Pra quem sabe ler um pingo é letra – Yan

Búzios

Andrei esperava no sofá da sala. Na frente de seus olhos passava um noticiário policial, meninos pretos empurrados para dentro de um camburão. Na frente de seus olhos passava um furacão, meninos pretos correndo, empurrando carrinhos de brinquedo e esbarrando no seu pé. Muitas mulheres vinham, gritavam pelos meninos, lhe diziam “ele já vem, tá?”, e iam embora carregando os meninos pelas orelhas. Andrei chegou na hora marcada. Duas horas depois da hora marcada, depois de muitos meninos presos no noticiário policial e de muitos beijos intempestivos de duas novelas diferentes, um dos meninos foi chamá-lo com um carrinho de brinquedo na mão.

Andrei entrou num quartinho ao lado da cozinha e encontrou um homem preto de cabelos brancos sentado ao lado de uma mesinha coberta por um pano branco. O homem mandou Andrei sentar e esperou as reclamações sobre a demora. Sempre começava os jogos muito depois da hora marcada, para as pessoas entenderem que o tempo dentro do terreiro é diferente do tempo de fora. Mas Andrei não externalizou nenhum incômodo, nem pela boca, nem pelo corpo. O homem perguntou sua data de nascimento e seu nome completo, retirou o pano branco da mesinha, descobrindo uma peneira cheia de conchas com fendas no meio. Ele guardou as conchas na concha das mãos, sacudiu três vezes e as soltou na peneira.

“Ah, um ori velho, muito velho”, o homem disse e recolheu as conchas. “Você veio para perguntar sobre trabalho?”.

Andrei confirmou, o homem tornou a soltar as conchas na peneira.

“O jogo tá dizendo que você veio por causa de amor”.

Andrei negou, insistiu no trabalho, numa viagem de trabalho, o homem soltou as conchas sobre a peneira. O homem passou o dedo por cima das conchas, formando uma constelação invisível em forte coração.

“Eu esperei esse tempo todo pro senhor não ouvir o que eu vim perguntar?”.

O homem tirou os olhos da peneira e os botou na frente dos olhos de Andrei.

“Então pro amor você não tem tempo?”, o homem disse. “Do amor você corre?”.

Andrei se levantou, abriu a carteira e jogou um dinheiro na mesinha. Ao passar pela sala, pisou num carrinho de brinquedo e viu tudo escuro.

Tarô

Andrei pegava o trem para Paris de segunda a sexta. Nos fins de semana, andava de bicicleta no bairro do subúrbio. No final da maior ladeira do bairro, onde meninos pretos, brancos e marrons faziam corridas de carrinho de rolimã, havia uma praça. Na praça, uma mulher de saião, pele queimada de sol e grandes argolas nas orelhas abria um baralho sobre um pano vermelho na grama. Andrei passava por ela e nunca parava. Um dia, o pneu de sua bicicleta furou em frente à mulher, que ofereceu um jogo. Ele negou, ela perguntou de onde ele era, ouviu e ofereceu um jogo, dessa vez em espanhol. Ele perguntou o preço, ouviu e negou. Ela deu um desconto e apontou pro pneu da bicicleta, ele aceitou. Ela o mandou tirar cinco cartas do baralho.

“La primera carta representa tu pasado”, a mulher disse e desvirou a primeira carta. Apareceu a figura de um homem e uma mulher de mãos dadas vigiados por um anjo, no céu, atrás deles. 

“Hum, los enamorados”, a mulher disse. “Hubo una mujer, no?”.

“No”, Andrei disse e olhou cabisbaixo para o pneu furado da bicicleta.

“Ahora, la carta que representa tu momento actual”. Apareceu a figura de um homem de cabeça para baixo pendurado pelo pé numa árvore.

“Ay, pobre”, a mulher disse. “El colgado. Ahora, la tercera carta, lo que te atrapa”.

Apareceu a figura de uma charrete puxada por duas esfinges, com um cavaleiro romano segurando as rédeas.

“Que chistoso”, a mulher disse e riu. “El coche es lo que no te deja seguir”.

Andrei se levantou, abriu a carteira e jogou o dinheiro sobre as cartas.

“No te vayas, mi colgadito morocho”, a mulher disse.

Andrei empurrou a bicicleta e o pneu furado o mais rápido que pôde, até sumir da praça. 

Runas

Paulo devia ser um dos poucos, de todos os colegas de sua turma da faculdade e de hospital, que escrevia em letra de forma. Não era o único, claro, que não entendia nada das receitas de remédio quando ele mesmo ia ao médico. Mas não entendia a letra de nenhum de seus colegas. Não é de se estranhar, portanto, que não entendeu quase nada do que estava escrito no verso do cartão postal com a foto da Ponte dos Cadeados. O texto no verso, numa letra do primeiro médico da humanidade, dizia: “não-sei-o-que-lá-não-sei-o-que-lá, loucura, não-sei-o-que-lá, de tanto tempo, não-sei-o-que, abrir o coração”. O resto todo não dizia nada em lugar nem em língua nenhuma. A única coisa que Paulo sabia era onde ficava a Ponte dos Cadeados. E que aquela assinatura, onde não dava pra entender nada, mais onde havia uma estrela enorme, era de Andrei. Andrei assinava uma estrela no lugar do pingo do i, a letra mais legível de todo aquele cartão postal.

Signos

Andrei batia os pés nos pedais e as mãos no volante. Estava tão ansioso que resolveu alugar um carro para chegar mais rápido no dia e não perder tempo dentro do trem. Estava quase tão ansioso como no dia em que comprou a passagem, menos do que no dia em que mandou o cartão postal. Estava tão ansioso que resolveu esperar dentro do carro quatro horas antes do necessário para chegar no aeroporto. Estava tão ansioso que resolveu acelerar logo para o aeroporto, mesmo a fortuna cobrada por cada hora no estacionamento.

Andrei não queria esperar o tempo passar, não queria mais deixar tempo nenhum passar. Por isso, não deu passagem para diversos pedestres. As placas de trânsito francesas são diferentes, mas um pare é sempre um pare. Assim como um sinal vermelho é sempre um sinal vermelho. E esse sinal Andrei não soube ler. O motorista do caminhão soube, porque o dele estava verde, e passou com tudo por cima do carro alugado de Andrei.

Paulo ainda está esperando no desembarque.

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