça desse jeito. Deita um pouco e tenta relaxar. Eu sei que você está faminta e não trouxeram o café da manhã. Lógico que não é comigo. Quem toma remédio para dormir é você, quem fica sonâmbula no meio da madrugada é você. Não grita, já sei que o telefone do quarto está desligado e não dá para ligar na recepção. Você deve ter exagerado na dose do remédio, sua voz continua pastosa. Ah, você tomou todas as cervejas do frigobar e agora vai liquidar as garrafinhas de uísques mesmo sabendo que só tem Drurys? Uma perguntinha, caso você saia daí, como você vai pagar tudo isso? Você está falida, lembra? Seus cartões estão bloqueados. Vai se matar de novo? Todo dia você se mata. Resolve isso, Maria Eduarda. O problema é que eu sou muito feliz? E dá para ser feliz com você me ligando a cada duas horas? Vou repetir, não sei como vou te tirar daí. Já esmurrou a porta para ver se aparece alguém? Quebrou as unhas? São de gel, Maria Eduarda, não dói, não inventa. Como assim, eu fiquei com inveja da sua harmonização facial e agora quero te castigar? Tudo isso porque você ficou parecendo mais nova do que eu? Maria Eduarda, você já olhou a pele do seu pescoço? É de galinha velha, a minha também mas eu não tenho problema com isso. Em vez de ficar tendo um ataque histérico, por que você não rastreia o seu celular? O quê? Como assim? Mostra que você está no zoológico? É no cercadinho do hipopótamo? Vou parar de brincar, prometo, mas só se você falar mais baixo, sua voz é irritante. Olhou se tem algum hotel perto do zoológico? Achou uma clínica psiquiatra? Esquece, não tem frigobar numa clínica psiquiátrica. Tenta lembrar de alguma coisa, Maria Eduarda. Não estou entendendo nada do que você está falando. Se fosse para te esquartejar, já teriam te esquartejado. Galinha que vai ser abatida não passa férias no poleiro, tenha a santa paciência. Está bem, não vou chamar mais você de galinha. Estou ficando surda de tanto que você grita. Espera um pouco, meu celular está tocando, é uma outra ligação. Já volto, não desliga.
Você não sabe o que aconteceu, é uma tragédia e tanto. Quer dizer, uma coisa maravilhosa. A tia Marocas acabou de morrer. Querem que a gente vá para lá o mais depressa possível. Como você não sabe quem é? A irmã do papai, Maria Eduarda. Ela morava na Vieira Souto, riquíssima. Vão mandar o dinheiro das passagens, a reunião com o inventariante vai ser hoje à tarde. Ainda não lembrou da cara da tia Marocas? Sabe aquela vez que a gente foi para o Rio, ainda éramos crianças e em vez de pegar o bondinho para ir no Cristo Redentor, subimos de táxi com um motorista louco que quase caiu no precipício? Você ficou com raiva e acabou mordendo o braço da tia Marocas. Não, não foi uma mordida qualquer, ela teve que levar vinte pontos, um para cada dentinho de leite. Tudo bem que a gente quase morreu só porque a titia quis economizar uns dez reais, mas depois disso nunca mais fomos convidadas para passar as férias em Ipanema. Imagina o quanto ela economizou nesses anos todos. Eles vão dividir as joias e os quadros hoje. Acho que a tia Marocas tinha uma Tarsila. Quem é a Tarsila? Ninguém muito importante, uma amiga da titia, deixa para lá. Pelo que entendi, além de nós duas, tem o primo Olavinho e só. Quem é o primo Olavinho? Você fez preenchimento labial no cérebro, Maria Eduarda? Nunca se lembra de nada. Ele está vindo do interior do Acre. Você tacou fogo na roupa dele numa festa junina. Se todo mundo da família te odeia? Quer mesmo que eu responda? Mamãe gostava de você. Mas ela era pobre? Claro, você ajudou a torrar o dinheiro dela, Maria Eduarda. De qualquer maneira chamaram nós duas. Se eu e o primo Olavinho vamos te passar a perna? Imagina, de jeito nenhum, você é a nossa caçulinha querida, lembra? Não me xinga, Maria Eduarda. Já disse, não tenho como te tirar daí, não sei onde você está. Sua bateria está acabando? Por favor, Maria Eduarda, não chora, assim você acaba partindo o meu coração.
