Acordo em um apartamento que não é meu. Não somente não é meu como não faço a menor ideia de quem seja o proprietário. Isso se esse pardieiro tiver dono. Menor que uma quitinete, maior que um estábulo, sem água ou luz, tudo é um grande nada cheio de horror, igual meu raciocínio. O que acontece? Boa pergunta. Pegadinha? Duvido que meus amigos sequelados tenham competência para tal logística. Abdução? Credo. Sequestro? De uma anônima devedora? Piada. Revanche talvez seja o termo plausível, mas não elejo um motivo, ou um mandante, dentre a dúzia dos quais suspeito, que me ame ou me odeie ao ponto de me confinar nesse apartamenteco. Se aqui algum dia foi, há tempos já não é, o cenário de uma vida privada. No caso, a privada se encontra em um estado lamentável. Pior, privada estou eu, de liberdade. Impossível sair. Nao ouço um som vindo de fora, o que me faz contestar se alguém escuta meus berros. Porta de entrada trancada. A única janela, emperrada, não dá fresta nem para ver um pé de pessoa na rua. Dentro, além de mim, nenhum resquício humano, bitucas de cigarro ou pedaços de sabão. O cheiro azedo seco, uma nebulosa de pó e decadência, a crueza da vazia arquitetura materializam o desabitado onde apenas fungos e bolores constituem família. Meia hora aqui, já estou entediada.
A única certeza que tenho: a ressaca é da brava. Bolas de pinball quicam na minha cabeça. A memória do que se passou ontem, ou anteontem, afunda abaixo de zero e me garante uma nova estrelinha no boletim do rolê aleatório. Ao menos os pulsos estão livres de algemas. Festa estranha, Natu Nobilis e gente esquisita, sempre é isso. Ou deve ter sido: me trouxeram amarrada, baralhada, diabada, lanchada e apagada. Não sei se me desespero mais pelo celular sumido, que ainda estou pagando, ou pelos nudes povoando a punheta alheia. Tenho 40 anos, dois gatos, um diploma de faculdade bunda, um emprego capenga, N prestações para quitar o sonho da casa própria, namorado, não, contatinhos, alguns, unhas malfeitas, haja cutícula, um não divulgado ranço com criança que grita, uma réstia de sanidade e nenhuma banheira cheia de gelo contendo o bilhete chame um médico, arrancamos seu rim. Morri, estou no inferno. Vivíssima da Silva, tenho fome. Começo a perder a noção do tempo. E da localização. Estarei em Miami, Comores, Oz, Jacu Pêssego, Transilvânia? Um bunker de condomínio neo feudal gourmet ou algum capítulo de seriado sueco de true crime? Tanto faz, nada muda a indiferença alheia. Menosprezada e posta de lado do centro das atenções, começo a ter medo da natureza desse provável emputecimento comigo. Mamãe sempre dizia nunca aceite balas de estranhos. Se foi macumba, parabéns, muito bem-feita, inveja forte, não se esqueça de partilhar o contato dos envolvidos. Três horas trancada, não quero continuar a brincar disso.
Me distraio mapeando as imperfeições da parede. Aperto as bolhas da tinta estufada e pedaços inteiros descolam da pintura, futuco a argamassa até encontrar cimento. Os olhos habituados ao escuro reconhecem uma ave. A curva da cauda, o ventre balofo, o formato do bico, achatado e comprido. Um pato perfeito. Ou marreco. Ganso, só se for filhote. Não, filhote não, que dó, o pobrezinho desfossilizado possui somente uma perna. Volto à quinta série e a piada da “perca” da perna do pato desaba como uma gargalhada de nervosismo ou escape. Peço desculpas ao pato, por rir dele. Adepta de devaneios, uso, menos do que mereço, substâncias ilícitas barra alucinógenas de forma recreativa, mas não me considero maluca ao ponto de, estando plena, falar com as paredes. E eu devo estar plena. Devo. Acho. Consciência, ainda que não me sirva muito, carece de ser mantida ao alcance, quase sempre. Não almejo perecer de estupidez, mas é assim que a maioria das pessoas morrem.
