– Furasse a mão, foi? Presta atenção, Juliana – Carlos Eduardo do RH se espanta com o volume da própria voz diante da namorada que, na hora de passar o requeijão, deixa o pote de vidro cair. Aquela melequeira cortante no mamão, nas torradas e na mesa de MDF que tinha chegado essa semana ainda no apartamento.
– Não precisa falar assim também, né?
– Essa tua mania de requeijão Aviação não vai rolar, R$15,90, rapaz. O Vigor tava R$9,59. Vou dar conta de tu morando aqui nesse luxamento todo não.
– Mas né foda, eu que tô pagando o mercado.
– Mas paguei a mesa.
– E eu com isso? Tu gasta 350 contos no beach tennis e quer mesmo que eu more numa casa sem mesa de jantar. Ah, faça-me o favor.
Foi pegar a xícara de café num movimento meio rápido, doido pra imprimir agressividade, só que sem saber fazer direito – Carlos Eduardo manso feito uma ameba – acabou esbarrando num caco de vidro, sujou o punho da camisa e ainda cortou uma beiradinha da lateral da mão. Caiu no choro. A primeira reunião começa em 5 minutos, 5 minutos, ele soluçava e repetia.
– Venha cá, chore não. Vai demitir é?
– Eu não demito, Ju. Eu desligo.
– Pronto vá se preparar pra seu deligamentozinho que eu já levo o café.
Desligamentozinhos. Eram 3, tudo online, 1 com multa de FGTS e 2 justas causas. Passou dias estudando os títulos dos convites do Meet, testando os links das salas – um pra cada, pra não ter perigo do demitido, (ui, desculpa) do desligado 1 esbarrar com o 2, o 2 com o 3, já já vira o sindicato, maior pesadelo de Carlos Eduardo era o sindicato – enfim, nesse nervoso já estourou duas herpes.
Convite: Google . Alinhamento final de expectativas // Inês Costada – seg. 05 ago. 2024 09:00 – 09:40 (BRT) (ines.costada_qualidade@grupoguthenberg.com.br)
https://meet.google.com/seus-son-hos
Tomou até um susto quando abriu a sala e já pulou aquele quadradinho de alguém pedindo autorização pra entrar. Inês apareceu atarraxando os brincos, cabelo molhado pingando no ombro, deixou cair uma das tarraxas, justificou que aquela era de rosquear, por isso tão difícil, abaixou na mesa na busca, disse que eram os brincos de tia Eulália, aquela de Caruaru, te falei que sou de Caruaru, não falei?
– Olhe, antes de dar bom dia, quero te agradecer. Vi o título da sala, nunca em nenhuma empresa que eu trabalhei me perguntaram dos meus sonhos. Objetivos, plano de carreira, até já rolou, mas sonho, sonho não. E eu sei que aqui não é essa a pergunta, mas se for tudo bem contigo, queria te contar do meu sonho de hoje. Faz psicologia pra ser do RH, não faz? Tô anotando os sonhos agora, sabe? É pra anotar, né? Porque sonho é assim, você acorda lembrando até da cor do cavalo branco de Napoleão, olha a hora no celular e não sabe mas nem se Napoleão era o cavaleiro ou o cavalo. E digo sabendo que tu sabe, claro. Mas se na hora do olho ainda nem 100% aberto, tu abrir o grupo de WhatsApp que tem contigo mesmo – o meu chama “Bom dia, Inezita!” – e gravar num áudio com voz de sono ainda um: branco, branco, o cavalo era branco, é capaz de tu conseguir descrever sem nem pensar direito a sequência todinha. Ele tava sentado numa cadeira de escritório, feito a tua, altona, o cavalo, (de gravata, camisola e crachá da Gutenberg) dando ordem pra aquela cachorra que Danielle Brito (minha amiga de infância) tinha. E Pipoca, a cachorra, chorava uma lágrima meio neon Pantone, enquanto cantava “É o amor”, só que com a voz da Sandy, aí entrava Rubem Franca, nosso professor da oitava série, e fazia todo mundo repetir que “a história é uma sucessão de sucessos e insucessos que se sucedem sucessivamente sem cessar”, Pipoca, o Cavalo, Sandy, a cabeça do Lula no corpo de Cazuza, minha fonoaudióloga (também da infância), Danielle Brito e eu, sem errar a pronúncia de nenhum, nenhum S. Depois dei uma micro acordadinha e sonhei de novo. Era uma festa de 15 anos e eu era daminha. Todo mundo entrava com os meninos da escola de quando eu tinha 15 anos de verdade. Lilian com George Muniz, Danielle Brito com Clauber (que era assim com C mesmo) e os outros pares todos que reconheci o rostinho, mas não lembro dos nomes. Cada menina com um vestido de cor diferente e modelo igual. No peito, um dos elementos dos ursinhos carinhosos, lembra deles? Um sol, um coração, um trevinho, um arco íris. A minha vez nunca chegava e eu não conseguia ver o rosto do meu par, mas as mãos eram enormes. A gente atrás de uma cortina, como se fosse um palco, tudo escuro. Era como se eu tivesse um olho no salão, vendo as meninas entrarem, e outro em mim, vendo a mão gigante do menino que estava comigo. Um contexto rápido, estou lendo Frankenstein e fiquei muito impressionada com a altura da criatura de Victor. Ele tinha 2,40 m, eu tenho 1,63 m. Já tinha 1,63 m aos 15. Baile de debutante lá em Caruaru é um negócio grande, sabe? A cortina abria e eu saia vestida de Laranjinha, a amiga da Moranguinho, (a inadequação, tu entende? A inadequação) e de braço dado com o Sloth dos Goonies. Veio a imagem na tua cabeça? Dá um googlezinho aí.
