por Américo Paim
Aqui tem… marcou comigo nesse bar e chegou primeiro? Nem lembro se isso já aconteceu. Tá sozinho na mesa e nem escaneia o local, como seria normal. Só olha para o copo e o nada, alternando. A clássica camisa de gola careca, branca é claro, cotovelos sobre a mesa, relógio caído no antebraço esquerdo. O dedo indicador brinca com o guardanapo. Não sorri. Deve ser doença ou morte. Não é trabalho. Cheguei de viagem há poucos dias e ele me confirmou as boas expectativas no escritório. Não, não… é bagulho sério.
– Serjão, quéquetápegano, fio?
– Rominho, demorou, hein? Vai de quê?
– Nessa cascavel aí. Chivas?
– Black.
– Bora.
Toma gole longo e lento e aperta os olhos, como se descesse mal. Acena ao garçom por refil. Já não é a primeira dose. Silencia enquanto o uísque é servido. Dispensa o gelo. Rapaz, existe um problema mesmo.
– Fala! – digo eu, impaciente.
– Rominho, véi, sempre me resolvi com mulher, né?
– Ah, só podia ser isso…
– Tô numa gastura retada. Escute aí.
Me conta sobre Verena. Conheço a moça. A química sexual deu em mais de uma saída, mas ele ficou como cachorro que cai do caminhão de mudança. Ela tem corpo perfeito, curvas de engenharia, olhos e boca desenhados para o extermínio. A fala macia e gestos delicados não entregavam o que aconteceria entre as quatro linhas. A gatinha virava três leoas juntas, famintas. Quando acabava cada rodada, ela ficava com o ar de “isso é tudo que você tem?”. A ele restava pensar, grave: “não tô dando conta”. Ele fala vibrando, porém, há um misto de vaidade e perdição. Ao fim, me olha como peixe morto.
– Entendeu?
– Explique melhor.
– Véi, ela sabe tudo e mais um pouco. Tô agregando nada ali. Tá foda isso.
– Óia, vivi para ver esse dia…
– É sério. Me sentindo estagiário, na moral.
– Se ela não gostasse, já tinha lhe dado o pé.
– Até acho que gosta, mas é só na humilhação… Ela me olha diferente, sabe?
– Não.
– Reduz meu pau a palito, só com aquela cara torta que ela faz.
– Que diabo é isso?
– Um negócio enviesado, deboche, sei lá.
– Muito cabeça esse papo. Vocês tão trepando ou é só análise?
– Sei lá. Fico ali observando tudo. O que ela fala, o que faz.
– Não conhecia isso… É “foda Freud”? Já vi a “ferry-boat” …
– Oxe, qual é essa?
– De hora marcada, fio. Tem a “virgulino” também…
– Boiei.
– Na luz do lampião. Comum na roça…
– Para de palhaçada, porra.
– Qual é sua agonia, papá?
– Reverter. Tô me sentindo usado.
Eu gargalho alto e ele aceita calado. Como é possível? O oráculo do sexo, senhor de todas as mulheres, dicionário das posições, mestre das abordagens, ali encolhido, pedindo arrego? O olhar caído, a barba por fazer, cara de pouco sono, coçando o nariz a cada instante, velho cacoete de preocupação. Disfarça um ar de controle, só que eu conheço a real.
– Serjão, mofio, cê cansou de usar esse povo.
– É diferente.
– Como é? Tu não ficava mais de uma vez com ninguém.
– Dessa vez sujou. Quando eu vi, já era.
– Apaixonado, é?
– Calma, sem extremismos. Incômodo é a palavra.
– Ela não é gente boa?
– Isso não está em jogo. É só a putaria mesmo.
– Então é sua praia.
– Ela tá no controle. Isso me atrai e afasta. Dei a ideia?
– Não.
– Ah, véi, faz uma força aí! Tem mais.
Volta o garçom. Alerto que vá devagar, ele argumenta que está com o resto da tarde livre. Segue carcando o dente. Sugiro alternativas para a situação com Verena, mas ele me corta e traz um assunto novo.
– Cenira.
– Quem?
– Lembra de um seminário aqui em Salvador? Tem umas três semanas.
– Sim.
– Conheci lá. Passei o carro, claro.
– E daí?
– Me lasquei. Ficando com ela até hoje.
– Grave.
– Eu tava focado em Verena, mas sabe a história do escorpião…
– Você pode criar um, só que ele vai lhe picar.
– Pois é, surgiu essa criatura, alto nível de gostosidão…
– Aí acabou a crise.
– Mais ou menos, só que a natureza falou bem mais alto.
– Isso eu entendo. Tá tudo certo na Bahia…
– Com ela eu tô de boa, ela tá encantadinha.
– E você fica bem. Ela tá compensando.
– Deve ser, né? Agora, véi, ela é um negócio sério, precisa ver…
– Tô à disposição…
– Tá, vai sonhando…
Eu rio, mas estou chocado. Peço um uísque sem gelo também. O momento é grave. Se Gurguminho estivesse na cidade, eu convocava o comitê de crise. Serjão repetindo ficada e com duas ao mesmo tempo? Ele me conta sobre Cenira. É certinha, mulher linda, olhos verdes. Sorri espontâneo, fala musical e olha com interesse de verdade. A cantada foi bem cuidadosa. Ela presta atenção a tudo, palavras e gestos, na forma como você responde a ela. Mistura de advogada e mãe, diz ele com ar de estresse. E aí larga o doce.
