Maus hábitos

Samanta Schweblin nasceu em Buenos Aires em 1978. Estudou cinema na Universidade de Buenos Aires e depois abriu uma agência de design. Sua primeira antologia de contos, El Núcleo del Distúrbio, foi publicada em 2002. A segunda antologia, Pájaros en la boca, ganhou o Casa de las Américas – recentemente foi reeditado pela Fósforo, com tradução de Joca Reiners Terron.

Suas histórias têm um estilo claro e preciso, e tratam de ameaças latentes e do absurdo cotidiano, frequentemente revelando um fascínio pelo mórbido e pelo grotesco. Além do vocabulário deliberadamente reduzido e exato de Schweblin, esses esboços são sugestivamente poderosos, porque parecem vívidos sem qualquer descrição detalhada dos elementos verdadeiramente perturbadores que envolvem. Schweblin sempre começa suas histórias in medias res e escolhe finais abertos, o que aumenta o impacto perturbador. Além disso, praticamente todas as suas histórias se desenrolam em núcleos familiares. Tem sido muito comparada aos grandes da literatura fantástica argentina, como Julio CortázarJorge Luis Borges Adolfo Bioy Casares. Em 2010, a Granta colocou Schweblin em sua lista dos melhores jovens escritores de língua espanhola.

O primeiro romance, Distância de Resgate, saiu em 2014. Em seu texto rico em diálogos, Schweblin fala do encontro entre duas mulheres e seus filhos em uma aldeia à beira de um grande plantação de soja e da febre misteriosa que provavelmente está ligada ao uso de agrotóxicos. Em um de seus temas favoritos – a crítica à tecnologia – , Samanta aponta a situação atual da Argentina, onde as empresas agrícolas dominam não apenas a agricultura, mas também a vida social. O romance se tornou um filme de terror, no Brasil saiu como O Fio Invisível (Netflix).

O segundo romance, a distopia Kentukis (2018) entrelaça vários personagens de diferentes continentes, que mantêm uma espécie de animal de estimação de alta tecnologia, os Kentukis, que espionam seus donos com uma câmera embutida e divulgam as informações pela Internet. Vai sair por aqui pela editora Fósforo. Aqui tem uma boa entrevista com ela.

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PASSARINHOS NA BOCA

Desliguei a TV e olhei pela janela. O carro de Silvia estava estacionado na frente da casa, com os faróis acesos. Pensei se havia alguma possibilidade real de não atendê-la, só que a campainha tocou de novo: ela sabia que eu estava em casa. Fui até a porta e abri.

– Silvia.

– Oi – ela disse, e entrou sem que eu pudesse dizer nada. –  A gente precisa conversar.

Apontou a cadeira e obedeci, porque às vezes quando o passado bate à porta e me trata como há quatro anos, ainda sou um cretino.

– Você não vai gostar. É… é forte – olhou o relógio. – É sobre Sara.

–  É sempre sobre Sara.

– Você vai dizer que estou exagerando, estou doida, etc. Mas hoje não dá tempo. Você tem que vir pra casa agora mesmo, tem que ver com teus próprios olhos.

– Que está acontecendo?

– Também disse pra Sara que você ia, então ela está esperando por você.

Ficamos em silêncio um momento. Pensei qual seria o próximo passo, até que Silvia franziu a testa, se levantou e foi até a porta. Peguei um casaco e a segui.

Do lado de fora, a casa parecia normal, com o gramado recém-cortado e as azaleias de Silvia penduradas pelas varandas do primeiro andar. Cada um saiu de seu carro e entramos sem dizer nada. Sara estava no sofá. Embora neste ano já tivesse terminado as aulas, vestia o blusão do colegial, que lhe caía bem como naquelas colegiais das revistas pornôs. Sentava-se rigidamente, joelhos juntos, mãos nos joelhos, concentrada em algum lugar na janela ou no jardim, uma postura que me lembrou aqueles exercícios de ioga para mães. Sempre foi meio pálida e magra, mas agora, em vez disso, parecia transbordar de saúde.

