Amanda deu um salto, dobrou o corpo, bateu a mão na panturrilha e o bicho grudou nos dedos. Então rolou para fora do futon e levou a minhoca de volta à composteira. No pesadelo, uma porção delas tomava conta do chão de cimento queimado. Foi fácil devolver o bichinho. Ela se lembrava de ter sido apresentada à caixa de plástico no canto da varanda quando chegaram perto de meia-noite. Sobre o húmus, muitas estavam agitadas. Devia ser o calor. A cobertura de acrílico transparente deixava entrar a luz ao mesmo tempo que fazia do lugar uma estufa.
Amanda nua voltou a se deitar. Um relógio em forma de maçã indicava dez e trinta. Na mesma parede, um calendário de borracharia e um adesivo com o coelho da Playboy. O trio de antiguidades deve ter sido comprado numa casa de móveis usados. Fábio se apresentou como historiador, mas poderia ser também um museólogo.
O lugar, que parecia um cenário montado para suas fantasias, era a parte da frente de uma casa padrão. Ela afofou o travesseiro e com as mãos entrelaçadas na nuca, examinou uma a uma as plantas de sombra ou meia sombra que pendiam do teto. A varanda era uma selva, estava com cheiro de terra molhada e o chão liso respingado. Fábio aguou as plantas antes de sair. Quem sabe, tenha deixado algo para comer.
Rastejou até achar a calcinha e o sutiã nos pés do futon. Então se vestiu, prendeu os cabelos com um elástico que trazia no pulso e foi até a geladeira vermelha no canto oposto à caixa de compostagem. Afastou os ramos de uma jiboia folhuda para abrir a porta e encontrar duas latas de cerveja e outra garrafa do mesmo vinho branco que beberam à noite. Viu a tempo as taças no chão. Teria chutado as duas e cortado os pés. Viu também que entre elas jazia uma minhoca seca. A varanda fechada e coberta era mesmo um cenário. A casa começava de verdade, depois da porta de vidro que dava para a sala e para a escada por onde à noite ela e Fábio subiram da garagem.
Amanda foi para a sala. Achou seu vestido no encosto de uma das cadeiras da mesa de jantar, alisou o algodão amassado, ajustou as alças antes de passá-lo pela cabeça e amarrá-lo de novo às costas. As sandálias não estavam por ali. Desceu as escadas descalça para procurar e seguiu sujando os pés na fuligem até a porta de aço fechada. A única saída da casa não tinha qualquer controle ou chave para abrir. A luz de fora entrava por duas janelas basculantes estreitas logo acima. Se fosse invertebrada como uma minhoca e soubesse escalar a parede, passaria pelos vitrôs. Vasculhou todo o chão. As sandálias ficaram no carro de Fábio.
Subiu de volta para a sala e pegou o corredor à direita para a cozinha. Encontrou a garrafa de café lavada e seca no escorredor. No balcão, preso à parede de azulejos trincados, uma cesta com duas bananas maduras e moles, que jogou no lixo para espantar os mosquitinhos. Na geladeira, um pão de forma, margarina e três ovos. Nenhum pó de café nos armários.
Amanda encheu um copo com água, preparou um prato com os três ovos mexidos mais pão de forma na chapa e foi comer na mesa da sala de jantar onde o cheiro ácido do lixinho de pia não chegava. Mordia o pão e dava goles na água enquanto tentava descobrir nos volumes da estante alguma informação a mais sobre Fábio. À noite, quando chegaram só os postes da rua iluminavam a sala. A esta hora, a luz natural da varanda permitia reconhecer as prateleiras de madeira escura do chão ao teto, em todas as paredes, o tapete kilim, a mesa e uma única poltrona. Com a claridade, percebia melhor um leve cheiro de mofo. Na sala, não cabia um sofá.
Diante dos livros de história, fotos caseiras de mulheres nuas. Vários tipos de corpos, cor de pele e cabelos. Amanda não viu uma câmera, mas era ele o fotógrafo. Levou a mão à testa quando deu pela falta dos óculos. A bolsa com eles também ficou no carro. Terminou de comer para olhar mais de perto. Algumas fotos feitas ali mesmo na varanda, outras em paisagens de praia e campo. Algumas dele também sem roupa. O corpo sempre magro. Pareciam takes de uma filmagem presos a porta-retratos. Talvez a mais longilínea, de cabelos enrolados e curtos na prateleira mais alta seja a mulher com quem foi casado e as outras, nas imagens menores, seriam lembranças dos relacionamentos abertos. Dos trinta aos sessenta colecionou vários. Nem todas estariam ali.
Fábio ama mesmo as mulheres e a contar pela noite passada, ainda tem energia pra muitas. Amanda notou duas estantes de livros dedicados a elas. Uma para as biografias e outra para as produções feministas. Se tivesse algum interesse no homem dezoito anos mais velho, teria dúvidas se estaria se envolvendo com um intelectual ou um canalha. Talvez uma função não excluísse a outra. Considerou inteligente a sua decisão de cobrar pelo encontro. O que não pareceu nem um pouco genial é que estava presa numa casa, tinha perdido as sandálias, a bolsa e o dinheiro combinado. Fábio não gostou da ideia de pagar. Era isso e inventou o cárcere. Deixá-la sozinha numa estufa sem ter quase o que comer. Ele era um tipo perverso. Só podia.
Quando apertou os olhos para enxergar as sombras que se movimentavam diante dos livros, enxergou minhocas. Ficou paralisada ao perceber que algumas saiam das capas e enrijeciam os corpos como telescópios, outras vinham da varanda e muitas estavam nas paredes o tempo todo. O pesadelo da manhã virou real. Descalça como estava, ao pisar numa delas, feriu o pé num material duro. Os bichinhos eram câmeras. Ela engoliu alguns e foi gritar nas grades da janela.
