Cada família infeliz, é infeliz à sua maneira

O terapeuta havia sido enfático: meu pai e minha mãe precisavam dar um tempo. Não, eles não enfrentavam uma crise conjugal. Ainda. Só deveriam, e já, viajar para qualquer ponto do planeta em que o silêncio imperasse. O topo de uma montanha, ou nada mais baixo que isso, um local onde apenas a voz interior fosse ouvida. Ou nem ela.

A estafa dupla era da grossa. E nossa rotina sempre foi pacata. Quando digo nossa, me refiro aos meus pais, ambos engenheiros, e a mim e meu irmão gêmeo, Lulu. Mês passado completamos 20 anos. Lulu estuda engenharia. Já eu, abandonei esse curso no primeiro semestre. Entrei no embalo e detestei. Sonho em ser médica. Dedico meus dias à uma vaga em Medicina. Estava enfiada nos livros quando meus pais me avisaram da chegada do novo velho quinto elemento da casa. Seu Zé. Meu avô paterno viria morar conosco. Gostei. Na almejada Medicina, Geriatria já era uma opção.

Isso se deu há cerca de um ano. Na época, minha avó, mulher dele, se encontrava hospitalizada, com câncer. Seu Zé, também se afundava em uma má fase. Bebia, fumava, falava sozinho. Meu pai fez o convite, ele aceitou. Passei a dividir o quarto com Lulu, que passou a dormir na casa da namorada. Seu Zé adorou ter um teto só dele.

Minha avó faleceu pouco tempo depois. Embora tenha sacaneado a vida toda com ela, Seu Zé ficou arrasado. Talvez para fugir da falta, da culpa, ou da vida, ele permaneceu fechado no seu mundinho. Passou a ler, avidamente. Eu deixava comida e livros novos na porta do quarto, dois, três por dia. Ele não se alimentava, devia sobreviver de palavras. Uma semana depois, o casulo rompeu. Seu Zé reapareceu na sala, tagarelando, complexo, metamorfoseado em algo, no mínimo… kafkaniano.

Com esse jeito bufão, o novo Seu Zé não tardou fazer amizades, e sem se entender o telefone celular, passou a dar o número fixo de casa para os colegas. O aparelho, inativo há anos, voltou a receber chamadas. Ele conversava muito, do jeito dele. Depois ia beber. Estava feliz. Nós não. Se a sua personalidade era exaustiva, tampouco na ausência dele descansávamos. Ainda mais com meus pais gozando a licença-tranquilidade.

— Vô, o Senhor tossiu a noite toda, deveria ficar em casa. Eu me preocupo, de verdade.

— Nada é tão lamentável e nocivo como antecipar desgraças, respondeu, enrolando a ponta dos bigodes à la mode Salvador Dalí.

E saiu.

Não deu uma hora, o telefone tocou: encrenca. Desta vez Lulu e eu não tiramos o par ou ímpar do atende você. Agarrei o fone, na esperança de, ao receber a bomba, seria justo ele resolvê-la.

— O que aconteceu? meu irmão esfregava as mãos, tenso.     

— Chamaram a polícia, economizei na explicação.

A preguiça da minha fala era tão ou maior que a irritação na voz de Lulu:

— Não posso mais faltar na faculdade.

Fui eu, a última moicana paciente, ao bar, resolver o perrengue. Não presenciei o barraco, mas na minha cabeça um filminho em looping acusava que o agente causador da discórdia havia sido, ele mesmo, Seu Zé.

Os policiais já estavam indo embora quando cheguei. Captei no resmungo do guarda a mensagem leve este velho daqui que eu tenho mais o que fazer.

O acontecido:

Dois ou três papeavam, ele se meteu no assunto, e aqueceu a desavença. Seu Zé inflamava até conversa de freira. No auge do fuzuê, ele discursou, porque sempre discursava. Um novato que ali bebia não distinguiu o delírio debochado do meu avô de uma verdadeira agressão e ameaça verbal. Independente do excerto literário elegido, ele sempre dramatizava com emoção. Termos como juramento, vingança, morte, provavelmente contidos no manifesto, chocavam desconhecidos. E o assustadinho do balcão achou por bem acenar para uma rádio patrulha que por coincidência passava.

O policial deu por encerrada a ocorrência. Seu relato foi seco, sarcástico, para lá de ignorante:

— Um idoso alcoolizado, declamando aos berros, ou é louco, ou é ridículo, ou é poeta. Isso não configura crime, portanto não há motivo para detê-lo.

Ainda aconselhou:

— Leve seu avô para casa e dê um chá de sossega leão para ele.

O dono do bar emendou:

— Caducando assim, qualquer dia Seu Zé se mete em algo sério.

Conheço o avô que tenho. A presença dele, no bar que tanto gostava, não somente se tornava dispensável, como já beirava a inconveniência. Não o defendi, apenas constatei:

Mas ele está calado.

Fechou a matraca assim que percebeu sua chegada.

O bar muquifo era bonitinho, mas ordinário. Mesas e cadeiras de plástico laranja, balcão de fórmica fingindo madeira. Metade da parede revestida por azulejos rosa calcinha, acima deles, uma pintura com validade vencida e cartazes escritos a mão: proibido entrar sem camisa, favor pagar antes de beber, o uso do banheiro restrito aos clientes. O piso de cerâmica hidráulica, antiga e o batente amarelo das portas arrematavam o kitsch raiz que os diretores de arte amam reproduzir nos filmes cult. Seu Zé, largado em um canto, flácido na banqueta, beicinho de choro, mirava o copo com olhos vermelhos pelo sabão coletivo. Qualquer desinformado julgaria estar diante de um vovô ofendido e humilhado. A-han. Seu Zé jamais perdia um grand finale. Prestes a deixarmos o local, ele arqueou o lombo, feito gato eriçado, e imponente, já era outro, de braços levantados, dedos da mão afastados, bem abertos, rosto contraído, pescoço repuxado. Senhor do céu, tenha piedade. Senta, que lá vem performance.