Suas pernas e braços pareciam mais fortes, como se há meses estivesse malhando. O cabelo brilhava, um rosado leve pintava as bochechas. Quando me viu entrar, sorriu e disse:

–  Oi, papai.

Embora meu bebê fosse de fato um doce, duas palavras foram suficientes para que eu entendesse que algo estava errado com aquela garota, algo certamente relacionado à mãe. Às vezes penso que talvez devesse tê-la levado comigo, mas quase sempre acho que não. A poucos metros da TV, ao lado do janela, havia uma gaiola. Era uma gaiola para pássaros – de uns setenta, oitenta centímetros —; estava pendurada no teto, vazia.

– Que é isso aí?

– Uma gaiola –  Sara disse, e sorriu.

Silvia me fez um sinal pra que eu a acompanhasse até a cozinha. Fomos à janela e ela se virou para confirmar que Sara não estava nos ouvindo. Mantinha-se rígida no sofá, olhando a rua, como se nunca tivéssemos chegado. Silvia falou comigo em voz baixa.

– Olha, você precisa receber isso com calma.

– Não enrola. Que tá acontecendo?

– Eu não como desde ontem.

– Você está de brincadeira?

– Você precisa ver com teus próprios olhos.

– Eita… Ficou doida?

Disse pra que voltássemos para a sala e indicou o sofá. Sentei à frente de Sara. Silvia saiu de casa; nós a vimos cruzar o portão e entrar na garagem.

– Que bicho mordeu tua mãe?

Sara encolheu os ombros, dando a entender que não sabia. Seu cabelo negro e liso estava amarrado em um rabo de cavalo, com uma franja que ia quase até os olhos. Silvia voltou com uma caixa de sapatos. Trazia-a séria, com as duas mãos, como se fosse algo delicado.

Foi até gaiola, abriu-a, tirou da caixa um pardal muito pequeno, do tamanho de um bola de golfe, colocou-a dentro da gaiola e fechou-a. Jogou a caixa no chão e a chutou para o lado, junto com nove ou dez outras caixas parecidas que se acumulavam debaixo da mesa. Então Sara se levantou, seu rabo de cavalo brilhando de um lado e do outro na nuca, e pulou até a gaiola, como fazem as meninas cinco anos mais novas que ela. De costas para nós, na ponta dos pés, abriu a gaiola e tirou o passarinho. Não consegui ver o que ela fez. O passarinho gritou e ela lutou contra por um momento, talvez porque o passarinho tentasse escapar. Silvia cobriu a boca com a mão. Quando Sara se virou para nós, o passarinho tinha sumido. Sua boca, nariz, queixo e as duas mãos estavam manchados de sangue. Ela sorriu envergonhada, sua boca gigante se abriu e seus dentes vermelhos me forçaram a dar um salto. Corri para o banheiro, me tranquei e vomitei na privada. Achei que Silvia me seguiria e começaria com a culpa e as recriminações do outro lado da porta, mas ele não o fez. Lavei a boca e o rosto e fiquei escutando em frente ao espelho. Deixaram cair algo pesado lá em cima. Abriram e fecharam a porta da entrada. Sara perguntou se poderia levar a foto da lareira. Silvia respondeu que sim, sua voz já ia longe. Saí do banheiro tentando não fazer barulho e espiei o corredor. A porta da frente estava totalmente aberta.

Silvia levou a gaiola para o banco de trás do meu carro. Dei uns passos, com a intenção de sair de casa gritando umas coisas, mas Sara saiu da cozinha para a rua e parei para que ela não me visse. Elas se abraçaram. Silvia a beijou e a fez sentar-se no banco do passageiro. Esperei que ela fechasse a porta e voltasse.

– Que porra é essa…?

– Você leva ela.

Foi até a mesa e começou a esmagar e dobrar as caixas vazias.

– Meu Deus, Silvia, tua filha está comendo passarinho!

