— A Fofinha pariu quatro pobrezinhos ontem. Não quer adotar um?
— Helena, há menos de três meses você me fez a mesma pergunta.
— Não gostaria de conhecê-los? Talvez alguma amiga sua queira.
— Vou qualquer dia, se o Seu Doutor não se incomodar.
Helena trabalhava para ele, Seu Doutor, o magistrado aposentado assim conhecido, vizinho da casa ao lado da minha. Minha era modo de dizer, eu alugava um quarto em uma moradia compartilhada, cujo regulamento não permitia animais. Enxutão para setenta e tantos, Seu Doutor adorava papear, ali, na calçada mesmo, com quem lhe desse trela. Carente, que só. Eu me divertia com o exagero dos seus causos, uma linha acima do dramático, uma abaixo do gagá. Talvez por pena, ou preguiça, dava um belo desconto quando ele citava Salazar de boca cheia. Alvos e artificiais, seus dentes aparentavam uma fileira de Mentex alinhados. Viúvo, tinha um único filho, Antônio, que morava em Londres, e as vagas palavras acerca dele condoíam, ressentidas. Seu Doutor vestia-se bem, e seus suéteres caros achavam-se sempre repletos de pelos de gatos.
— Eles não saem do meu colo, justificava.
— Nunca sei quantos gatos o senhor tem!
— Nem eu!, e rebatia rindo, e engasgando, e tossindo, como um javali fanho assustado.
O coronavírus chinês começava a circular nas vias respiratórias portuguesas e as máscaras de proteção não davam conta de tanta procura. Com o rosto semicoberto por uma bandana dobrada em triângulo, fui, dias depois, e pela primeira vez, à casa vizinha, conhecer a ninhada. O cheiro de mijo de gato impregnado no carpete transpassou o lenço e ardeu minhas narinas.
— Vai assaltar um banco? ele perguntou, bonachão.
— Vim roubar os gatinhos que nasceram, brinquei.
Nem ele nem Helena acharam graça na piada, e o ar pesou feito uma bigorna em cima da minha cabeça. Na cozinha, dentro de uma caixa, a gata amamentava um único e minúsculo filhote.
— E os outros?
Apesar do som da tevê estar altíssimo, Helena sussurrou:
— Só tem este.
— Mas não eram quatro?
— Cheguei hoje cedo e já não estavam mais aqui.
— Como não estavam mais aqui?
— Não estavam.
— E o Seu Doutor, o que disse?
— Ele nunca fala nada.
Gafanhoto, um pequenote de meses, miou, pedindo colo. A empregada o apertou contra o peito.
— Este foi o escolhido na última cria da Lindinha.
— Escolhido?
— Seu Doutor gosta mesmo é de ver as gatas parirem. Depois separa um filhote, e dá um sumiço nos outros.
— Ele mata?
— Acho que sim. Já limpei sangue no banheiro.
— E porque nunca contou isso a ninguém?
— Tenho medo de perder meu emprego.
Meu pensamento vomitou. Meu vizinho não era o senhor simpático que demonstrava ser, ou que eu supunha que fosse. Era o Mengele dos gatos. Pior, outra gata, a Bolinha, estava prenha. Sua barriga era uma bomba-relógio prestes a explodir.
— Helena, me explica isso direito.
— Quem me contratou foi o filho. Ele que paga meu ordenado. Ganho aqui o que jamais ganharia em outro lugar. Antônio é muito rico. E eles não se dão. Seu Doutor nem conhece os netos. Cuido da casa, da comida e das compras. Ele não sabe fazer nada. Só assiste televisão. Mas agora, com esse vírus… moro longe, tenho medo de me contaminar.
— Poderia dormir aqui, sugeri.
— Nem pensar, tenho três crianças.
Bolinha roçou minha perna, e ronronou. Interpretei como um sinal de confiança, um pedido de proteção. Pensei em adotá-la, na surdina, e resguardar seus bebês. Seu Doutor reagiu mal.
— Daqui ela não sai.
Quanto a questão da empregada, deu de ombros:
— Não é problema meu.
Foi inútil minha denúncia, tanto para a polícia quanto à proteção animal. Início de pandemia, sem flagrante, demanda fora de cogitação. Entrei em contato com o tal filho. Helena não poderia mais trabalhar, e seria justo que continuasse a receber salário. Antônio concordou, iria providenciar outra funcionária o mais rápido possível. Entre a saída de uma e a chegada da outra, me ofereci para ficar com Seu Doutor. Mentira, queria impedir outro gaticídio. Antônio pediu o número da minha conta bancária. Meu saldo explodiu de felicidade. Um filho que, literalmente, pagava para se ver livre do pai monstro.
Seu Doutor embirrou ao saber que passaria uns dias com ele, mas eu tinha em mãos o trunfo dele não se virar sozinho. Já na primeira noite, repeliu as sobras requentadas do almoço.
— Isso já virou lavagem.
Jantei acompanhada apenas pelos talheres de prata, a porcelana Vista Alegre e um vinho que peguei na adega, divino. Ocupei o quarto que um dia foi de Antônio, e alguns gatos me seguiram. Demorei a adormecer.
De manhã, a arrogância do Seu Doutor reclamou a mesa não posta, o suco de laranja que faltava. Driblei seu mau humor apontando um livro sobre a Lisboa Queiroziana, e ele palestrou horas sobre Eça de Queiroz. A convivência se mantinha suportável, mas não honesta. Ele carregava a indignação de quem sabe que está sendo vigiado, eu dissimulava a tensão de quem vigia, e nós dois fingíamos que estava tudo certo.