Carlos Eduardo fez que ia dar Google e derrubou a sala. Eram 9h40 e ele não tinha conseguido dizer a Inês que a falta de foco não combinava com o cargo de controle de qualidade que ela ocupava na gráfica. Era lançamento do romance do filho do dono da editora e ela tinha deixado passar um erro. Dos grandes, feito os bailes de debutante de Caruaru. Clicou no próximo link já sentindo o ardorzinho da terceira herpes no canto oposto da boca do da primeira.
Convite: Google . Romance Augusto Gutenberg // José Mauro – seg. 05 ago. 2024 09:40 – 10:20 (BRT) (jose.mauro_acabamento@grupoguthenberg.com.br)
https://meet.google.com/sem-ces-sar
Hiperventilou na espera por José Mauro por 15 minutos. Ele não sabia, mas o gerente de acabamento era temporão de 4 irmãos. Pegou seu Paulo e dona Estefânia já cansados. Nos primeiros anos, eles se revezavam pra botar Zezé pra dormir, os livros infantis esculachados pelos irmãos mais velhos, a galera meio sem dinheiro e sem paciência pra frequentar livraria, só tinha sobrado um exemplar mal editado de Meu pé de Laranja Lima. Fosse o pai ou a mãe, ninguém dava conta de chegar no final do livro. Dormiam. Por sorte, a professora da primeira série adotou a história como atividade de leitura coletiva. Mas Zezé teve catapora e perdeu o último capítulo. Cuidou de arrancar uma a uma as últimas páginas do romance de estreia de Augusto Filho, menino dos olhos do dono da editora. Teria sido a primeira justa causa do dia de Carlos Eduardo se o único convidado da reunião não tivesse faltado ao último compromisso profissional da carreira no Grupo Gutenberg. José não tinha aprendido a lidar com os fins.
Convite: Google . Pausa necessária // Flávia Storn – seg. 05 ago. 2024 10:20 – 11:00 (BRT) (flavia. storn_juridico@grupoguthemberg.com.br)
https://meet.google.com/nua-nui-nha
Tava lá no título do e-mail. Pausa necessária. Bem no título, precisava nem de explicação. Na cabeça de Flavinha, iam votar a proposta que ela lançou já faz bem uns 3 anos, 60 dias de férias. Por que não? Se fosse pra contar, assim na matemática mesmo, as horas extras e os telefonemas fora do expediente, fim de semana, feriado e o escambau, dava pra mais de 3 meses. Seria como um desses benefícios de frigobar e mesa de sinuca no escritório só que 10 vezes melhor. Numa dessas podiam até começar a pensar num Great Place to Work da vida. Às vezes a gente fala mal do trabalho, mas a galera até que se esforça, né? De repente para de pagar o plus, prime, gold – sei lá como chama, na verdade ela nunca pagou, tinha só planos de pagar – do Linkedin, que parece que o povo tá pronunciando assim em inglês mesmo. Esses dias, ela falou bem aportuguesado com o carinha do aplicativo e ele corrigiu: Linnnnkedinnnnn. O acento no lugar errado, uns 9 Ns pelo menos, deus me livre. Ela tomou 5 bloody marys pra aguentar a conversa Itaim do cara, o look Itaim do cara, o som Itaim que ele botou no carro. Chegando em casa conversaria até em alemão, embora não tenha levado o cara pra casa porque nem português saiu quando ele abriu a porta, sentado no carro, meio se atravessando por cima dela, acho que você bebeu demais, parece que foi isso que ele disse. Ela tropeçou no cinto e quem ajudou a levantar foi Pedro, o porteiro, o cara nem pra ver se tinha machucado. Sei lá, tá precisando de férias.
Passou até corretivo pra aparecer na reunião. Na hora que Carlos Eduardo do RH autorizou a entrada na sala, a bichinha chega se organizou na cadeira. Tem dia que a vida é até bonita, né? Tomou um gole de água, fez rum rum na garganta e olhou bem dentro do olho do colega, tava com cara de cansado, tadinho. Não deu tempo nem de Carlos Eduardo olhar de volta, bateu o braço na xícara de café, molhou a mãozinha cortada e o teclado, a tela brilhou branca, apagou, brilhou branca de novo, o computador fumaçou e a conexão de Carlos Eduardo caiu. Tem nada não. Amanhã é beach tennis com José, Inês e ele. De repente tomam um suco de laranja depois do jogo e aproveitam pra discutir a ideia.