– Não aguento mais.

– Comendo passarinho! Você viu? Que merda ela faz com os ossos?

Silvia olhou para mim, perplexa.

– Acho que ela engole também. Não sei se os passarinhos… –  começou, e parou me encarando.

–  Não vou poder levar ela.

– Se ela ficar, me mato. Eu me mato e antes mato ela.

– Comendo passarinho!

Silvia foi ao banheiro e se trancou. Olhei através do janelão. Do carro, Sara me acenou feliz. Tentei me recompor. Pensei em coisas que me ajudariam a dar alguns passos desajeitados em direção à porta, rezando para que esse tempo fosse suficiente para voltar a ser um ser humano normal, um cara limpo e organizado, capaz de ficar no supermercado dez minutos em pé em frente à gôndola de enlatados, confirmando que as ervilhas que leva são as mais apropriadas. Pensei em coisas do tipo se pessoas comem pessoas, comer pássaros vivos não devia ser tão ruim. Também que, de um ponto de vista natureba, é mais saudável do que drogas, e do ponto de vista social é bem mais fácil do que esconder uma gravidez aos treze. Mas acho que até pegar no volante do carro fiquei repetindo sem parar comer passarinho, comer passarinho, comer passarinho etc.

Levei Sara para casa. Durante o trajeto ela não falou nada e quando chegamos desceu todas as suas coisas sozinha. Sua gaiola, sua mala –  que havia colocado no porta-malas –  e quatro caixas de sapato como as que Silvia trouxera da garagem. Não consegui ajudá-la com nada. Abri a porta e fiquei esperando-a entrar e sair com tudo. Depois de indicar a ela que poderia usar o quarto de cima, e lhe dar uns minutos para que se estabelecesse, pedi para que descesse e se sentasse à minha frente no mesa de jantar. Preparei dois cafés. Sara colocou a xícara de lado e disse que não bebia infusões.

–  Você come passarinhos, Sara –  disse.

– Sim, papai.

Mordeu os lábios, envergonhada, disse:

– Você também.

–  Você come os passarinhos vivos, Sara.

– Sim, papai.

Me lembrei de Sara quando tinha cinco anos, sentada à mesa com a gente, devorando fanaticamente uma abóbora, e pensei que encontraríamos um jeito de resolver este problema. Mas quando esta Sara à minha frente sorriu de novo, me perguntei como seria engolir algo quente e em movimento, algo cheio de penas e patas na boca, cobri o rosto com a mão, tal como Silvia tinha feito, e a larguei sozinha na frente dos dois cafés, intactos.

Três dias se passaram. Sara ficava quase o tempo todo na sala, rígida no sofá, os joelhos juntos e as mãos sobre os joelhos. Eu saía cedo para o trabalho e passava horas googleando infinitas combinações das palavras “pássaro”, “cru”, “cura”, “adoção”, sabendo que ela ainda estava sentada lá, olhando por horas o jardim. Quando eu chegava, ali pelas sete, eu a via tal como a havia imaginado o dia todo, e meus cabelos da nuca se arrepiavam, e isso me fazia querer sair e deixá-la trancada por dentro com uma chave, hermeticamente fechada, como aqueles insetos que eu caçava quando menino e guardava em potes de vidro até que o ar acabasse. Poderia fazer isso?

Quando era menino, uma vez vi no circo uma mulher barbada que pegava ratos com a boca. Ela os segurava um tempinho, os rabos se movendo entre os lábios fechados, enquanto andava em frente ao público sorrindo e girando os olhinhos para cima, como se isso lhe desse um prazer imenso. Agora eu pensava nessa mulher quase toda noite, se revirando sem conseguir dormir, considerando a possibilidade de internar Sara em uma clínica psiquiátrica. Talvez eu pudesse visitá-la uma ou duas vezes por semana. Poderia revezar com Silvia. Pensei nesses casos em que os médicos sugerem um verdadeiro isolamento do paciente, longe da família por meses. Talvez fosse um ajuste bom para todos, mas eu não tinha certeza se Sara sobreviveria em tal lugar. Talvez sim. Em qualquer caso, sua mãe não permitiria. Talvez sim. Eu não conseguia decidir.