Uma semana se passou, arrastada. Desconsiderando as grosserias recebidas, fiz uma lasanha, que durou dois dias, e nem o Iron Maiden no fone de ouvido me isolou de quilos e quilos de reclamação. Passei a pedir pratos prontos, que camuflava o preparo, e comíamos separados. Se na teoria meu plano era pura boa vontade, na prática eu despencava em um abismo profundo. A empregada nova não chegava, a polícia não dava a mínima, o mundo morria lá fora. Eu era um soldado despreparado no front de batalha. Seu Doutor fazia questão de toalhas limpas todos os dias, apenas um item de uma lista de tarefas não contempladas: deixar a casa menos imunda, e o cheiro mais suportável, lavar a louça, limpar as caixas de areia. Comecei a partilhar no Instagram momentos desse confinamento surreal, enviei áudios pedindo ajuda, mas não fui levada a sério. Julgavam meu desânimo uma performance. Enquanto as redes sociais amigas exalavam pilhas de livros, receitas de pães e links para ioga online, eu metia na lava roupas as cuecas cagadas do Seu Doutor. A gata Margarida atravessou com dificuldade a grade que separava a cozinha da lavanderia. Gelei. Ela também estava prenha.
O volume alto da tevê dublou meu silêncio. Uma conta absurda me atropelou. Havia, no total, doze gatos na casa. Doze. Uma dúzia. Seis mais seis. Oito fêmeas, quatro machos, nenhum castrado. Busquei no Google o estrago gerado em um ano, e o número foi indecifrável. Havia uma über urgência em separá-los. Encarnei a monitora severa de acampamento adolescente: tranquei os meninos no quarto do Seu Doutor e as meninas no que eu dormia, tentando explicar a projeção catastrófica desse cenário. O retorno foi o mais agressivo possível:
— Na minha casa mando eu!
Por volta das oito da noite Bolinha se enfiou em um armário da sala, respirando ofegantemente. Afofei os dedos por entre seus pelos e senti tanto a ternura quanto a tortura à um braço de distância. Atrás de mim, o bafo quente do diabo arrepiou minha nuca.
Em duas horas nasceu o primeiro gatinho. Publiquei o parto e recebi uma enxurrada de oinnns! e coraçõezinhos. Uma hora e meia depois, o segundo. Cinco da manhã, seis bebês. Estava exausta, não mais que a gata mãe. Quis levá-los para o quarto das meninas, mas o instinto materno felino não me deixou nem chegar perto. Não por isso, trouxe o colchão para dormir ao lado deles. Ao abrir a porta do quarto, as gatas fugiram. Seu Doutor soltou os machos de propósito, e me afrontando:
— Ninguém manda em mim!
Repliquei que ele estava certíssimo, eu não mandava nele. Exigiu algo decente para comer, e aleguei que igualmente não mandava na fome dele. Dormiu possesso no sofá, ao som do volume máximo da tevê e do estômago que roncava. Cacei as gatas e as prendi no quarto, de novo. Depois de um bom tempo sem tirar o olho do combo gata+gatinhos, cedi à um cochilo no colchão, com a mão na porta do armário. Acordei com os chutes do Seu Doutor.
— Estou com fome.
Inaugurei o projeto revanche. Sumi com as pilhas do controle remoto e pedi delivery de comida congelada da marca mais barata.
— O que é isso?
— Pizza.
— Não como esta merda.
— É isso ou nada.
Sem a maldita televisão, ele berrava, enfurecido. Ignorei, cantando alto uma música besta. Seu Doutor libertou as fêmeas, que esfolavam a porta. Os machos, agressivos, mijavam em tudo. Consegui, outra vez, isolar, uma a uma, cinco gatas. Ao colocar a sexta, duas fugiram. Margarida repetia o comportamento inquieto de Bolinha. Estava entrando em trabalho de parto. As gatas presas miavam como loucas. Quer saber? Saiam todas, que se foda. Eu não dormia há mais de trinta horas, faminta, sem banho, atolada em uma confusão mental. Tranquei os quartos, a porta da cozinha, e deixei todos, felinos e humanos, na sala. Posicionei o telefone na estante, e dei início a uma live no Instagram. Com a cara na tela pedi socorro, alternando voz pastosa e palavrões bem colocados. No auge do descontrole, arremessei objetos e taças em direção ao Seu Doutor, enquanto ele me acusava de vagabunda que quer me matar de fome.
— Ah é, seu bosta? Come isso, e atirei os pedaços da pizza no cocô dos gatos.
Ofereci um dos recém-nascidos:
— Mata! Mata agora, se tem coragem, fascista filho da puta!
O pega para capar já era dos bons, transmitido ao vivo devia estar melhor. Ele repetia que eu o torturava, sua maluca, cachorra! Então toma aqui, seu covarde, tentando esfregar patê de gato na cara dele. A live bombava, a audiência explodia, sem acreditar no que ouviam, uma agonia borrada e abafada, brados, urros e miados, intimidações, constrangimentos e empurrões, e eu nunca soube quem foi, se amigo ou vizinhança, que percebeu o alarido, não sei, qual momento, em meio à desordem, que ouvi a sirene, depois a campainha, só lembro de ter sido eu a abrir a porta, com os braços sangrando por conta de tantos arranhões, dele, de gatos, e foi chorando que tentei abraçar o policial.
— Não se aproxime. A senhora está detida por maus-tratos a idosos.