Agora sou cativo. Meu corpo está agrilhoado num cárcere, meu espírito aprisionado numa ideia. Uma horrível, sangrenta, implacável ideia! Não tenho mais senão um pensamento, uma convicção, uma certeza: sou um condenado à morte!

Não era ocasião para rir, mas não me contive. O aplicativo de reconhecimento de voz do qual andava viciada, decodificou como sendo um trecho de O Último Dia de um Condenado à Morte, de Victor Hugo.

Vô, chamaram a polícia para averiguação. O senhor nem foi preso. Não sofre.

A purificação pelo sofrimento é menos dolorosa que a situação que se cria a um culpado por uma absolvição impensada.

 Não repliquei. Dostoiévski dava sempre um bom ponto final na conversa.

Apesar da ventania, voltamos a pé. Ofereci meu casaco.

Veste isso.

Sempre que me acontece alguma coisa importante está ventando, costumava dizer Ana Terra, respondeu.

Relutou, gesticulou que não, por fim trajou o agasalho. Depois acendeu um cigarro. Arranquei o cigarro da boca dele.

Ana Terra não pagará a conta de outra pneumonia. Lembra do que os médicos falam sobre fumar?

Mesmo quando todos os especialistas estão de acordo podem muito bem estar enganados.

Ele nunca concordava, nem discordava. A epopeia da oratória embromava, apenas. E continuava emburrado.

Vô, não acha que já está grandinho para rebeldias?

A rebeldia, aos olhos de qualquer pessoa que tenha estudado um pouco de História, é a virtude original do ser humano.

Ter um avô com memória prodigiosa é motivo de orgulho. Um que fala tempo todo, é puxado. E se comunica apenas com citações, uma maçada. Se melodramatiza, leva à loucura antes do parágrafo dois. Disparatando, se houvesse um zoológico humano, Seu Zé ocuparia a jaula mais concorrida da visitação. Ou, em uma analogia mais crível, seria o bêbado morador da praça, se não contasse com a minha paciência, e a Lulu. A dos meus pais, estava a um haikai de perder.

Minha mãe ameaçava:

— Ou cala a boca, ou vira mendigo e vai morar debaixo da ponte.

— Meu orgulho será forte, se o mendigo for eu mesmo, quando tiver a força e fraqueza de aproveitar tal destino.

Os amigos achavam graça no vovô tragicômico. Para eles, éramos injustos e egoístas.

Ignorem o velho que ele acalma, aconselhavam. Sabem nada, inocentes.

Nosso silêncio era o palco perfeito para infindáveis monólogos. Minha casa havia deixado de ser casa, havia se tornado qualquer coisa, uma mescla de circo de aberrações, teatro do absurdo, coro grego e comédia de portas.

O avô da minha infância foi um homem normal. Normal para a época, quero dizer. Mulherengo, beberrão, cáustico. Não lembro dele lendo um livro sequer. Também não era amigo do trabalho. Quando bebia, crescia na coragem, e o físico frangote não bancava o galo de briga. Malandro, sabia fugir das embrulhadas sem ser caçoado. Dobrava os oponentes no bico, ganhava qualquer briga na lábia. As palavras bonitinhas e bem combinadas, todas inéditas, vinham dele mesmo. Nessa era da autenticidade, um bom dia, boa tarde e boa noite recebiam iguais bom dia, boa tarde e boa noite, sem que os cumprimentos desembocassem no clube da luta do diálogo.

Em casa, milagrosamente calado, Seu Zé continuava aborrecido. E fumando.

Minha consciência pesada estava faminta.

Vamos ao supermercado, preciso comprar algumas coisas para o jantar.

Veio a récita.

Deus fez o alimento, o Diabo acrescentou o tempero.

O contexto em que uma coisa é dita, muda o que é dito. Não me senti atingida, já acostumada com essa franca convivência. Mas devolvi a bolada:

Por acaso o senhor está me chamando de Diabo?

— O acaso… é um Deus e um diabo ao mesmo tempo.

Lulu tirou o corpo fora, avisou por mensagem que dormirá na casa da namorada.

Previ um final de semana batuta.

(Glaucia Faria)

>> Citações

>> Cada família infeliz, é infeliz à sua maneira (Liev Tolstói)

>> Nada é tão lamentável e nocivo como antecipar desgraças (Sêneca)

>> Agora sou cativo. Meu corpo está agrilhoado num cárcere, meu espírito aprisionado numa ideia. Uma horrível, sangrenta, implacável ideia! Não tenho mais senão um pensamento, uma convicção, uma certeza: sou um condenado à morte! (Victor Hugo)

>> A purificação pelo sofrimento é menos dolorosa que a situação que se cria a um culpado por uma absolvição impensada (Fiódor Dostoiévski)

>> Sempre que me acontece alguma coisa importante está ventando, costumava dizer Ana Terra (Érico Veríssimo)

>> Mesmo quando todos os especialistas estão de acordo podem muito bem estar enganados. (Bertrand Russell)

>> A rebeldia, aos olhos de qualquer pessoa que tenha estudado um pouco de História, é a virtude original do ser humano (Oscar Wilde)

>> Meu orgulho será forte, se o mendigo for eu mesmo, quando tiver a força e fraqueza de aproveitar tal destino (Jean Genet)

>> Deus fez o alimento, o diabo acrescentou o tempero (James Joyce)

>> O acaso… é um Deus e um diabo ao mesmo tempo (Machado de Assis)

Deixe um comentário