No quarto dia, Silvia veio nos ver. Trazia cinco caixas de sapatos que deixou ao lado da porta da frente, do lado de dentro. Nenhum de nós disse nada sobre isso. Ela perguntou sobre Sara e eu apontei o quarto no andar de cima. Depois ela desceu, sozinha. Ofereci café a ela. Bebemos na sala, em silêncio. Ela estava pálida, às vezes suas mãos tremiam, fazendo-a bater a xícara no prato. Cada um sabia o que o outro estava pensando. Eu poderia dizer “É culpa tua, isso é tua responsabilidade”, e ela poderia dizer algo absurdo como “Isso aconteceu porque você nunca prestou atenção nela”. A verdade é que já estávamos muito cansados.

– Vou cuidar disso – Silvia disse antes de sair, apontando as caixas de sapatos.

Não disse nada, embora tenha agradecido profundamente.

No supermercado as pessoas carregavam seus carrinhos com cereais, doces, vegetais, carnes e laticínios. Limitei-me aos meus enlatados e fiquei quietinho na fila. Eu ia ao mercado duas ou três vezes por semana. Às vezes passava no mercado antes de voltar para casa mesmo sem nada para comprar. Pegava um carrinho e passeava pelas gôndolas pensando no que poderia estar esquecendo. À noite, assistíamos TV juntos. Sara ereta, sentada em seu canto no sofá, eu na outra extremidade, espionando-a de vez em quando para ver se ela acompanhava o programa ou se estaria de novo com os olhos fixos no jardim. Eu preparava comida para dois e a levava para a sala em duas bandejas. Deixava a de Sara na sua frente, e ali ficava. Ela esperava que eu começasse a comer e dizia:

– Licença, papai.

Ela se levantava, subiu para o quarto e fechava a porta com delicadeza. Na primeira vez, abaixei o volume da TV e esperei em silêncio. Escutava-se um guinchado curto e agudo. Alguns segundos depois, a porta do banheiro abrindo e a água correndo na pia. Às vezes, ela descia só uns minutos depois, perfeitamente penteada e serena. Outras vezes, tomava banho e descia de pijama.

Sara não queria sair. Estudando seu comportamento, pensei que talvez tivesse sofrido algum início de agorafobia. Às vezes eu levava uma cadeira para o jardim e ficava tentando convencê-la a sair um pouquinho. Mas era inútil. Preservava, no entanto, uma pele radiante de energia, e parecia cada vez mais bonita, como se passasse o dia se exercitando ao sol. De vez em quando, fazendo minhas coisas, eu encontrava uma pena. No chão perto da porta do sala de jantar, atrás da lata de café, entre os talheres, ainda úmida na pia do banheiro. Eu as pegava, tomando cuidado para que ela não me visse fazendo isso, e jogava-as no vaso sanitário. Às vezes eu ficava olhando-as sumirem com a água. Às vezes a privada voltava a encher, a água voltava a parar e ainda continuava olhando, me perguntando se seria necessário voltar ao supermercado, se fosse justificável encher os carrinhos com tanto lixo, pensando em Sara, e no que faria no jardim.

Certa tarde, Silvia ligou para dizer que estava de cama, com uma gripe horrível. Disse que não poderia nos visitar. Perguntou se eu me ajeitaria sem ela e entendi que nos visitar significava que ela não poderia trazer mais caixas. Perguntei se tinha febre, se tinha visto algum médico, e quando começou a responder eu disse que precisava desligar e desliguei. O telefone tocou de novo, mas não atendi. Assistimos TV. Trouxe minha comida e Sara não se levantou para ir para o quarto. Ela se concentrou no jardim até eu terminar de comer, e só então voltou para o programa de TV.