Seis horas reclusa, surge a ideia. E se eu interagisse com o pato, como o Tom Hanks e a bola no filme do náufrago? Nem gosto tanto assim da história, mas teria graça imitar. Viajo no meu caso se tornando famoso, eternizado no cinema, com uma atriz gata e digna de Oscar a interpretar meu papel. A glória. O Pato se assanha na hipótese de virar celebridade. Calma! Antes de tudo, é preciso um nome artístico. Decido criar uma biografia para ele, mas não percebo nada de patos. O mais perto que cheguei de algum foi caçando Pokémon com o filho pré-adolescente de um ex. Moleque sonso, o Alberto Jr. Minha dedicação com o menino não se justificava, Alberto Pai era péssimo de cama. Expressão cafona, de cama, mas eu sou cafona, poética até, e de fato terminei esse namoro por conta de uma trepada mal resolvida. No auge do esquenta, entre o pega aqui e o enfia ali, Alberto Pai se levantou, foi ao banheiro e não voltou. O sexo havia acabado sem ao menos começar e eu fiquei, literalmente, na mão. Ultrajado quando mencionei o termo ejaculação precoce, Alberto Pai sacanamente espalhou na firma onde trabalhávamos que eu sofria de vaginismo, o que não era verdade, e hoje, além de suplicar aos deuses para que ele morra de forma lenta e dolorosa, arrasto uma secreta curiosidade: saber se Alberto Jr. conseguiu ou não capturar Snorlax, o raro Pokémon sonolento. Na última sílaba da palavra sonolento, noto que o Pato também boceja.
Está a me achar enfadonha? Olha aqui, seu dublê de Pikachu, pega leve comigo senão eu te batizo com um nome bem feio, crio espinhos na sua cabeça e rogo uma praga para que jamais se camufle em outra coisa que não seja uma taturana gigante oriunda da Guatemala.
Ofendidíssimo, fica o Pato. Minha gafe foi imperdoável. Pikachu é um rato, não um pato. Mal me olha na cara. Ando em círculos pela maloca da amargura a mendigar sua atenção.
Juro, Pato, não te chamei de rato por mal.
Sem suportar tanto silêncio, apelo para jogo sujo.
Se não voltar a falar comigo te cancelo com uma boa mão de massa corrida, ameaça emendada com todos os nomes feios do meu vasto vocabulário de baixo calão. Ele abre o bico, xingando de volta. Esperava tudo, menos isso. A rejeição dói na alma.
Pato, acho que sem querer você quer me fazer mal… estou muito triste…não esperava por esse desfecho na nossa conversa… parece que você quer que a nossa relação termine… fale sobre isso na análise… é importante…
QUACK!
Pato.. pare, por favor… não quero te bloquear… poxa… o que está rolando… que porra é essa… não estou entendendo…
Doze horas aqui, estou insuportável, tagarelando a vastidão. O Pato continua encarcerado no seu mutismo absoluto. Me ocorre que ele pode estar a se sentir sufocado.
Vem cá, meu anjo, conte-me o que aflige seu coraçãozinho.
Deu certo, o Pato se abre. Confessa a existência em si próprio de dois seres, tão distintos quanto conflitantes: o lado pato propriamente dito, meio bobo, solitário, e o lado pavão, a identidade oprimida no reboco, a vontade clandestina de soltar a franga, e galinhar, entre pintos. Meus aplausos retumbantes tomam conta do espaço. O Pato sorri, liberto. Infla o peito e toma fôlego, e sua postura só não me excita mais porque estou varada de fome. Comeria um javali assado, depois uma sopa. Cobiço enfiar o pé na jaca, a jaca na boca, uma feijoada completa, tudo ao mesmo tempo, batatas fritas, francesinhas e lasanhas. O Pato reverencia a diversidade da minha gula e grasna que orgia gastronômica é a sua especialidade sexual culinária, que o preparo desta iguaria não cabe a amadores. Sem fórmula ou receita pronta, é preciso o dom de improvisar: o segredo é manter os mais diversos ingredientes sempre à vista, e à mão. Duvido da sua capacidade e ele me desafia a provar tal guloseima.
Exaltada e faminta, beijo o Pato e tiro da boca uma pena com gosto de quero-quero. Ele faz cena para servir a suruba que preparou. Tira a cloche de inox e voilà! Que deleite. Me fartei ao devorar aquele rocambole de carne. Um enrolado de dedos incessantes e ossos insaciáveis, com incógnitos, românticos, mamíferos, didáticos, ariranhas poliglotas e ofídios famintos, femmes fatales e homo erectus, esplêndidos ou minúsculos, fonéticos ou problemáticos, virgens ou veteranos, lascas de gladiadores despidos até a alma, um prato quente de canibalismo regado ao molho de um tango desafinado.
(Glaucia Faria)