– Ela é preta.
– Oi? E daí? Você também é!
– Sim, véi, mas eu quase nunca fico com preta.
– Não tô compreendendo.
– Uma criatura uma vez me disse que eu só pegava mulher branca. Se aquilo não me incomodava.
– E então?
– Sei lá. Eu gosto das brancas.
– É pra devolver a dominação racial? Tu tá fazendo terapia?
– Tô não. Acho até que devia.
– Véi, mulher é mulher e pronto. A gente nunca teve isso.
– Eu sei, mas ela ser preta tá me deixando mole.
– Falhou? Ih, caralho…
– Porra, Rominho! Não tô falando disso, féladaputa.
– Calma, só uma pilhazinha… – eu digo, rindo dele.
– Ela fica me envolvendo, cuidando. Grudenta, chatinha, mas legal. Compreendeu?
– Nunca cheguei nessa fase. Sei não. Apaixonado, né?
– Porra niúma! Vou lhe dizer o que é. Ela sendo preta, cheia de proteção assim…
– Fale.
– Velho, é como transar com minha mãe. Isso não tá certo…
– Irmão, sobre aquela ideia da terapia…
– Vai se foder, Rominho, tô falando sério.
– Não é possível. Cê tá é com medo do amor!
– Tô nada. É só que não dá pra mentir pra mãe, né?
– Entendi não.
– Não posso ficar com ela e Verena ao mesmo tempo. Isso vai dar merda.
– Véi, nem uma grade de 12 anos vai resolver essa putaria aí. Sua cabeça tá doida…
– Espere até eu terminar.
Virgínia. Quem? Outra? Peço a garrafa de uma vez. Conheceu diante de um bebedouro no tribunal. Um monumento, bem além das “formidáveis” básicas. Vestido sóbrio, promotora, da mesma altura que ele, praticante de boxe, cabelos castanhos em perfeita harmonia com o rosto fino, morena, sem excesso de enfeites em braços, pescoço e orelhas e um sorriso que lhe fez derrubar o copo com água e tudo. Como ele nunca tinha visto aquela deusa por ali antes? Enquanto limpava o chão, engasgou uns assuntos, inventou papo sobre uma pós da área dela e arranjou encontro no almoço. Dali se seguiram outros, evoluindo para jantar, mas nada além. Quanto mais ele relata, mais gosto da tal mulher, bem meu tipo.
– Ela é foda, Rominho.
– Oxe, cê pegou tantas iguais…
– Ela não. Nem me deu mole. Já são duas semanas.
– E nada?
– Acredite. Usei quase tudo.
– Menino…
– É um enigma. Sinto que quer e daqui a pouco acho que não.
– E ela continua saindo com você?
– Nem sempre. Dura na queda.
– Então tem outro. Ou é lésbica.
– Nada. Tá me testando, sei lá.
– E cê insiste por quê?
– Véi, ela não é desse mundo…
– Outra “formidável” …
– Não, é bem mais.
– Aceite a derrota, então.
– Nunca! Ela quer! Vai ceder, espere só…
– É, coitado, tá cheio de problema… Quiser passar pra mim, sem cerimônia.
– Engraçadinho.
– Amizade fraca da porra…
– Marquei com ela aqui no bar, daqui a pouco. Vou dar ultimato.
– Ah, brabo que só. Queria ver isso…
– Tem mais coisa.
– Outra mulher? Que porra é essa…
– Não. Repare: vou usar as outras pra ganhar Virgínia. Marquei com as três aqui.
Quer se declarar para ela na frente das duas. Eu apelo que isso é desespero. Elas não sabem das outras. Vai acabar sem nenhuma, claro. Não adianta. Ele confia no taco, não vai desistir. Segue bebendo, para piorar. Vou tirar água do joelho. A curta e troncha caminhada me mostra que devo parar com o uísque. Na volta, ao passar pelo balcão, encontro Milena, colega nova do trabalho, coincidência. Conversamos e lhe convido a sentar-se conosco. Ela topa. Poucos minutos de papo e ela vai ao sanitário, desfilando sua indiscutível beleza pelo caminho. Serjão fala.
– Que coisa FOR-MI-DÁ-VEL, véi…
– Ah, notou?
– Como não me apresentou antes, porreéssa?
– A moça é minha colega, não vá me criar problema.
– Quéisso, mermão, maravilhosa…
– Sim, sobre seu encontro, vamos tentar…
– Não, não… deixa isso pra lá. Vamos dar atenção a esse espetáculo.
Ele fica perto do balcão, espera a volta dela. Trocam ideia. Ela vem à mesa, pisca um olho e sai com ele. Termino meu último drinque, ainda impressionado com a facilidade de meu amigo. Entra uma criatura, tipo loucura total. Pergunta algo ao barman. Ouço seu nome: Virgínia. Olha para a mesa e vem em minha direção. Se apresenta e eu já tô lascado. Vejo uma tatuagem de escorpião perto do seu tornozelo esquerdo. É um sinal. Sem tirar o olhar dela, entrego meu melhor sorriso e gesticulo para o garçom que nem vejo. Não é sede. É a natureza…