No dia seguinte, antes de voltar para casa, parei no supermercado. Coloquei algumas coisas no meu carrinho, como de costume. Andei entre as gôndolas como se fizesse compras pela primeira vez. Parei na seção de animais de estimação, onde havia comida para cães, gatos, coelhos, pássaros e peixes. Peguei alguns alimentos para ver como eram. Li sobre seus ingredientes, as calorias que forneciam e as sugestões de medidas recomendadas para cada raça, peso e idade. Então fui à seção de jardinagem, onde havia apenas plantas com ou sem flores, vasos e terra, daí voltei à seção de animais de estimação e fiquei ali pensando no que iria fazer depois. As pessoas enchiam seus carrinhos e zanzavam ao redor. Anunciaram nos alto-falantes a promoção de laticínios para o Dia das Mães e tocaram uma canção sobre um cara que tinha muitas mulheres mas sentia saudade de seu primeiro amor, até que finalmente empurrei o carrinho de volta à seção de conservas.

Naquela noite Sara demorou para ir dormir. Meu quarto era bem debaixo do dela e a escutei caminhando nervosa, indo para a cama e se levantando várias vezes. Me perguntei em que condições o quarto estaria, não havia entrado ali desde que ela chegou; talvez o local estivesse um verdadeiro desastre, um curral cheio de cocô e penas.

Na terceira noite após a ligação de Silvia, antes de ir para casa, parei para ver as gaiolas penduradas nos toldos de um veterinário. Nenhum pássaro se parecia com o pardal que tinha visto na casa de Silvia. Eram coloridos e geralmente um pouco maiores. Fiquei lá um tempinho, até que um vendedor me abordou para perguntar se eu estava interessado em algum pássaro. Disse que não, de jeito nenhum, só estava olhando. Ele ficou por perto, mexendo nas caixas, olhando para a rua, até perceber que realmente eu não compraria nada, e voltou ao balcão.

Em casa, Sara esperava na poltrona, rígida em seu exercício de ioga. Nos cumprimentamos.

– Oi, Sara.

– Olá, papai.

Ela estava perdendo as bochechas rosadas e não parecia mais tão bem quanto nos dias anteriores. Preparei minha comida, sentei no sofá e liguei a TV. Depois de um tempo, Sara disse:

– Papai…

Engoli o que estava mastigando e abaixei o volume, duvidando que ela realmente tivesse falado comigo, mas lá estava ela, de joelhos juntos e mãos nos joelhos, olhando para mim.

–  Quê?, disse.

–  Você gosta de mim?

Fiz um gesto com a mão, acompanhado por um aceno com a cabeça. Em seu conjunto, tudo significava sim, é claro. Ela era minha filha, certo? E ainda assim, em dúvida, pensando sobretudo no que minha ex-mulher consideraria “o correto”, disse:

– Sim, meu amor. É claro.

E então Sara sorriu, mais uma vez, e olhou para o jardim durante todo o tempo que durou o programa.

Voltamos a dormir mal, ela andando de um lado para o outro do quarto, eu me revirando e me revirando até adormecer. Na manhã seguinte liguei para Silvia. Era sábado, mas ela não atendia o telefone. Liguei mais tarde e perto do meio-dia também. Deixei uma mensagem. Sara ficou a manhã inteira sentada na poltrona, olhando o jardim. O cabelo estava meio desarrumado e já não se sentava tão ereta, parecia muito cansada. Perguntei se ela estava bem e ela disse:

– Sim, papai.

– Por que você não vai pro jardim um pouquinho?

– Não, papai.

Pensando na conversa da noite passada, me ocorreu que poderia perguntar a ela se me amava, embora isso logo me parecesse cretino. Liguei para Silvia novamente. Deixei outra mensagem. Em voz baixa, com cuidado para que Sara não me ouvisse, disse na secretária eletrônica:

– É urgente, por favor.

Esperamos sentados cada um em sua poltrona, com a televisão ligada. Poucas horas depois, Sara disse:

– Com licença, papai.

E se trancou no quarto. Desliguei a TV para ouvir melhor: Sara não fez nenhum barulho. Decidi que ligaria mais uma vez para Silvia. Peguei o telefone, e quando ouvi o tom de chamada, desliguei. Fui de carro até o veterinário, procurei o vendedor e disse-lhe que precisava de um passarinho, o menor que tivesse. O vendedor abriu um catálogo de fotos e disse que o os preços e os alimentos variavam de espécie para espécie.

–  Você gosta de exóticos ou prefere algo mais caseiro?

Bati no balcão com a palma da mão. Algumas coisas caíram no balcão e o vendedor ficou quieto, olhando para mim. Apontei um passarinho escuro que se mexia nervoso de um lado para o outro de sua gaiola. Me cobraram cento e vinte pesos e me deram uma caixa quadrada feito de papelão verde, com pequenos orifícios abertos ao redor, uma bolsa grátis de alpiste que não aceitei, e um folheto do passarinheiro com a foto do pássaro na capa.

Quando voltei, Sara ainda estava trancada. Pela primeira vez desde que veio para casa, subi as escadas e entrei no quarto. Estava sentada na cama em frente à janela aberta. Me olhou. Nenhum de nós disse nada. Estava tão pálida que parecia doente. O quarto estava limpo e arrumado, a porta do banheiro entreaberta. Havia umas vinte caixas de sapatos na mesa, todas desmontadas – para que não ocupassem tanto espaço – e empilhadas ordenadamente uma cima da outra. A gaiola estava vazia perto da janela. Na mesinha de cabeceira, ao lado da luminária, o porta-retratos que havia pego da casa de sua mãe. O pássaro se mexeu e suas patas foram ouvidas no papelão da caixa, mas Sara permaneceu imóvel. Coloquei a caixa na mesinha e, sem dizer nada, saí do quarto e fechei a porta. Então me dei conta de que não me sentia bem. Me encostei na parede para descansar um momento. Olhei o folheto do passarinheiro, que ainda levava na mão. No verso havia informações sobre os cuidados com a ave e seus ciclos de procriação. Destacavam a necessidade de a espécie acasalar nos dias quentes e as coisas que poderiam ser feitas para que os anos de cativeiro fossem tão agradáveis ​​quanto o possível. Escutei um guincho curto, e então a torneira da pia do banheiro sendo aberta. Quando a água começou a correr, me senti um pouquinho melhor e soube que, de alguma forma, seria capaz de descer as escadas.

(Trad. RB)

PROPOSTA

Bem, é mais ou menos isso o que você vai escrever. Vai contar uma história fantástica em chave realista.

Suponhamos que alguém muito próximo ao narrador – um filho, um pai, um conge, um amigo, um ser amado – começou a desenvolver um hábito estranho. Ele faz alguma coisa que parece horrível. nojenta, sem sentido, violenta ou inexplicável. Só que esse hábito o deixa feliz.

(Se quiser tornar esse relato mais próximo a você, tente lembrar de algum costume meio esquisito que você descobriu em algum conhecido – e, na hora de escrever, exagere.)

O narrador – que pode ser na primeira ou na terceira pessoas – se sente de algum modo responsável por aquele mau hábito novo. O tal costume o incomoda profundamente, mas também o fascina. É impossível não se envolver com este hábito.

Conte, usando cenas e descrições, como o narrador descobre esse hábito novo do personagem próximo, qual a sua reação, o que ele faz para convencer o personagem a abandonar o hábito, ou o que faz para combater a sensação de culpa que este hábito novo lhe traz.

O hábito é estranho mas não é fantástico; pertence à esfera do real. Assim, use descrições de modo a situar o leitor em um cenário conhecido.

Como Samanta, comece seu conto bem no meio da narração e pare em um final aberto.

Use muitas imagens.

Em até 9 mil toques (o conto da Samanta tem 18 mil).

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